Mercado cripto: analistas estimam 2º semestre mais positivo um ano após halving do Bitcoin
Publicado por: Broadcast Exclusivo
7 minutos
Atualizado em
25/04/2025 às 13:40
Por Fabiana Holtz, do Broadcast
São Paulo, 25/04/2025 - O mercado de criptomoedas comemorou no último dia 19 um ano do chamado "halving" do Bitcoin, quando é cortada pela metade a recompensa dada aos mineradores por confirmarem transações na blockchain. A redução dessa vez foi de 6,25 BTC para 3,125 BTC. Esse processo, que ocorre a cada quatro anos, tem impactos significativos no preço do Bitcoin, na dinâmica da mineração, além de ser fundamental para o esquema anti-inflacionário da principal criptomoeda do mercado.
Para Julián Colombo, diretor de Políticas Públicas da Bitso para a América Latina, embora tradicionalmente os halvings tenham sido precursores de ciclos de alta, este ano pós-halving tem sido mais complicado. "A queda de mais de 20% desde o recorde histórico em janeiro de 2025 surpreendeu muitos. Apesar do halving de abril de 2024, ainda não vimos a disparada imediata que alguns esperavam", afirma.
Há vários fatores que podem explicar esse cenário, avalia Colombo. Primeiro, o clássico "Buy the rumor, sell the news": muitos investidores já haviam precificado o halving, comprando BTC em 2023 e no início de 2024. Isso se soma a um ambiente macroeconômico complexo, com taxas de juros ainda altas nos EUA e na Europa, além das intenções de aumento de juros por parte do presidente dos EUA Donald Trump, um entusiasta cripto.
Segundo ele, o cenário levou a uma rotação para outros tipos de investimentos, como o ouro e outros ativos tradicionais. "Apesar disso, sou otimista e acredito que teremos um segundo semestre positivo para o Bitcoin em particular e para o mercado cripto em geral", afirma
Nos últimos 12 meses, o Bitcoin registrou uma valorização de 48% (conforme cotação atual no site Coinmarketcap). Com esse desempenho, a criptomoeda conseguiu igualar e até mesmo superar os rendimentos do mesmo período de alguns dos principais ativos do mercado tradicional, aponta Sebastián Serrano, CEO e cofundador da Ripio. Já o ouro apresentou alta semelhante, de 42%, reforçando a ideia do BTC como equivalente a um "ouro digital".
Para Guilherme Nazar, vice-presidente regional da Binance para a América Latina, que atua fortemente no ecossistema blockchain e exchange global de criptomoedas, esse momento consolida a percepção de que o Bitcoin está cada vez mais inserido na dinâmica de ativos de longo prazo. "As incertezas macroeconômicas globais e disputas tarifárias dominaram a agenda e impactaram fortemente os mercados financeiros, incluindo os preços dos ativos digitais. Mas quando olhamos os fundamentos da Web3, vemos que eles seguem fortes", avalia.
Um ano após seu último halving, diz Serrano, o Bitcoin chega nesse momento cada vez mais escasso, mais difícil de obter, mais procurado por grandes investidores e mais aceito em nível comercial. "Talvez a verdadeira mudança provocada pelo início do ciclo desse quarto halving, que, não podemos esquecer, ainda tem mais três anos pela frente, não tenha sido nos preços e rendimentos, mas na consolidação de seu lugar no sistema econômico e financeiro do mundo atual, de mudanças constantes e vorazes, ainda cheio de problemas do velho mundo do dinheiro - algo que o Bitcoin veio resolver há mais de 15 anos", afirma.
Estrutura mais otimista
Com relação ao ciclo atual, Beto Fernandes, analista da Foxbit, vê um bom desempenho, considerando que se olharmos para as mínimas e máximas desde que o halving foi acionado, se observou uma valorização superior a 120%. "Com o ativo retomando a região dos US$ 90 mil nos últimos dias, estamos vendo uma estrutura mais otimista para o mercado", afirma.
Mesmo assim, pondera Fernandes, houve muita pressão sobre o ativo nos últimos 12 meses. E por fundamentos mais externos à criptomoeda. Em um primeiro momento, o mercado entrou em euforia com o início do corte de juros pelo Fed, em setembro do ano passado, e a posse de Donald Trump. Porém, com a reversão desse bom humor, em meio as reviravoltas proporcionadas pelo tarifaço e com a projeção econômica enfraquecida e o possível descontrole da inflação, o mercado financeiro optou por entrar em um modo de maior cautela, afirma o analista.
