Começa hoje nova edição do Simpósio de Jackson Hole: o que está em jogo?
Publicado por: Broadcast Exclusivo
7 minutos
Atualizado em
21/08/2025 às 18:33
Por Gustavo Boldrini e Aline Bronzati, da Broadcast
São Paulo e Nova York, 21/08/2025 - Começa nesta quinta-feira mais uma edição do Simpósio de Jackson Hole, um dos eventos mais importantes do calendário econômico dos Estados Unidos, promovido pela sucursal de Kansas City do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).
Investidores de todo o mundo estão na expectativa pelo discurso de amanhã do presidente do Fed, Jerome Powell, em meio a sinais de que o BC dos EUA pode começar a cortar os juros da maior economia do mundo já em setembro.
O evento também ocorre em um momento no qual as pressões do governo Donald Trump sobre a autoridade monetária ficam mais evidentes e geram preocupação em parte do mercado.
Entenda a seguir o que é o Simpósio de Jackson Hole, o que está em jogo nessa edição e como a reunião pode mexer com os mercados globais:
O que é o Simpósio de Jackson Hole?
O Simpósio de Jackson Hole é uma conferência realizada anualmente pelo Fed de Kansas City. O nome do evento se refere ao local onde ele é realizado, o vale de Jackson Hole, no estado do Wyoming. Em sua 48ª edição, a conferência começa hoje e vai até sábado (23).
O seminário, que ocorre anualmente desde 1978, reúne autoridades monetárias e banqueiros centrais de diversos países do mundo, além de economistas e profissionais do mercado financeiro. O objetivo é debater a conjuntura econômica global e as perspectivas para o futuro.
O que será discutido no Jackson Hole de 2025?
A edição deste ano tem como tema "Mercados de trabalho em transição: demografia, produtividade e política macroeconômica".
Segundo o Fed de Kansas City, a ideia é focar nas mudanças estruturais pelas quais o setor está passando, seja por "tendências pré-existentes", como a queda nas taxas de natalidade, o envelhecimento da força de trabalho e a redução da mobilidade laboral, ou por novas realidades, como a disseminação e desenvolvimento da Inteligência Artificial.
"Como esses fatores afetarão os mercados de trabalho nos próximos anos e como esses desenvolvimentos interagirão com a política fiscal e monetária estarão entre as questões que os participantes do evento explorarão", afirmou a entidade em nota.
O que está em jogo?
O presidente do Fed, Jerome Powell, tem enfrentado desafios em ambos os lados do duplo mandato perseguido pelo BC americano: a estabilidade de preços e o máximo emprego, o que pode impedi-lo de ir muito a fundo na sinalização da cortes de juros.
Dentro e fora do Fed, pesa a preocupação com a desaceleração do mercado de trabalho americano, em especial, após o relatório payroll de julho, que veio muito abaixo das expectativas de Wall Street. Mas, por outro lado, a inflação nos EUA ainda sequer chegou à meta, de 2% ao ano, e já enfrenta novas ameaças por conta do temor de que as tarifas do governo Donald Trump causem um repique nos preços à frente.
Enquanto Powell vinha defendendo a tese de "esperar para ver", a corrente dovish no Fed, que defende uma política de juros mais flexível, ganhou força.
Na reunião de julho, antes do último payroll, os diretores Christopher Waller e Michelle Bowman defenderam a necessidade de cortar as taxas. Depois deles, os presidentes do Fed de Minneapolis e de São Francisco, Neel Kashkari e Mary Daly, respectivamente, também fizeram comentários nessa direção.
"Powell terá que navegar entre esses dois grupos. Ele estava decididamente no grupo de esperar para ver em 30 de julho", disse o economista-chefe do Santander nos EUA, Stephen Stanley, à Broadcast.
Entre a cruz e a espada
A última vez que Powell veio a público foi no fim de julho, ao explicar a jornalistas, na tradicional coletiva de imprensa que realiza após a reunião de política monetária, a decisão de manter os juros nos EUA inalterados pela quinta vez consecutiva. De lá para cá, o cenário mudou: o emprego se deteriorou e a inflação também mostrou sinais de piora.
Enquanto isso, cresceu a pressão de Trump sobre Powell e outros dirigentes do Fed. O alvo mais recente foi a diretora Lisa Cook, acusada de fraude hipotecária pelo diretor da Agência Federal de Financiamento da Habitação dos EUA, Bill Pulte.
Caso ela seja demitida, seria aberta uma segunda vaga para um nomeado por Trump. Recentemente, o chefe da Casa Branca indicou o atual presidente do Conselho de Assessores Econômicos (CEA, na sigla em inglês), Stephen Miran, para cumprir o posto deixado pela diretora Adriana Kugler,que renunciou ao cargo no início do mês.
"Será o último Simpósio de Jackson Hole de Powell na presidência do Fed, ao final de um mandato que se tornou controverso, com a Casa Branca de Trump insatisfeita com sua relutância em cortar os juros no país", observa o chefe de análise financeira da AJ Bell, Danni Hewson.
Como ficam os mercados?
Os mercados de todo o mundo estão à espera de uma sinalização clara de Powell a respeito de um eventual corte de juros na reunião de setembro. Isso acontece porque os juros americanos servem como uma espécie de referência para os ativos de risco do mundo todo.
Como assim?
Os EUA emitem a moeda que praticamente monopoliza as relações comerciais de todo o mundo, o dólar. Com isso, os títulos de dívida do Tesouro americano, os Treasuries, são considerados os ativos mais seguros do mercado financeiro global. E esses títulos têm correlação com a taxa de juros definida pelo Fed, os Fed Funds.
Caso o Fed sinalize cortes de juros, a tendência é que ativos de risco não só nos EUA mas também em países emergentes, como o Brasil, sejam alvo de maior procura pelos investidores, uma vez que o prêmio de risco dos Treasuries fica mais baixo.
E o contrário também acontece: se o Fed sinaliza cautela e possibilidade de juros mais altos nos EUA, os investidores tendem a buscar mais proteção nos Treasuries e ter mais cautela em relação à renda variável.
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