Dinheiro no bolso e preocupação na Bolsa: como o salário entra nas análises de investimento
Salários têm efeito no PIB e afetam a inflação, o que mexe com juros e investimentos
Publicado por: Broadcast Exclusivo
4 minutos
Atualizado em
24/01/2024 às 16:47
Por Luana Pavani
Aumento de salário é bom e a gente gosta. Do ponto de vista da teoria econômica, o salário é um pouco mais complexo. Na cabeça dos analistas que fazem projeções futuras, que terão reflexo sobre as recomendações de investimentos, salários elevados podem ser preocupantes.
O que a maioria dos países que adotam o regime de meta de inflação busca é fazer com que os preços gerais da economia caiam e permitam que o porcentual fique mais próximo do objetivo. Mas se os salários aumentam, em tese cresce o poder de compra, o que pode gerar inflação. E se a inflação sai do controle ou se distancia da meta, o banco central eleva a taxa de juros. Um dos efeitos esperados sobre a atividade econômica é que se desacelere, e as pessoas não elevem seu padrão de consumo. Com juros mais altos, as empresas têm custos de produção mais elevado e diminuem o ritmo de contratação, afetando o emprego.
Há ainda o componente político, já que os Estados brasileiros têm autonomia para definir o valor do salário mínimo regional conforme a estratégia de desenvolvimento local, o que por sua vez afeta a decisão das empresas de investir nesta ou naquela região, conforme os custos de mão de obra. Para entender melhor como se dá essa ciranda do salário na economia, acompanhe:
Como o salário mínimo afeta os investimentos?
O nível de salários é um dos componentes dentro dos indicadores de emprego que os economistas observam para traçar suas projeções macroeconômicas. A lógica é que o salário mínimo está relacionado com o poder de compra dos trabalhadores. Todos os anos, o valor é reajustado na intenção de promover um ganho real (descontada a inflação) sobre a renda do trabalhador. Com isso, aumenta a propensão ao consumo de bens e serviços, o que gera pressão inflacionária. Por outro lado, as empresas precisam atualizar as folhas de pagamento, e a combinação de custos mais altos com juros mais altos pode vir a ser compensada via aumento de preços dos produtos finais, o que gera mais inflação.
A tendência de alta dos salários pelo mundo é um fator de preocupação para os dirigentes de bancos centrais, pois representa um risco de alta para a inflação. Na teoria de política monetária sob regime de metas de inflação, a missão do banco central é o controle da inflação tendo como instrumento a taxa de juros básica da economia. Quando os preços fogem do controle, eleva-se a taxa de juros para esfriar a atividade. E, ao contrário, se a intenção é estimular a produção e o consumo, bem como contribuir para o crescimento ecomômico (PIB), a autoridade monetária pode agir reduzindo a taxa de juros, que no Brasil é a Selic.
Veja também: Taxa Selic: o que é e como ela afeta a sua vida
E do ponto de vista dos investimentos, o nível de taxa de juros vai se refletir na decisão de alocação entre renda fixa ou variável. Quando melhora a remuneração dos títulos públicos, que são atrelados à taxa Selic e de baixo risco, a tendência é o investidor priorizar ativos de renda fixa. Já num cenário de baixa taxa de juros é possível correr mais risco, optando por renda variável, como ações em bolsa, por exemplo.
Quanto vale o salário mínimo?
O salário mínimo de um país deve ser um valor capaz de pagar as despesas básicas do trabalhador que se encontram na base da pirâmide. No Brasil, o salário é estabelecido por decreto-lei assinado pelo presidente da República todo início de ano.
- O valor em vigor desde o dia 1 de janeiro de 2024 para trabalhadores, aposentados, pensionistas e pessoas que recebem benefícios de auxílio-doença ou de prestação continuada (BPC) é de R$ 1.412, um aumento de 6,97% sobre 2023, quando era R$ 1,.320.
O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) avaliou que o impacto na economia para 59,3 milhões de pessoas que têm rendimento referenciado no salário mínimo será de um incremento da renda anual de R$ 69,9 bilhões. O Dieese também estima R$ 37,7 bilhões de aumento na arrecadação tributária anual sobre o consumo como reflexo do reajuste do salário mínimo.
O cálculo do reajuste leva em consideração a expansão do PIB, calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de dois anos anteriores, e a inflação do ano anterior, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC).

