Como investir em fundos de infraestrutura e financiar o desenvolvimento do Brasil
Publicado por: Broadcast Exclusivo
7 minutos
Atualizado em
16/09/2025 às 08:50
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
O Brasil tem gargalos históricos em setores como energia, logística e saneamento, que exigem investimentos bilionários e de longo prazo. Para reduzir a dependência de recursos públicos, o País abriu espaço para que investidores privados participem do financiamento dessas obras.
Entre os principais tipos de investimento deste mercado estão as debêntures incentivadas de infraestrutura, títulos de dívida emitidos por empresas que precisam levantar capital para seus projetos. Elas ganham cada vez mais espaço nas carteiras desde que foram criadas, em 2011.
Nesse contexto, o investidor pessoa física conta hoje com algumas opções de fundos que aportam recursos nesses projetos de infraestrutura e possuem, ao menos até o final deste ano, isenção de Imposto de Renda (IR): os Fundos Incentivados de Investimento em Infraestrutura (FI-Infra).
Eles são uma espécie de canal que conecta o investidor pessoa física ao financiamento da infraestrutura nacional. Entenda a seguir as diferenças entre eles:
O que é o FI-Infra?
O FI-Infra funciona assim: você aplica em cotas de um fundo que compra debêntures incentivadas com finalidades estratégicas, recebendo em troca rentabilidade isenta de Imposto de Renda (IR) - pelo modelo atual - e ajudando no desenvolvimento do País.
Segundo dados da Anbima obtidos pela Broadcast , essa modalidade atingiu patrimônio líquido total de R$ 280,17 bilhões em agosto deste ano, alta de 41% em relação ao encerramento de 2024. O crescimento tem sido contínuo: a título de comparação, ao final de 2020, o PL desses fundos era de R$ 15,22 bilhões.
Como o FI-Infra funciona?
O FI-Infra pode ser aberto para aplicações por investidores em um banco/corretora, ou ser negociado em bolsa, de forma semelhante aos Fundos Imobiliários (FIIs). A decisão de como o fundo será negociado dependerá da gestora.
Ao comprar cotas do fundo, você passa a ter exposição a uma carteira de debêntures incentivadas de empresas que estão construindo ou expandindo rodovias, linhas de transmissão, usinas de energia, projetos de saneamento básico e outros. O fundo recebe os juros e amortizações dessas debêntures e repassa o rendimento aos cotistas: em forma de proventos, quando negociados em bolsa, ou incorporado ao patrimônio e refletido no valor das cotas, quando não negociado em bolsa.
Para receber o selo de FI-Infra, o fundo precisa ter no mínimo 85% do seu valor de referência aplicado em debêntures incentivadas de infraestrutura - o que, neste caso, refere-se ao menor montante entre o patrimônio líquido do fundo na data da apuração e a média do patrimônio líquido do fundo nos últimos 180 dias. Esse porcentual pode ser atingido até dois anos depois do lançamento do fundo.
Os FI-Infra podem aplicar a fatia restante que sobrou dos investimentos em outros títulos, como renda fixa, moedas e ações. Mas esse aporte geralmente é pequeno em relação ao que deve estar alocado nos títulos incentivados.
Como investir em FI-Infra?
Para isso, o investidor pode buscar as opções disponíveis na plataforma do seu banco ou corretora e aplicar nas cotas.
Vale ressaltar a importância de olhar para questões como prazo, liquidez e valor mínimo para investimento - alguns fundos podem ser acessados até com R$ 0,01, como é o caso do BB RF Deb Incentivadas CDI Infra Crédito Privado, da BB Asset.
No caso de FI-Infra negociado em bolsa, basta pesquisar pelo ticker do fundo, que é composto por quatro letras mais o número 11. Por exemplo: KDIF11 (da gestora Kinea) e JURO11 (da gestora Sparta).
Quais são os riscos de investir em fundos infra?
Como qualquer investimento, os FI-Infra não são isentos de riscos. O principal deles é o de crédito: caso as empresas que emitem as debêntures não honrem seus pagamentos, ele pode ter perdas.
"A BB Asset busca mitigar esse risco com uma análise criteriosa do emissor, os riscos do projeto, e o relacionamento que temos com o emissor", explica Antonio Emílio Ruiz, head de fundos de crédito privado e estruturados da BB Asset.
Também existe o risco da marcação a mercado afetar os preços das debêntures, e, consequentemente, esses fundos. Como as debêntures incentivadas possuem rendimento "IPCA+", que é a taxa de inflação acrescida de um spread, elas são mais sensíveis à NTN-B, título público atrelado à inflação que é conhecido como Tesouro IPCA+.
Há ainda o risco de liquidez. Para um fundo negociado em Bolsa, caso o investidor queira vender suas cotas, será necessário encontrar um comprador no mercado secundário. Para os fundos negociados nas plataformas, a venda da cota é mais fácil, podendo ser absorvida pela própria gestora.
E também há a questão do prazo para resgate após a solicitação de venda. Em alguns casos, esse prazo é D+10 - ou seja, 10 dias após a venda.
O que saber antes de investir em FI-Infra?
Antes de investir em um FI-Infra, é importante que o investidor leve em conta a qualidade da gestão do fundo, a diversificação da carteira e o histórico de crédito dos emissores. Também vale checar o perfil da carteira, a taxa de administração e histórico de rentabilidade daquele fundo, sem esquecer que rentabilidade passada não significa rentabilidade futura.
"Ao investir em um FI-Infra, estou delegando para um profissional de alta competência a gestão de ativos diversificados, que são cuidadosamente selecionados e isentos de IR. É uma composição importantíssima", avalia Antonio Emílio Ruiz, da BB Asset.
Além disso, sempre se faz necessário respeitar seu perfil de risco e verificar se o investimento é adequado a ele.
Fundos de infraestrutura são isentos de IR?
Hoje, os rendimentos dos FI-Infra são isentos de IR para pessoas físicas, o que aumenta sua atratividade em relação a outros produtos.
Aliás, é por isso que são chamados de fundos incentivados: a isenção de IR serve como um incentivo para que investidores aportem recursos em um setor que é vital para o desenvolvimento do País.
Ainda há dúvidas sobre a continuidade dessa isenção a partir do ano que vem, uma vez que a Medida Provisória (MP) 1.303/2025, que foi proposta pelo governo federal em junho e está em tramitação no Congresso, acaba com a isenção de alguns títulos de investimento, dentre eles as debêntures incentivadas e os fundos infra.
Em entrevista ao Broadcast Político , o relator da MP no Congresso, deputado Carlos Zarattini (PT-SP), afirmou que as debêntures incentivadas serão retiradas da lista de títulos que passarão a ser tributadas em 5% a partir de 2026, o que, em teoria, pode significar que os FI-Infra também ficariam isentos. Mas tudo ainda é incerto.
A MP precisa ser avaliada pelo Congresso até o início de outubro. Até lá, parlamentares poderão sugerir ajustes no texto. Na prática, as mudanças no IR passariam a valer somente para veículos de investimentos emitidos a partir de 2026.
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