'Tarifaço' de Trump eleva temor de estagflação nos EUA: o que é isso?
Impacto das tarifas americanas tem preocupado analistas, que temem quadro que combina inflação em alta e economia estagnada
Publicado por: Broadcast Exclusivo

Impacto das tarifas americanas tem preocupado analistas, que temem quadro que combina inflação em alta e economia estagnada
Publicado por: Broadcast Exclusivo
Atualizado em
02/04/2025 às 09:07
Por Aline Bronzati e Fabiana Holtz, do Broadcast
São Paulo, 02/04/2025 - O risco de os Estados Unidos atravessarem um período de estagflação, ou seja, inflação com tendência de alta e crescimento econômico em baixa, estão crescendo sob o temor dos efeitos colaterais das tarifas aplicadas pelo governo do presidente Donald Trump.
Enquanto as pressões inflacionárias foram visíveis em fevereiro, a confiança do consumidor americano caiu ao nível mais baixo em dois anos e as expectativas para o aumento de preços atingiram o pior patamar em mais de três décadas.
Tudo isso às vésperas daquilo que tem sido chamado pelo governo Trump como o "dia da libertação": esta quarta-feira, 2 de abril, dia em que o presidente americano deve anunciar um pacote robusto de tarifas.
Os dados gerais do índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) dos EUA no mês de março vieram em linha com as expectativas de Wall Street. Mas o núcleo do índice, que exclui itens voláteis como preços de alimentos e energia, levantou preocupações ao subir 0,4% em fevereiro ante janeiro, acima dos 0,3% estimados por analistas ouvidos pela FactSet . No ano, o indicador teve alta de 2,8%, também acima das previsões, de 2,7%.
O núcleo do PCE em fevereiro atingiu o maior patamar nos últimos 24 meses, o que reforçou a preocupação de analistas quanto a pressões inflacionárias persistentes nos EUA, e como isso deve se refletir no comportamento dos juros no país.
E o temor não é em vão. O PCE é a métrica de inflação preferida do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que utiliza da taxa básica de juros como ferramenta para manter a inflação dentro da meta.
Em paralelo, o humor dos consumidores nos EUA azedou ainda mais, além do que o mercado e a leitura anterior indicavam, em reação a um ambiente coberto de incertezas por causa das medidas de Trump, em especial, o efeito das tarifas na maior economia do mundo.
O índice de confiança do consumidor americano caiu de 64,7 em fevereiro para 57,0 em março, segundo dados da Universidade de Michigan. "Os consumidores continuam preocupados com o potencial de dor em meio aos desenvolvimentos da política econômica em andamento", disse a instituição, ao explicar os dados.
A pesquisa da Universidade de Michigan apontou ainda que as expectativas de inflação em 12 meses nos EUA subiram de 4,3% em fevereiro para 5,0% em março. É o maior patamar desde novembro de 2022. Os consumidores também estão pessimistas em um horizonte de cinco anos, com as expectativas passando de 3,5% para 4,1% de um mês para o outro. O dado foi "ainda mais impressionante", na visão de El-Erian. "É o nível mais alto em 32 anos", alertou o guru de Wall Street.
Para analistas, inflação alta e gastos baixos nos EUA elevam a pressão para que o BC dos EUA mantenha os juros inalterados ao longo de 2025. O mercado segue dividido, ora precificando cortes totais de 0,50 ponto porcentual em 2025, ora reforçando a aposta de uma redução total de 0,75 pp.
"É improvável que o Fed corte as taxas de juros este ano", diz o economista-chefe adjunto da consultoria Capital Economics para a América do Norte, Stephen Brown.
Enquanto isso, Wall Street se prepara para mais volatilidade diante das incertezas do que pode vir no pacotão de tarifas, previsto para ser anunciado neste dia 2. A semana passada começou com sinais de que as taxações do Trump 2.0 poderiam ser mais brandas do que o mercado estava inicialmente prevendo, e terminou com o anúncio de tarifas de 25% para carros não fabricados nos EUA, ressaltando quão altas são as incertezas no ambiente.
"É difícil ter uma forte convicção sobre o quão severas essas novas tarifas serão", diz o economista-chefe do Morgan Stanley para os EUA, Michael T Gapen, em nota a clientes. "A incerteza é alta e permanecerá elevada após os anúncios da próxima semana", reforça.
O sentimento do empresariado americano também está sendo impactado, uma mudança de comportamento após a vitória de Trump, que injetou maior confiança nos executivos, como relatou uma série de banqueiros de Wall Street no início do ano.
"Os consumidores estão gastando menos devido às crescentes preocupações com a inflação e a economia", alertou o CEO da Lululemon Athletica, Calvin McDonald, ao anunciar projeções anuais mais tímidas do que o mercado esperava.
"Isso está se manifestando em um tráfego mais lento em toda a indústria nos EUA no primeiro trimestre, o que também estamos vivenciando em nossos negócios", acrescentou.
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Considerando os ciclos econômicos, a estagflação - termo que combina as palavras inflação com estagnação - acontece quando a economia de um país registra simultaneamente aumento de preços (inflação), recessão econômica e um crescimento acentuado do desemprego.
Quando esse cenário se configura as ações de governos e bancos centrais para atingir um equilíbrio entre estímulos para a economia e a preservação do poder de compra da população ficam enfraquecidas. Nesse ambiente, se o governo adotar políticas para conter a inflação, poderá desacelerar ainda mais a economia e gerar mais desemprego.
Ainda assim, se o Banco Central cortar os juros com o objetivo de impulsionar a atividade econômica e a geração de empregos, o movimento pode acelerar a inflação.
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