Petróleo pode afetar projeções para inflação e juros em meio a conflito Irã-Israel
O que está acontecendo com o petróleo e seus desdobramentos sobre investimentos na bolsa
Publicado por: Broadcast Exclusivo
6 minutos
Atualizado em
15/04/2024 às 11:05
Por Matheus Piovesana, Jorge Barbosa, Leandro Silveira e Nathália Coelho, do Broadcast
São Paulo, 15/04/2024 - As tensões no Oriente Médio durante o fim de semana deve gerar volatilidade no curto prazo aos contratos futuros de petróleo, em uma pressão que tende a se estender às expectativas para a inflação nos Estados Unidos e, por consequência, para os juros na maior economia do mundo. Na visão de especialistas consultados pelo Broadcast, este cenário pode reduzir o espaço para que o Banco Central brasileiro corte a taxa Selic já a partir de junho.
Qual a situação atual no Oriente Médio?
No sábado (13), o Irã lançou mais de 300 mísseis e drones contra alvos militares em Israel. A maior parte dos projéteis, no entanto, foi interceptada e os danos foram pequenos. No domingo, porém, os dois países deram sinais de que evitarão o agravamento do conflito.
A ofensiva do Irã foi comunicada a aliados com dias de antecedência e chegou ao conhecimento público na última quinta-feira, 11, provocando uma onda de aversão ao risco nos mercados mundiais, com investidores temendo que o conflito ganhasse grandes proporções.
O ataque do sábado foi uma resposta do Irã ao bombardeio à embaixada do país em Damasco, no Síria, em 1º de abril, que o Irã acusa ter sido feito por Israel. Neste domingo, o presidente de Israel, Isaac Herzog, disse que o país tomará uma decisão que proteja a própria população.
Qual o impacto na cotação do petróleo?
Uma contraofensiva militar poderia desencadear um conflito maior na região, que concentra boa parte da produção mundial de petróleo. O Irã e países aliados são grandes produtores da commodity, e uma guerra poderia levar a sanções ou dificuldades de produção e escoamento. Os contratos futuros da commodity subiram 0,79% na sexta-feira, 12, para US$ 90,45 no caso do Brent, de olho na possibilidade de um ataque iraniano. Na primeira sessão após o ataque, na noite de domingo, o petróleo operava volátil, e na ausência de desdobramentos mais graves, nesta manhã de segunda-feira opera em queda.
- O barril do petróleo WTI para maio caía 0,98% na Nymex, a US$ 84,82, e o do Brent para junho recuava 0,85% na ICE, a US$ 89,68.
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Segundo analistas, a pressão pode crescer ao longo dos próximos dias caso continuem as incertezas sobre a reação de Israel, ou o país decida revidar o Irã militarmente. "Toda a reação do mercado vai depender muito do que Israel fizer", afirma o economista-chefe da G5 Partners, Luis Otavio Leal.
"Enquanto a crise estava circunscrita a Israel e Gaza, os preços dos principais ativos tinham menos impacto. O grande risco era o envolvimento maior de países mais frontalmente inimigos de Israel, e com um peso maior em petróleo", diz o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.
O economista e sócio da André Perfeito Consultoria Econômica (APCE), André Perfeito, diz que o ataque iraniano parece ter sido arquitetado para ser um recado, dado que os sistemas de defesa de Israel conseguiram contê-lo, mas que deixa incertezas no ar. "Barulho é incerteza, incerteza é risco."
Por que o petróleo afeta inflação e juros?
O conflito do final de semana pode levar a impactos no mercado de juros daqui em diante, porque uma eventual alta do petróleo pressionaria a inflação em vários países, já que o aumento de preço dos combustíveis pressiona o custo dos transportes. Por consequência, a alta nos fretes e nos custos das entregas se reflete no encarecimento dos produtos finais, como alimentos, que pesam sobre a cesta básica.
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Do ponto de vista macroeconômico, o efeito se dá na medida de que pressão inflacionária, em tese, é combatida com alta da taxa de juros. Ou seja, uma escalada dos preços do petróleo ampliaria no mercado as apostas de que o corte de juros nos EUA virá apenas no final do ano. Essa previsão ganhou força após a inflação americana ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subir 0,4% em março, contra uma expectativa do mercado de alta de 0,3%, na semana passada. O mesmo pode ocorrer no Brasil.
"Se junta o cenário americano com este cenário novo, recente, da guerra do Oriente Médio, está montado o discurso para talvez o Banco Central desacelerar a queda de juros depois da próxima reunião", afirma Vale, da MB. Segundo ele, uma piora no conflito poderia levar o BC brasileiro a sinalizar na reunião de maio que, a partir do encontro de junho, reduzirá de 0,50 ponto porcentual para 0,25 ponto o ritmo de cortes na Selic, que hoje está em 10,75%.
