FOMO financeiro: como a pressão das redes sociais faz você investir errado
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos

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Atualizado em
19/05/2026 às 15:36
Por Patrícia Queiroz, da Broadcast
Dados da última edição do FInfluence, pesquisa organizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados (IBPAD), mostram que, em pouco mais de cinco anos, a audiência dos influenciadores digitais que tratam de temas relacionados às finanças saltou de 74 milhões para 310,7 milhões de seguidores, ou mais de 300%.
O estudo, cujo foco é o monitoramento de pessoas que falam de dinheiro no Brasil e abastecem redes sociais como YouTube, X, Instagram e Facebook, indicou que, no segundo semestre de 2025, foram publicados 468 mil conteúdos relacionados ao assunto nessas plataformas, quase o triplo do volume registrado em 2020, quando cerca de 160 mil posts foram mapeados.
Mas será que essa enxurrada de memes, stories, lives e afins não pode levar os menos avisados a embarcarem na ideia de que estão ficando para trás? Ou mesmo com aquela sensação recorrente de que todos à sua volta estão enriquecendo menos você?
Especialistas acreditam que sim e avaliam que o tal "medo de estar perdendo algo" (FOMO, na sigla em inglês), disseminado por meio das redes sociais, pode ampliar um comportamento impulsivo por parte dos investidores. Isso se daria, especialmente, entre os mais jovens, ao seguir, absorver e aplicar um conteúdo que, nem sempre, faz sentido para a sua realidade financeira.
A educadora financeira Carol Stange acredita que as redes sociais estão criando uma geração de investidores mais ansiosos. Isso porque elas foram projetadas para maximizar engajamento, e conteúdo que provoca reação emocional forte, como inveja, urgência ou euforia, tem melhor desempenho nos algoritmos.
"No campo dos investimentos, isso se traduz em uma exposição sistemática a ganhos extraordinários e conquistas financeiras. O investidor médio, especialmente o mais jovem, acaba calibrando suas expectativas por exceções, não pela média", avalia.
Mas esse FOMO pode influenciar decisões financeiras ruins, tanto em investimentos quanto no consumo?
"O FOMO financeiro opera em duas frentes. Nos investimentos, ele empurra as pessoas a entrarem em posições depois que o movimento já aconteceu, exatamente o momento de maior risco. A lógica emocional é a de que todo mundo está ganhando com isso e não posso ficar de fora", explica Stange, segundo a qual, no consumo, a dinâmica é parecida, mas com consequências imediatas no orçamento.
"A comparação com o estilo de vida alheio, como viagens, restaurantes e produtos, cria uma pressão difusa, mas constante, para gastar além do planejado. O que muda é que o prejuízo aqui não precisa de volatilidade para acontecer, pois aparece no extrato no mês seguinte", acredita.
Em ambos os casos, a educadora financeira diz que a decisão não parte de uma necessidade real ou de uma análise racional, mas sim de um desconforto emocional.
Para Mônica Costa, fundadora da Negrana Finanças, as redes sociais podem influenciar decisões ruins relacionadas ao dinheiro porque mexem com uma sensação mais profunda. "Geram aquela sensação de que todo mundo está avançando, está se dando bem, e conseguindo fechar o mês no azul. Todo mundo está prosperando, menos eu", diz.
Ela reforça, entretanto, a contrariedade dessa máxima. "Quando a gente olha para os números, vê o volume de pessoas endividadas e com problemas financeiros no País, só que quem vai para esse ambiente das redes sociais, não vê essa realidade e acaba acreditando que é a única pessoa que não conseguiu resolver essa questão", explica Costa.
Mas seria possível listar os erros mais comuns cometidos por pessoas que investem após verem conteúdos indicando a possibilidade de "dinheiro fácil" no TikTok, Instagram ou YouTube?
Para Mônica Costa, o erro mais grave e mais comum é justamente quando se acredita que o investimento pode ser visto como um atalho para a resolução de problemas financeiros que são urgentes.
"É importante que a gente tenha sempre muita nitidez de que o investimento é um processo de médio e de longo prazo para que se possa obter um resultado que seja saudável e satisfatório", reforça.
Carol Stange concorda e avalia que o primeiro erro é entrar em uma modalidade de investimento que foi indicada sem conhecer e entender aquele ativo. "A pessoa compra uma criptomoeda, uma ação específica ou um produto estruturado porque viu alguém mostrando o extrato, sem compreender o que está comprando, qual é o risco envolvido e em que cenário aquilo pode dar errado. Sem essa base, qualquer turbulência, por menor que seja, vira motivo para sair correndo", diz.
Ela lembra que o segundo erro é ignorar o próprio perfil e horizonte de tempo. "Conteúdo de redes sociais raramente contextualiza. Aquele resultado foi obtido em quanto tempo? Com quanto de capital? Com qual exposição a risco? Uma estratégia que funciona para alguém com reserva consolidada, alta tolerância a volatilidade e horizonte de dez anos pode ser desastrosa para quem tem o dinheiro do aluguel aplicado", lembra.
Para Stange, quem investe por influência tende a colocar uma parcela desproporcional do patrimônio em uma única aposta, justamente porque acredita que ela é "certa". "A diversificação, que é o principal mecanismo de proteção em qualquer carteira, é vista como cautela desnecessária. Até o dia em que não é", ressalta.
A educadora financeira acredita que há sinais muitos claros indicando que uma pessoa está sendo guiada mais pela comparação nas redes sociais do que pelo próprio planejamento financeiro.
"O primeiro é a instabilidade da carteira porque aquela pessoa troca de ativos com frequência, sempre migrando para o que está sendo comentado no momento, sem uma tese de saída definida para o que abandona. O segundo é a dissonância entre o que investe e o que conhece. Ela própria não consegue explicar o funcionamento do ativo com suas palavras".
Mônica Costa lembra que um indicativo importante nesse sentido é quando a pessoa começa a tomar decisões financeiras, olhando mais para a vida do outro do que para a própria realidade. "É a bendita comparação".
"Então ela compra, parcela, ou investe porque viu alguém fazendo, porque parece que todo mundo está vivendo melhor. A gente volta para a síndrome do FOMO. Vou fazer porque todo mundo faz. Ela tem a impressão de que todo mundo ganha mais, viaja mais, vive melhor do que ela. Então, tá enriquecendo mais rápido.
Para a educadora financeira, a ansiedade ao ver a conquista de outras pessoas ou pressa para mudar de vida sem ter clareza do próprio orçamento são inimigas nessa hora. "O alerta que a gente precisa deixar é o de que decisão financeira não pode nunca vir carregada de ansiedade, de vergonha ou de urgência", completa.

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