Alta da Selic e dólar forte com Trump devem manter seca de IPOs na Bolsa em 2025
Publicado por: Broadcast Exclusivo
6 minutos
Atualizado em
03/01/2025 às 15:44
Por Altamiro Silva Junior, Caroline Aragaki, Cynthia Decloedt, Luana Pavani e Maria Regina Silva, do Broadcast
São Paulo, 03/01/2025 - O ano de 2024 registrou o pior número de entrada de capital externo na Bolsa brasileira desde 2020, ano de pandemia. Além disso, a B3 não viu nenhuma oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) no ano passado, o que é explicado em boa medida pelo alto patamar da taxa Selic, atualmente em 12,25% ao ano. E como os juros seguirão em elevação, conforme acena o próprio Banco Central, a seca de IPOs - desde 2021 - deve persistir em 2025.
A participação de fundos de investimento internacionais nas ofertas de ações é fundamental para segurar essas operações, já que historicamente gira em torno de 30% a 40%. Mas os investidores estrangeiros, os "gringos", estão saindo da Bolsa brasileira. No acumulado de 2024, o capital externo na B3 foi negativo de R$ 32 bilhões.
E a tendência é que o investimento estrangeiro na Bolsa brasileira continue caindo, agora por um motivo ligado ao retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. O discurso protecionista do republicano sugere uma economia americana mais forte, pano de fundo para a alta do dólar, e em última instância, menor interesse dos investidores por países emergentes, entre eles o Brasil.
O líder de renda variável do BNP Paribas Asset Management Brasil, Marcos Kawakami, afirma que a volatilidade e a depreciação recentes do real fizeram o investidor estrangeiro ter uma visão mais negativa do Brasil. "Temos percebido um interesse maior do investidor estrangeiro pela Índia, que tem crescido em atividade e lucro das empresas", diz.
Além de competir com os outros emergentes, o Brasil deve disputar a atenção dos investidores com nada menos do que a maior economia do planeta. Kawakami ressalta a boa performance apresentada pelos Estados Unidos já em 2024 - apoiada no fato do país ser referência em inteligência artificial - e que tende a continuar.
Para o chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America (BofA), David Beker, o dólar deve se fortalecer globalmente com o retorno de Trump. Isso "sobe a barra" em termos de fluxo estrangeiro para países emergentes.
Quais as condições ideais para fazer um IPO?
Uma das condições essenciais para haver uma oferta de ações é de expectativa de corte de juros, o que para economistas ouvidos pelo Broadcast não é o caso em 2025 - pode só começar a ocorrer no final do próximo ano.
A lógica é que se a renda fixa, com ativos cuja remuneração é atrelada à Selic, oferece alto retorno com baixo risco, o investidor, tanto local quanto estrangeiro, não se sente atraído a correr risco na renda variável.
O atual quadro de desancoragem das expectativas de inflação entre a meta perseguida pelo Banco Central e os cálculos de economistas de mercado traça o cenário de uma provável elevação da taxa Selic nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).
"O Banco Central já contratou uma Selic de 14,25% e o mercado tem projetado mais do que isso, está no jogo. E mesmo com preços descontados [na Bolsa], há retornos mais fáceis na renda fixa", disse Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) para o Brasil no UBS Global Wealth Management, referindo-se à indicação do Copom de duas novas elevações da Selic em 100 pontos-base (bps) nas próximas reuniões.
A Pesquisa de Economia Bancária da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), divulgada na quarta-feira, 1º, revela que a grande maioria das instituições consultadas (84,2%) espera que o Banco Central eleve a taxa básica de juros para além de 14,25% ao ano no atual ciclo de aperto monetário.
Sobre a trajetória da Selic, a expectativa para os juros se elevou novamente ante as pesquisas anteriores, que são feitas a cada 45 dias pela Febraban com os bancos. Agora, a mediana para a Selic prevê alta até 15% ao ano em junho de 2025.
Segundo especialistas, para um IPO sair do papel, a operação precisa ser de ao menos US$ 500 milhões (cerca de R$ 3 bilhões), valor que permitiria a entrada de investidores estrangeiros. No último ciclo de ofertas iniciais de ações, em 2020 e 2021, os gringos responderam por cerca de 30% a 40% da demanda. "Quanto maior a oferta, maior o interesse do estrangeiro", afirma o responsável pela área de Mercado de Capitais de Ações do Santander Brasil, Pedro Costa.
"A situação atual implica um potencial atraso na abertura do mercado de capitais brasileiro para IPOs", avalia a executiva responsável pela área de ofertas de ações do UBS-BB, Teodora Barone, citando ambiente de juros elevados e incerteza com a situação fiscal do Brasil.
Esse ambiente deve levar companhias brasileiras a avaliar o mercado americano como alternativa, ressalta a executiva do UBS. "O Trump trouxe uma perspectiva positiva da reabertura de mercado para IPOs", afirma Barone. A economia americana mostrando atividade resistente, bolsas batendo recordes e IPOs bem sucedidos em 2024 apontam para um 2025 ainda melhor, afirma a executiva.
Nos bancos da região da avenida Faria Lima, o relato é que não há sondagens ou conversas de empresas para tentar um IPO no Brasil em 2025. Mas não se descarta alguma oferta inicial de companhia brasileira em Nova York, segundo fontes.

