Raízen: Atualização de crédito - Março/2026
Análise de emissores de crédito privado
Publicado por: Análise BB
6 minutos
Atualizado em
12/03/2026 às 16:46
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Ao longo dos últimos trimestres, temos acompanhado com preocupação a deterioração financeira que a Raízen vinha apresentando, marcada pelo rápido avanço do endividamento, uma aparente demora nas decisões estratégicas envolvendo estrutura de capital versus a expectativa dos investidores e crescente pressão sobre e acionistas (vide relatórios de análise de crédito e de equity). Os dois pilares necessários para reverter esse quadro, aporte de capital e venda de ativos relevantes, avançaram lentamente, em nossa avaliação, ao mesmo tempo em que a companhia continuou apresentando forte queima de caixa, crescente e desempenho operacional fraco, principalmente no segmento agro (EAB). Os resultados recentes, combinados às notícias sobre rebaixamentos de rating, renúncias no conselho e reorganização dos bondholders, reforçaram o entendimento de que o processo seria mais difícil tanto na perspectiva dos minoritários quanto para detentores de dívida, com risco elevado de haircut (corte e/ou alongamento na remuneração) e diluição acionária.
Esse diagnóstico foi materializado no anúncio de ontem, através do pedido de . A companhia comunicou estar avaliando uma solução abrangente para o fortalecimento de sua estrutura de capital, envolvendo: (i) aporte de R$ 4 bilhões, sendo R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões da Aguassanta (família Ometto); (ii) reestruturação completa do endividamento, com possibilidade de conversão de parte da dívida em capital, alongamento do saldo remanescente, e venda de ativos não estratégicos; e (iii) condução dessa negociação em ambiente juridicamente protegido, possivelmente via recuperação extrajudicial. Esses movimentos, somados à contratação da Rothschild & Co e dos escritórios Pinheiro Neto e Cleary Gottlieb, sinalizavam que uma reestruturação estava dada vez mais próxima.
O pedido de Recuperação Extrajudicial abrange cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras quirografárias. Segundo o comunicado, o plano já conta com a adesão inicial de credores representando mais de 47% desses passivos, percentual suficiente para o ajuizamento (acima do mínimo legal de 1/3), restando agora o desafio de atingir o quórum legal de homologação nos próximos 90 dias. O plano prevê, entre outras medidas: pelos controladores, conversão de dívidas em equity, substituição de parte dos créditos por novas dívidas, alienação de ativos, e possível segregação societária de linhas de negócios (modelo que entendemos como negativo). Importante notar que o escopo é estritamente financeiro: obrigações com clientes, fornecedores, revendedores e parceiros operacionais não são afetadas, e a companhia afirma seguir operando normalmente.
A decisão pela recuperação extrajudicial consolida a tese de que a solução envolverá necessariamente perdas econômicas para detentores de dívida e possíveis diluições para acionistas, incluindo minoritários. O aporte de R$ 4 bilhões, embora relevante, é muito menor do que as estimativas de mercado (entre R$ 20 e R$ 25 bilhões), reforçando que a estabilização dependerá da execução disciplinada do plano, da velocidade de adesão dos credores, bem como da concretização da venda de ativos e da capacidade dos controladores em sustentar financeiramente a reestruturação. Dentro do modelo proposto, nosso entendimento é o de que a conversão de parte das dívidas em equity é um dos elementos centrais para sustentar a reestruturação.
Com o plano, a Raízen passa a ficar protegida para buscar um acordo com os credores pelos próximos 90 dias, período conhecido como standstillBold, preservando o seu caixa ao postergar pagamentos de dívidas quirografárias (sem garantias, como CRAs, e debêntures). Como funciona este processo? A companhia deverá apresentar uma proposta estruturada aos credores, envolvendo prazos, eventuais carências, ajustes de taxa, alongamento da dívida e possíveis mecanismos de conversões, entre outros. Essas condições ainda precisarão ser analisadas e validadas pelos credores. Os ativos de dívida com vencimentos neste mês já não devem ter seu pagamento realizado, assim como os demais compromissos quirografários, até que o processo esteja definido. Esperamos que ao longo dos 90 dias de standstill sejam detalhadas condições e um cronograma que possa trazer mais clareza aos investidores. Como a Raízen chegou até essa situação? Para mais detalhes, sugerimos a leitura da nossa última revisão de preço (equity), onde abordamos as premissas da companhia e o que deu errado, bem como nossa última atualização de crédito, apontando os eventos recentes e aumento da cautela em relação ao ativo.

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