Palavra do Economista | Tempos estranhos
Publicado por: Análise BB
7 minutos

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Atualizado em
04/04/2025 às 11:52
Passados os primeiros três meses de 2025, retomo uma vez mais reflexões sobre as consequências das políticas econômicas do governo Donald Trump, agora com o benefício de já ter observado os impactos iniciais de sua liderança. Notadamente, destaca-se o mau desempenho de ativos americanos nesse início de ano, em particular mercados acionários e o dólar.
Interessante notar que a tendência de desvalorização da divisa contrasta com as expectativas criadas no fim do ano passado. A rigor, não apenas as expectativas foram afetadas: no último trimestre de 2024, o dólar efetivamente valorizou-se mais de 6,5% ante uma ampla cesta de moedas do G-10, movimento interpretado à época como antecipação de um 2025 que seria marcado por um dólar forte.
Difícil cravar o que efetivamente levou a essa reversão – se não total, no mínimo significativa – nesse início de ano. Trump tem abalado alianças históricas ao se aproximar da Rússia e suspender a ajuda militar à Ucrânia. Isso tem elevado o alerta em países europeus, que já se movimentam para reforçar suas defesas. O anúncio histórico de flexibilização dos limites de endividamento na Alemanha e planos de aumento de gastos por toda União Europeia levaram investidores a revisar para cima suas projeções de crescimento do Velho Continente (favorecendo ações de empresas europeias) e a uma alta importante das taxas de juros de longo prazo (favorecendo o euro).
As idas e vindas em relação à implementação de tarifas, a abordagem errática e algo descoordenada em diversas área de governo e a falta de avanço concreto na desregulamentação elevaram a incerteza entre os agentes econômicos, afetando negativamente o sentimento.
O enfraquecimento dos chamados “soft data” (pesquisas de sentimento e confiança) elevaram temores quanto a uma possível desaceleração mais intensa nos EUA, levando a uma queda das taxas de juros americanas.
É nesse contexto que se insere o recente anúncio de Trump de imposição de tarifas para parceiros comerciais americanos, com taxas mínimas de 10% e beirando os 60% para produtos chineses. Simulações e exercícios quantitativos sugerem que o efeito (negativo) sobre a economia americana, chinesa e mundial não será desprezível, assim como o impacto (altista) na inflação. Tudo isso em meio a avaliações de economistas de que a maior economia global pode estar caminhando para uma recessão.
Se me contassem tudo isso há pouco tempo atrás, eu diria que o impacto nos ativos brasileiros seria negativo. Entretanto, o que temos visto, ao menos nesse primeiro dia de negociação “pós-tarifaço”, é um ganho do real e outras moedas emergentes ante o dólar, com alta das bolsas mesmo em meio à forte queda dos mercados acionários americanos, preços de commodities e disparada da aversão ao risco.
Como interpretar e o que deve vir pela frente é a grande pergunta. Até aqui, avalio que os mercados estão apreçando apenas o fim do “excepcionalismo americano” que marcou os últimos anos, direcionando fluxos financeiros para outras regiões. Essa dinâmica não parece contemplar o risco real de que a economia americana caminhe para algo próximo a uma recessão, em meio a inflação mais alta e menor produtividade. Nesses tempos estranhos, eu teria cautela em conclusões que sugiram ganhos absolutos para a economia e ativos brasileiros a partir de um cenário de forte restrição ao comércio internacional e severa ameaça ao PIB global.
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