Trump versus China: como as tarifas do novo governo dos EUA podem impactar ações brasileiras
Entenda possíveis desdobramentos da guerra comercial entre EUA e China no novo governo Trump para a Bolsa brasileira
Publicado por: Broadcast Exclusivo
6 minutos
Atualizado em
17/01/2025 às 17:48
Por Gustavo Boldrini, do Broadcast
São Paulo, 17/01/2025 - O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, tem deixado clara a intenção de armar uma guerra comercial contra a China no seu novo governo, que começa na próxima segunda-feira, 20 de janeiro. No Brasil, investidores olham com atenção para o tema, já que a economia chinesa é importante para a dinâmica de vendas de diversas companhias de alta liquidez na Bolsa brasileira.
Ainda não é possível saber se as ameaças de Trump contra a China são reais ou apenas discurso, mas sabe-se que o republicano já falou em impor tarifas de até 60% sobre produtos chineses. Tudo isso em um momento no qual o ritmo de crescimento da economia do país asiático segue como fator de dúvida para os mercados.
Nesta sexta-feira, Trump e o presidente chinês Xi Jinping conversaram por telefone, e o republicano disse que a ligação foi "muito boa" para os dois países. Na conversa, segundo o americano, eles falaram sobre o equilíbrio do comércio, o tráfico de fentanil, e a situação do aplicativo TikTok, que corre o risco de ser banido nos EUA.
Segundo a imprensa estatal da China, Xi defendeu "cooperação" entre os países e disse que os laços podem ter um "novo começo". O líder chinês reconheceu que diferenças entre os dois são inevitáveis, mas pediu que haja respeito mútuo e coexistência pacífica.
Apesar dos sinais mais positivos, o risco de escalada da guerra comercial segue no radar. E, sob esse aspecto, o investidor deve ficar atento a ações de companhias exportadoras, de setores como de mineração, siderúrgico, frigoríficos e produtores de celulose, que estão intimamente ligadas à China.
Quais ações brasileiras são impactadas pela China?
A composição do Ibovespa, índice de referência, ajuda a explicar a relevância da economia chinesa para algumas das principais empresas listadas na Bolsa brasileira.
A ação ordinária da Vale (VALE3), que possui o maior peso dentro do Ibovespa, tem total correlação com a China, uma vez que o país asiático é o maior consumidor de minério de ferro do mundo e principal comprador de produtos da mineradora. Além da Vale, outra mineradora com ações na B3 é a CSN Mineração (CMIN3).
- Junto delas estão as siderúrgicas CSN (CSNA3), Gerdau (GGBR4) e Usiminas (USIM5), também afetadas pela China, pois o aço que elas produzem é matéria-prima para a indústria e o setor imobiliário do país asiático.
A mesma lógica se aplica às exportadoras de papel e celulose Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11), e às produtoras de proteínas JBS (JBSS3), Marfrig (MRFG3), Minerva (BEEF3) e BRF (BRFS3). A China é o primeiro país de destino das exportações de celulose do Brasil e o principal comprador de frango nacional.
O que esperar da economia chinesa em 2025?
A economia chinesa cresceu 5% em 2024, segundo dados oficiais divulgados nesta sexta-feira, 17, em linha com a meta definida pelo governo, mas abaixo dos 5,2% em 2023. No quarto trimestre, a variação o Produto Interno Bruto (PIB) da China foi de 5,4% na comparação anual, acima da expectativa de 4,9%, representando uma aceleração em relação ao terceiro trimestre de 2024, quando o PIB avançou 4,6%.
A recuperação da economia chinesa na reta final de 2024 ajudou a impulsionar a demanda por commodities do Brasil e outros países exportadores, mas a expectativa de analistas aponta desaceleração para 2025, o que pode vir a diminuir a demanda por matérias-primas.
Caso o governo chinês não implemente medidas robustas de estímulo, os preços de commodities podem cair, afetando as receitas brasileiras com exportações e, consequentemente, ações de exportadoras.
Para a Capital Economics, a expansão da economia chinesa no último trimestre se deu graças ao aumento dos gastos do governo, mas a tendência é de desaceleração, especialmente por causa do possível aumento de tarifas proposto por Trump, e "desequilíbrios estruturais persistentes" que pesam contra a economia da China.
A Oxford Economics prevê desaceleração do PIB em 2025 para 4%. Já o banco holandês ING diz que após a China atingir a meta em 2024, a questão-chave recai agora sobre qual será o alvo definido pelo governo chinês para 2025.
Esperança nos estímulos
A esperança para a recuperação da economia chinesa e a blindagem contra possíveis medidas de Trump tem sido a implementação de estímulos econômicos por parte do governo local. A Oxford Economics espera que os chineses apresentem mais medidas de estímulo ao consumo interno do país neste ano.
"Com os sinais de política recentes permanecendo decididamente dovish [tendendo a juros baixos], e as autoridades reconhecendo com alguma urgência a importância de encontrar um motor de crescimento sustentável, os próximos meses provavelmente apresentarão mais estímulos orientados para o consumo", afirma a consultoria em relatório.
Em dezembro do ano passado, o Politburo, órgão de formulação de políticas do governo da China, anunciou o compromisso com a implementação de uma política fiscal " mais proativa" e uma postura monetária "moderadamente frouxa" em 2025.
Trocando em miúdos, o governo da China prometeu atuar com mais força no âmbito fiscal, abrindo os cofres para estimular a economia, e também no âmbito monetário, mantendo os juros em níveis baixos, o que foi visto por analistas como a primeira grande mudança de direção da política monetária chinesa desde 2011.
O comitê sinalizou ainda a intenção de impulsionar o consumo "vigorosamente", melhorar a eficiência dos investimentos e expandir a demanda doméstica "em todas as direções".