No comunicado da última decisão de política monetária, em março, o Copom retirou a chamada prescrição futura ("forward guidance") sobre manter o corte de juros em 0,50 ponto também em junho. O motivo foi a maior incerteza lá fora, diante da inflação resiliente nos EUA. "Isso tudo, obviamente, é mais inflação, e aumenta o motivo principal que o BC deu para retirar o forward guidance para a reunião de junho, que era o aumento das incertezas", diz Leal, da G5.
André Perfeito, da APCE, afirma que a Selic ao final do ciclo de cortes deve ficar em 9,75%, acima dos 9% esperados por parte do mercado, e que a escalada do conflito entre Israel e países alinhados ao Irã pode contribuir para este menor afrouxamento monetário. "Se é verdade que isso vai dar um estresse grande a curto prazo, implica em dizer que os graus de liberdade que a autoridade monetária tem para reduzir os juros no Brasil diminuíram."
O resultado deve ser uma atividade econômica mais lenta que o esperado. "Isso também implica em uma inflação mais alta. Com isso, os juros sobem e afetam a atividade econômica", disse o economista e professor de geopolítica da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Leonardo Trevisan.
Quais as projeções para o petróleo a partir de agora?
A transformação das tensões entre Israel e Irã em um conflito de escala regional no Oriente Médio poderia elevar os preços do petróleo, o que complicaria os esforços dos bancos centrais de países avançados para reduzir a inflação, afirma a Capital Economics. A consultoria considera, por outro lado, que o impacto sobre as decisões de política monetária dos BCs só seria material caso a alta do petróleo chegasse aos núcleos de inflação, que desconsideram os preços de alimentos e energia. "Provavelmente, o risco é maior nos Estados Unidos que na Europa, dada a relativa força da demanda dos consumidores."
- Segundo a Capital, a experiência mostra que um aumento de 10% nos preços do petróleo adiciona de 0,1 a 0,2 ponto porcentual aos índices de inflação em economias avançadas. Ou seja, o aumento do último mês terá um impacto de 0,1 ponto nestas economias. "Isto não deve levar a consequências importantes nas decisões dos bancos centrais."
Na visão da consultoria, para que as decisões dos BCs fossem influenciadas, seria necessário um aumento maior e mais sustentado dos preços do petróleo. "Acreditamos que os eventos no Oriente Médio aumentarão as razões para que o Fed (o Banco Central americano) adote um viés mais cauteloso sobre cortes de juros, mas que não evitarão que os cortes aconteçam. Esperamos o primeiro deles em setembro", diz a Capital, que espera ainda que o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco da Inglaterra (BoE) façam cortes antes, em junho.
O banco australiano ANZ afirma, em relatório divulgado nesta segunda-feira, 15, não esperar uma reação imediata nos preços do petróleo após o ataque do Irã a Israel, considerando que o prêmio de risco geopolítico já estava elevado. Com isso, a instituição mantém o preço-alvo para o barril do Brent no curto prazo em US$ 95.
"Esperamos que a reação inicial dos mercados petrolíferos seja moderada. O ataque foi bem telegrafado e parecia planejado para infligir danos mínimos. O Irã também deixou claro que considera que se trata do fim do atual ciclo de escalada", diz o banco australiano, alertando que uma continuação do conflito dependerá da resposta de Israel. "Só num caso extremo vemos que isso terá um impacto realista nos mercados petrolíferos."
O ANZ acrescenta que, mesmo que o fornecimento de petróleo do Irã seja interrompido, a Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) reiterou recentemente a sua política de abastecimento, o que a deixa com capacidade ociosa.
A consultoria de energia norueguesa Rystad Energy avaliou neste domingo que o ataque do Irã contra Israel aumentou drasticamente o risco geopolítico envolvendo o mercado de petróleo. O órgão destacou que na semana passada os preços da commodity já estavam em níveis 10% acima do valor justo, que considera apenas fatores econômicos e que estaria em US$ 84 o barril. Na sexta, o Brent encerrou acima dos US$ 90 o barril.
O índice de Risco Geopolítico desenvolvido pela Rystad Energy já vinha crescendo, alcançando 1,22 na primeira semana de abril. Na segunda semana, que encerrou ontem, o indicador foi para 1,35, o nível mais elevado desde o início de 2024. Ao focar apenas nos dias 13 e 14 de abril, até a tarde de ontem, o índice chegou a 1,41.
Uma possível interpretação dos acontecimentos recentes sugere que as ações do Irã foram uma "retaliação medida" contra a ofensiva registrada em Damasco, atribuída a Israel, embora o país não tenha reivindicado o ataque, afirmou a Rystad.
Embora os dois países tenham sinalizado uma contenção do uso da força, a tensão continua. A reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU neste domingo terminou sem consenso sobre como o colegiado deve agir para conter os conflitos na região.

