Tarifaço de Trump começa para China, México e Canadá; Brasil pode ser menos afetado, segundo analistas
Publicado por: Broadcast Exclusivo
10 minutos
Atualizado em
05/03/2025 às 09:57
Por Equipe Broadcast
Nova York e São Paulo, 05/03/2025 - O tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi anunciado oficialmente nesta terça-feira, 4, e os primeiros alvos são México, China e Canadá. Outros mercados estão na mira, o que sustenta uma onda global de aversão a ativos de risco, já observada nos mercados na segunda-feira, e eleva temores quanto aos efeitos negativos de uma guerra comercial para a economia global.
Também ontem, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, decidiu retaliar, anunciando que vai aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos importados dos Estados Unidos. A cobrança atingirá um total de 155 bilhões de dólares canadenses (US$ 107 bilhões) em mercadorias. Em resposta, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou aumentar ainda mais a tarifa sobre produtos importados do Canadá.
Além disso, a Casa Branca divulgou ordem executiva na qual eleva as tarifas a importados da China de 10% para 20%. No texto oficial, é apontado que a República Popular da China (PRC, na sigla em inglês) não está atuando de forma satisfatória para coibir a exportação de drogas para os Estados Unidos, sobretudo de fentanil.
Em reação a Trump, Pequim impôs novas taxas de 10% a 15% sobre as exportações agrícolas dos Estados Unidos e anunciou novas restrições de exportação e investimento a 25 empresas dos EUA, alegando "motivos de segurança nacional".
Por sua vez, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirmou que a retaliação às tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra importações mexicanas será anunciada em praça pública no domingo, 9, às 15 horas (de Brasília).
- Aumentando o clima de disputa, Trump usou sua conta na Truth Social para voltar a estimular as empresas a transferirem suas operações para os EUA. "Se as empresas se mudarem para os EUA, não haverá tarifas!", escreveu com letras maiúsculas.
Possíveis ameaças ao Brasil
Em discurso no Congresso dos Estados Unidos no fim da noite da terça-feira, 4, o presidente americano voltou a defender a taxação de mercadorias importadas e citou o Brasil entre os que "cobram tarifas injustas" sobre produtos americanos, ao lado de União Europeia, China, México e Canadá.
O etanol brasileiro já havia sido citado explicitamente pela Casa Branca há cerca de duas semanas como exemplo de produto de falta de reciprocidade. Há uma pressão antiga dos Estados Unidos para redução do imposto de importação aplicado pelo Brasil sobre o produto norte-americano, de 18% ante 2,5% da tarifa cobrada para o etanol brasileiro que entra nos Estados Unidos. Outros produtos mencionados anteriormente mas ainda sem detalhes são aço e alumínio, apesar de prometerem uma revisão e estudo geral das condições de acesso aos mercados.
Embora a ameaça tarifária dos EUA sobre o etanol seja iminente, fontes disseram ao Broadcast que para carnes, o risco é considerado baixo, bem como para o café.
Bancos americanos como o Bank of America e o Citi veem, contudo, o Brasil como o país menos exposto ao tarifaço de Trump, por conta do déficit comercial que o país tem com os EUA. "O Brasil tem a menor exposição direta e indireta às tarifas dos EUA, uma vantagem de ser uma economia muito fechada", dizem os analistas do Bank of America em relatório a clientes.
- "A Argentina e o Brasil não estão em risco dado o déficit comercial com os EUA", afirma o economista do Citi para a América Latina, Ernesto Revilla, em um relatório que serviu de base para um vídeo enviado a clientes do banco americano, ontem, comentando as tarifas de Trump. "O México é singularmente vulnerável a tarifas relacionadas ao comércio."
Em termos de efeitos de tarifas, no México, as exportações representam cerca de 35% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a média da América Latina é 24%. No Brasil, uma economia mais fechada, é pouco menos de 20% e na Argentina é menos de 15%. "O comércio do México é extremamente concentrado nos Estados Unidos, com 80% de suas exportações", disse Revilla no vídeo, ressaltando que a média da região é 33%.
Em termos de superávit comercial com os Estados Unidos, o México tem o segundo maior no mundo, de US$ 172 bilhões, só perdendo para a China, com US$ 295 bilhões. "Muitos dos países da América Latina têm um déficit comercial com os EUA, o que os protege das tarifas", disse ele.
No Brasil, a avaliação de economistas é semelhante ao de bancos estrangeiros. As tarifas de Trump podem afetar negativamente o crescimento da economia americana e consequentemente, mundial, avalia o economista-chefe da Equador investimentos, Eduardo Velho. Países emergentes devem ser penalizados, mas no curto prazo a avaliação é de que no Brasil o foco deve se manter nos desafios domésticos.
- "Não prevejo uma recessão nos EUA, mas o mercado está aumentando a aposta na desaceleração do crescimento americano", diz Velho. O economista destaca que a desaceleração mundial, que afeta a demanda por exportações, é ruim para os países emergentes, incluindo o Brasil. Contudo, considera que o principal ponto de atenção com a economia brasileira segue com as questões internas. "O que mais vai influenciar os ativos, no curto prazo, é a evolução fiscal e a falta de espaço para cortes de juros."
Já para o México e o Canadá, bancos e consultorias estrangeiros alertam para riscos mais fortes de recessão à frente. A Capital Economics calcula que, caso a taxação permaneça em vigor, uma contração de 1% do PIB mexicano neste ano seria "plausível".
- "Mesmo que algum tipo de acordo seja alcançado para suspender essa tarifa, a ameaça contínua de barreiras comerciais dos EUA pesará na confiança e no investimento e prejudicará o crescimento do PIB do México", diz o economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson. Ao contrário de Canadá e China, o México não tem espaço fiscal para apoiar a economia, acrescenta. No caso do Canadá, os danos podem ser ainda maiores. A Capital Economics estima que as tarifas devem causar um impacto no PIB do país de cerca de 3% no primeiro ano.
A Moody's calcula que US$ 3 trilhões de fluxo do comércio global estão sob risco diante do ataque tarifário do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a parceiros comerciais como União Europeia, México, Canadá e China. Tanto a implementação das taxas quanto as repostas retaliatórias terão efeitos de crédito desiguais nos setores e nas economias, alerta a agência de classificação de risco, em relatório.

