Quer começar a investir em crédito privado? Especialista recomenda focar em fundos
Publicado por: Broadcast Exclusivo
6 minutos

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Atualizado em
02/12/2025 às 11:08
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
Com a taxa Selic em 15% ao ano, não é segredo para ninguém que a renda fixa é a queridinha dos investidores brasileiros. E, para diversificar neste segmento indo além dos títulos públicos, o crédito privado tem sido uma opção.
Segundo dados da B3, o porcentual de pessoas físicas que investiam somente em ativos de crédito privado saltou de 22% em dezembro de 2022 para 30% no fim de setembro deste ano. A proporção é igual entre os que investem apenas em ações.
Levando em conta que a Bolsa brasileira finalizou o nono mês de 2025 com 30 milhões de CPFs cadastrados, pode-se concluir que ao menos 3 milhões de investidores têm apostado todas as suas fichas na modalidade de crédito privado.
"Esse crescimento tem relação direta com o movimento da Selic. Em 2022, tivemos uma alta mais agressiva após o período de juros muito baixos da pandemia, o que elevou o desafio das demais classes superarem o CDI. Como muitos instrumentos de crédito privado são indexados a esse índice, a classe passou a atrair mais atenção", explica Pedro Rauber, gestor de fundos de crédito privado da BB Asset.
A seguir, confira a entrevista completa de Rauber à Broadcast , avaliando o cenário atual do crédito privado e projetando como será 2026 para o segmento:
Broadcast: Qual é o papel do crédito privado neste cenário de taxa de juros a 15% ao ano?
Rauber/BB Asset: O crédito privado de fato ganhou muito espaço nos últimos anos porque atende a diferentes objetivos do investidor: desde a gestão de caixa no curto prazo até estratégias de proteção e busca de retornos mais robustos no médio e longo prazos. Entendo que o crédito privado se consolidou quase como uma "nova classe de ativos", com identidade própria dentro da renda fixa, e esse amadurecimento segue em 2025.
Broadcast: Quais dicas você daria para o investidor pessoa física que quer começar a aportar em crédito privado para diversificar sua carteira, mas não sabe por onde?
Rauber/BB Asset: Muito se comenta que o crédito privado é uma classe assimétrica, no sentido de que a perda potencial pode superar o ganho esperado. De fato, ao comprar ativos diretamente, o investidor está exposto ao risco de default. Por isso, meu conselho é começar definindo claramente seus objetivos e, na maioria dos casos, iniciar por fundos bem diversificados.
Broadcast: Quais objetivos o crédito privado pode ajudar o investidor a alcançar?
Rauber/BB Asset: O investidor pode selecionar seus fundos de acordo com seus objetivos, uma vez que os fundos de crédito conseguem resolver grande parte das necessidades dos investidores. No curto prazo: fundos de renda fixa com menor alocação em crédito (até 50%), para médio prazo e disposição para volatilidade, há fundos que podem investir até 100% em crédito privado, e para quem pensa em horizontes longos e proteção contra inflação, há os fundos atrelados ao IPCA.
Broadcast: Então, a ideia é começar com fundos. Quando é o momento de passar para a compra direta dos títulos?
Rauber/BB Asset: Com o tempo, e à medida que o investidor se acostuma com o conceito de marcação a mercado, ele pode considerar adquirir ativos diretamente, mas sempre priorizando emissores de qualidade.
Broadcast: Quais títulos de crédito privado são os mais recomendados para o investidor pessoa física no atual cenário, levando em conta seu perfil de risco?
Rauber/BB Asset: Eu sou naturalmente fã da estrutura de fundos, que considero mais eficiente na relação risco-retorno. Mas, para quem tem recursos suficientes para montar uma carteira diversificada de forma direta, o ideal é priorizar empresas com ratings elevados, especialmente AAA, de setores como energia e concessões (utilities), que têm geração de caixa consistente e receitas previsíveis. O mais importante é investir valores que permitam carregar o papel até o vencimento - evitando realizar perdas em momentos de volatilidade - e compor uma carteira com diferentes emissores.
Broadcast: Com possíveis cortes de juros ao longo de 2026, quais são as perspectivas para o crédito privado?
Rauber/BB Asset: O cenário tende a ser bastante favorável, especialmente se o ciclo de redução de juros vier de forma clara e coordenada. A queda da Selic gera alívio financeiro para as empresas, principalmente para as mais alavancadas, o que melhora o perfil de crédito das carteiras - e isso é positivo para a classe. É possível que parte dos recursos migre da renda fixa para multimercados e renda variável.
Não vejo, porém, esse movimento sendo abrupto. Seria necessária uma queda relevante da Selic para aumentar muito a atratividade das demais estratégias. Além disso, em um ano eleitoral, a volatilidade tende a ser maior, o que mantém a renda fixa como porto seguro para uma parcela importante do patrimônio dos investidores.
Broadcast: Como você avalia o impacto de alguns casos recentes, como o da Ambipar e da Raízen, sobre o mercado de crédito privado?
Rauber/BB Asset: O final de um ciclo de alta de juros costuma marcar também o fim de um ciclo de crédito, quando empresas que não ajustaram sua alavancagem começam a enfrentar dificuldades. A diferença é que hoje o mercado está mais maduro e, além disso, a exposição média a Ambipar e Raízen é bem menor do que era nas empresas envolvidas na crise do crédito privado em 2023. Por isso, os eventos foram absorvidos com mais naturalidade.
Broadcast: O vaivém em torno da tributação dos títulos isentos de crédito privado pode ter gerado dúvidas. Como ficou a tributação desses títulos para o ano que vem?
Rauber/BB Asset: Eu costumo evitar projeções sobre temas que não controlamos. Mas, no meu entendimento, a discussão tributária sobre os papéis isentos está hoje relativamente pacificada. A reversão da MP 1.303/2025, inclusive, foi um dos vetores para abertura dos spreads nos títulos incentivados (Lei 12.431).
De qualquer forma, tanto gestores quanto investidores devem sempre se preparar para cenários alternativos. Nesse sentido, fundamentos sólidos e diversificação continuam sendo as melhores estratégias no longo prazo.
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