Fed sob ataque: quando os juros dos EUA devem cair e o que seus investimentos têm a ver com isso?
Publicado por: Broadcast Exclusivo
7 minutos
Atualizado em
01/08/2025 às 12:01
Por Gustavo Boldrini e Thais Porsch, da Broadcast
São Paulo, 01/08/2025 - A última decisão do Federal Reserve (Fed), que manteve os juros dos Estados Unidos inalterados na faixa de 4,25% a 4,50% pela quinta vez consecutiva, ampliou as críticas do presidente americano, Donald Trump, ao atual chefe do banco central, Jerome Powell, e mostrou divisão entre os dirigentes da autarquia a respeito da política monetária da maior economia do mundo.
Em meio à crescente pressão do governo Trump sobre Powell, cresce a incerteza sobre o efeito da guerra tarifária promovida pelo governo dos EUA nas perspectivas de inflação do país. Isso tem levado o dirigente do Fed a manter um discurso de "esperar para ver" na condução dos juros do país e atrasado a perspectiva de cortes na taxa dos Fed Funds.
Por outro lado, dados de emprego divulgados hoje mostram um mercado de trabalho menos dinâmico nos EUA, o que já tem sido apontado por dirigentes do banco central do país como motivo para cortar os juros.
Com tanta incerteza, afinal, quando é que os juros vão começar a cair nos EUA? E como isso pode repercutir aqui no Brasil, nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do nosso Banco Central? Entenda:
Por que o Fed ainda não cortou os juros?
Após a reunião da última quarta-feira (30/07), o presidente da autoridade monetária, Jerome Powell, preservou o tom de "esperar para ver" e deixou em aberto os próximos passos do órgão, alegando que o banco central ainda não tem uma conclusão sobre a decisão da próxima reunião, que ocorre em 17 de setembro.
Ele apontou que dados ainda precisam ser analisados e que o Fed não decide juros com antecedência. O comunicado do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, em inglês), o órgão do Fed que decide os juros, apontou que "a incerteza sobre as perspectivas econômicas permanece elevada".
E é justamente essa incerteza, portanto, que tem feito o Fomc esperar antes de cortar ou até mesmo adiantar quando os juros serão reduzidos. Mas já há dirigentes que discordam dessa demora no afrouxamento monetário.
Fed dividido?
Na reunião de quarta-feira, chamou a atenção de analistas e investidores o fato de que dois diretores do Fed, Christopher Waller e Michelle Bowman, tiveram discordâncias em relação à decisão de manutenção dos Fed Funds no atual patamar.
Segundo análise da Capital Economics, foi a primeira vez desde 1993 que dois membros do Conselho de Governadores do Fed votaram contra o presidente do BC americano. A consultoria britânica não considera, no entanto, as discordâncias como um sinal significativo de que o Fed está se aproximando de optar por um corte em setembro.
Nesta sexta-feira, os dois diretores que discordaram de Powell na reunião justificaram suas decisões: Waller afirmou que as tarifas americanas trazem "aumentos pontuais" nos preços e não causam inflação e disse que os juros nos atuais níveis representam riscos negativos para o mercado de trabalho; Bowman também apontou o mercado de trabalho "menos dinâmico" como motivo para um possível corte.
Trump eleva o tom
Enquanto isso, crescem os ataques a Powell. Mais cedo, o presidente Donald Trump voltou a desferir ofensas contra o chefe do Fed, chamando-o de "retardado teimoso" e afirmando que ele deve "substancialmente reduzir as taxas de juros agora".
Trump acrescentou que, caso Powell se recuse a fazê-lo, o Fomc deveria "assumir o controle" para cortar os juros, como "todos sabem que precisa ser feito".
Quando os juros dos EUA vão cair?
Deixando as pressões de lado e olhando para os dados, o relatório oficial de empregos dos EUA, conhecido como payroll, pode dar a Trump a sua tão sonhada redução nas taxas de juros na próxima reunião do Fed.
Segundo dados que saíram mais cedo, a economia dos EUA criou 73 mil empregos em julho em termos líquidos, abaixo da mediana de analistas consultados pelo Projeções Broadcast, que apontava para a abertura de 101 mil vagas.
O Departamento de Trabalho americano ainda fez fortes revisões para baixo nos dados dos payrolls anteriores: o número de empregos criados em maio caiu de 144 mil para 19 mil, e o de junho recuou de 147 mil para 14 mil.
Todos esses sinais de fraqueza do mercado de trabalho levaram analistas a precificar que o Fed realmente cortará os juros na reunião de setembro. Segundo ferramenta do CME Group, perto das 10h (de Brasília), a probabilidade de uma redução de 25 pontos-base nos Fed Funds na próxima reunião do Fomc era de 69,2%. Ontem, esse corte tinha apenas 37,7% de chances.
Como os juros dos EUA afetam o Brasil?
A política monetária do Fed pode mexer com a economia e os investimentos no Brasil em vários sentidos. Especialmente porque os juros americanos regulam os rendimentos dos Treasuries, os títulos de dívida do Tesouro dos EUA, que são considerados os mais seguros do mundo.
Juros americanos elevados podem incentivar investidores globais a comprarem esses títulos e tomarem menos risco em países emergentes, como o Brasil, ao passo que cortes de juros tendem a elevar o apetite por risco.
Essa dinâmica também pode afetar o dólar, e, consequentemente, a taxa de câmbio no Brasil. Se o Fed cortar os juros, os ativos denominados em dólares podem se tornar menos atraentes, o que tende a favorecer o real.
E o Copom?
E tudo isso implica nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), que na última quarta-feira também decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano e deu a entender que continuará segurando os juros neste nível por algum tempo.
Analistas têm apontado o câmbio como um fator muito importante para as próximas decisões do BC brasileiro. Afinal, um dólar mais controlado representa menor risco de aumento da inflação, enquanto um dólar alto eleva essa preocupação e dá ao Copom menos espaço para cortar juros.
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