Em resumo, os desenvolvedores e o mercado estão fortemente engajados, enquanto a rede permanece bastante segura, conclui Fernandes.
Momento pré-Halving
Ao olhar para o último ano é importante recordar que em 10 de janeiro de 2024, após anos de recusa, a Securities & Exchange Comission, o órgão de regulação de mercado de capitais dos EUA, finalmente aprovou onze ETFs à vista de Bitcoin nos Estados Unidos. Assim, pesos pesados do setor financeiro, como BlackRock, Fidelity, Ark Invest e Grayscale, puderam começar a oferecer veículos regulamentados para que vários fundos de hedge, fundos de pensão e fundos institucionais de riqueza pudessem ter exposição ao Bitcoin, sem precisar gerenciar criptomoedas diretamente.
Entre janeiro e março do ano passado, os ETFs absorveram mais de US$ 12 bilhões, gerando um choque de demanda pouco antes do choque de oferta de cada halving. Como resultado, o preço do BTC subiu ao longo do ano, de US$ 42.000 no início de 2024, até cerca de US$ 93 mil no último dia do ano passado.
Mas o primeiro trimestre de 2025 foi marcado por forte volatilidade, em meio as idas e vindas de um presidente Trump recém empossado e bastante instável, e a tendência de baixa no preço acabou levando a melhor. Nesse período o Bitcoin caiu de US$ 94.416 para US$ 82.500 (-13%). Prova das fortes oscilações registradas pelo ativo no período, a BTC bateu US$ 109.114 em 20 de janeiro, dia da posse de Trump, configurando recorde histórico, a chamada All Time High do BTC.
Mesmo como o novo governo tendo cumprido algumas promessas de campanha para o setor de cripto, a sensação de instabilidade constante gerada pela "guerra tarifária" de Trump contra o comércio internacional, em especial com a China, se impôs. Tal cenário levou os investidores a buscar proteção em ativos mais seguros, como títulos de renda fixa e ouro.
Porto seguro e fundamentos sólidos
Em um contexto de comércio global e de caos geopolítico, na avaliação de Serrano, da Ripio, o Bitcoin continua sendo visto como uma proteção contra a desvalorização global das moedas e como seguro contra possíveis cenários extremos. "Também é possível identificar nos eventos dos últimos meses um impulso baseado no desenvolvimento da infraestrutura, na adoção institucional, nos desenvolvimentos regulatórios e na crescente escassez do Bitcoin como ativo; um cenário muito mais sustentável ao longo do tempo do que as altas baseadas na sazonalidade do varejo ou na formação de momentos especulativos descontrolados", pontua o CEO da Ripio.
Apesar da correção, há fundamentos sólidos que podem levar o Bitcoin a atingir novos picos, pondera Colombo, da Bitso. "Primeiro, vemos uma adoção institucional contínua, com mais fundos de pensão, bancos e grandes empresas adicionando Bitcoin aos seus balanços. Segundo, uma redução na oferta (efeito retardado do halving): o impacto real do halving geralmente é sentido entre 6 e 12 meses depois, quando a menor emissão encontra uma demanda crescente. Terceiro, uma política monetária mais branda - se o Fed cortar as taxas a partir da segunda metade de 2025, as criptomoedas podem se beneficiar. Por fim, uma maior clareza regulatória: um marco legal mais definido nos EUA, Europa ou Ásia pode atrair mais capital institucional", afirma o executivo.
Para os próximos meses, na visão de Fernandes, da Foxbit, o mercado dá sinais de uma possível nova alta. Ele aponta que historicamente, os ciclos de alta contabilizados a partir do halving tem duração de 1 ano e 5 meses. "Ou seja, em uma leitura superficial, os investidores poderiam vislumbrar uma valorização do ativo até setembro deste ano".
Mas, é claro, há fatores externos importantes a serem considerados. Há uma forte aposta de que o Federal Reserve corte seus juros em junho. Em tese, isso seria uma janela interessante para os investimentos de risco. Entretanto, a possibilidade de uma estagflação nos Estados Unidos e a sequência das tensões com a China têm potencial para apagar o bom humor do mercado e impedir novas altas.
O analista da Foxbit considera que veremos um jogo intenso nos próximos meses, até que o mercado encontre o equilíbrio entre a guerra comercial, desenvolvimento econômico e macroeconomia.
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