Dos painéis solares ao futebol: como os FIDCs são aplicados no dia a dia
Publicado por: Broadcast Exclusivo
7 minutos
Atualizado em
31/10/2025 às 16:12
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
Os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) seguem se consolidando no Brasil e terminaram setembro com patrimônio líquido (PL) total de R$ 718,87 bilhões, um salto de 62% em relação ao registrado no fim de 2023, quando ficaram disponíveis para pessoa física.
Companhias de diversos setores têm apostado nos FIDCs como uma forma de captar recursos por meio da antecipação de direitos creditórios, ou seja, valores que elas têm a receber no futuro.
"O principal diferencial dos FIDCs está na flexibilidade, agilidade e eficiência de custo. Trata-se de uma estrutura que permite transformar em liquidez imediata um ativo que a empresa já possui sem, necessariamente, aumentar o seu endividamento", explica Eduardo Barbosa, sócio fundador do Grupo Multiplica.
A seguir, entenda como eles funcionam na prática e quais setores têm utilizado esses recursos. Detalhe: tem até time de futebol gigante entre eles.
Como funcionam os FIDCs?
Os FIDCs são fundos que investem em direitos creditórios, isto é, créditos a receber de uma ou de várias empresas. Isso inclui produtos como duplicatas, parcelas de cartão, financiamentos, contratos de prestação de serviços etc.
No processo de um FIDC, a empresa que tem recebíveis e quer fazer essa antecipação é chamada de cedente. Ela vai vender ao fundo esses recursos, geralmente com algum deságio - uma taxa de juros que torne o negócio rentável para o fundo e seus investidores.
A partir daí, os direitos creditórios dessa companhia passam a pertencer ao fundo, distribuindo os rendimentos aos cotistas de acordo com a rentabilidade obtida - que pode ser, por exemplo, a taxa do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) mais um spread.
Quem pode investir em FIDCs?
A resolução 175 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que entrou em vigor em outubro de 2023, passou a possibilitar o acesso aos FIDCs pelo público em geral, ou seja, ao investidor comum. Antes, esses fundos eram exclusivamente destinados a investidores qualificados ou profissionais.
A abertura dos FIDCs para a pessoa física gerou crescimento no patrimônio. No entanto, "mesmo com liberação para o varejo, muitos FIDCs mantêm requisitos ou características que limitam o acesso ou elevam o risco, restringindo sua oferta somente para investidores qualificados ou profissionais", explica João Brito, gestor de mercado de crédito da Flowinvest.
Segundo ele, esses fundos podem oferecer rendimento superior à renda fixa tradicional e exposição a ativos diversificados, porém é preciso entender os riscos relacionados aos direitos creditórios, como inadimplência e liquidez.
Quais setores têm utilizado FIDCs?
Os FIDCs têm sido uma alternativa de captação a diferentes portes de companhias, especialmente em um ambiente de juros altos, com a taxa Selic acima de 15%.
Eles costumam ser uma opção para setores que trabalham com um volume grande de recebíveis futuros, como varejistas e agronegócio. Mas não para por aí.
Segundo Ricardo Binelli, sócio-diretor da Solis Investimentos, existe uma tendência de "evolução crescente dos mais diversos lastros" no universo dos FIDCs, com empresas de segmentos variados ganhando cada vez mais representatividade nessa indústria".
"Por isso, dizemos aqui que, em princípio, todo crédito é 'fidicável'", afirma o especialista.
O FIDC do São Paulo FC
Um dos casos mais famosos de uso do FIDC envolve um gigante do futebol brasileiro, o São Paulo, que montou um fundo do tipo com apoio da gestora Galápagos em outubro de 2024 para levantar R$ 240 milhões em recebíveis.
O veículo de investimento, destinado apenas a profissionais, foi uma alternativa encontrada pelo clube para reestruturar suas finanças e reduzir dívidas. Como contrapartida, o São Paulo tem de cumprir algumas condições, como respeitar tetos de investimentos e buscar superávit nas contas do clube.
FIDCs no mercado de energia
Empresas de menor porte que atuam no universo de energia também têm utilizado os FIDCs para levantar recursos. É o caso da Sol Agora, fintech que oferece soluções de financiamento para compra e instalação de painéis solares, baterias para apartamentos e geradores de energia, que usa esse tipo de modalidade como fonte de captação.
"Os FIDCs oferecem ao mesmo tempo flexibilidade e escalabilidade permeada por governança. Esse tripé, combinado com a possibilidade de oferecer investimento para diferentes apetites de risco e retorno, permitem que tais estruturas emulem a atividade bancária de forma eficiente e prática", avalia Eduardo Solamone, diretor de Relações com Investidores da Sol Agora.
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