Dólar próximo a R$ 5,00 tem a ver com dados dos EUA e redução de posição vendida, explicam analistas
Publicado por: Broadcast Exclusivo
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Atualizado em
09/02/2024 às 11:13
Por Gustavo Boldrini e Antonio Perez, do Broadcast
São Paulo, 09/02/2024 - A alta do dólar para um patamar próximo aos R$ 5,00 nos últimos dias está diretamente ligada a um reposicionamento dos fundos de investimento locais no mercado de derivativos cambiais, em meio à diminuição expressiva das chances de cortes de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) ainda neste primeiro trimestre.
Segundo dados da B3, do fim de 2023 para cá, essa classe de investidores reduziu sua posição vendida no dólar futuro em US$ 3,4 bilhões, dos quais US$ 3 bilhões apenas na semana passada. Em outras palavras, os fundos deixaram de apostar na valorização do real em relação à moeda americana. No ano, o dólar à vista apresentava valorização acima de 2%, tendo rompido o nível de R$ 5,00 ao longo do pregão do último dia 5 pela primeira vez desde novembro de 2023.
Segundo analistas consultados pelo Broadcast , desde novembro do ano passado, os fundos cambiais brasileiros passaram a aumentar suas posições vendidas nos contratos derivativos cambiais, vislumbrando uma desvalorização do dólar ante o real. A aposta era a de que a economia americana mostraria sinais de arrefecimento, abrindo espaço para o Fed iniciar um ciclo de flexibilização monetária já em março.
O quadro de queda de juros nos Estados Unidos daria fôlego renovado a moedas emergentes e poderia levar a uma rodada de apreciação do real. Vários fatores podem explicar isso. Por exemplo, os juros são uma ferramenta para "encarecer" ou "baratear" uma moeda, já que pode ajudar a controlar a quantidade de dinheiro que circula numa economia.
Neste caso, com juros caindo nos EUA, o dólar se tornaria mais barato. Além disso, a renda fixa americana, em especial os títulos do Tesouro conhecidos como Treasuries, passariam a ter retornos menores, o que moveria mais recursos para ativos de risco como ações e para mercados emergentes como o brasileiro. Logo, diante da perspectiva de corte de juros pelo Fed em março, as apostas mais otimistas já miravam taxa de câmbio abaixo de R$ 4,70 ou até perto de R$ 4,50.
No entanto, uma sequência de indicadores mais fortes de atividade nos EUA ao longo de janeiro, como vendas no varejo e atividade industrial, já havia feito com que as chances de redução de juros pelo Fed em março caíssem da casa de 80%, no fim de 2023, para menos de 60%, segundo monitoramento do CME Group, já que a economia aquecida pode significar que há riscos inflacionários. Tudo isso levou o dólar a voltar a operar acima da linha de R$ 4,90.
A pá de cal na esperança de um afrouxamento monetário ainda no primeiro trimestre veio na semana passada. Em coletiva de imprensa na quarta-feira, 31, após a decisão do BC americano de manter os juros na faixa entre 5,25% e 5,50%, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que uma redução da taxa básica em março era pouco provável. Ainda sob impacto da fala de Powell, o mercado recebeu na sexta-feira com surpresa o relatório oficial de emprego em janeiro (payroll), que mostrou geração de 354 mil vagas, bem acima das expectativas, além de revisão para cima dos números de dezembro e novembro.
"Tivemos uma zeragem parcial de posições (vendidas) dos fundos locais quando saiu a decisão do Fomc (o comitê de política monetária do BC americano). Mas o movimento mais forte foi na sexta-feira, quando foi divulgado aquele payroll enorme, que assustou um pouco o mercado", afirma o head da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt.
Quando o especialista cita "posições vendidas", ele se refere a um tipo de contrato derivativo de câmbio que, em linhas gerais, aposta na queda de determinado ativo. Neste caso, uma posição vendida no dólar futuro significa uma aposta de que a moeda americana vai cair à frente. Se fosse o contrário, uma posição comprada, seria uma aposta de alta do dólar futuro.
Ao observar movimentos que demonstravam que a economia americana ainda estava forte e que os juros por lá não cairiam tão cedo, os fundos passaram a se desfazer de posições vendidas na moeda dos EUA, o que por sua vez levou a uma valorização do dólar no mercado à vista.
"Como havia um excesso de posicionamento, qualquer informação que vai contra o cenário central incomoda e gera um impacto no preço", afirma Leonardo Monoli, diretor de investimentos da Azimut Brasil. "O mercado sofreu um ajuste técnico, mas não houve uma mudança estrutural de tendência para um fortalecimento acentuado do dólar."
Segundo a B3, os fundos locais ainda seguem vendidos em dólar em cerca de US$ 12 bilhões. Já os investidores estrangeiros mantêm uma posição comprada na moeda americana em pouco mais de US$ 60 bilhões. Analistas ponderam que isso não significa necessariamente uma aposta firme contra a moeda brasileira. Boa parte dessa posição pode ser apenas "hegde" (proteção) de investimentos em outros ativos locais ou até contraparte de posições compradas em real no mercado de derivativos americano.
Veja também: Dólar e o mercado de câmbio: o guia de tudo que você precisa saber
Um derivativo é um investimento feito na forma de um contrato, cujo rendimento vai depender (ou derivar) de um determinado ativo. Esse ativo pode ser físico, como a soja ou algodão, ou financeiro, como ações de empresas ou índices da bolsa. Neste caso, ao falarmos de derivativos de câmbio, estamos nos referindo a um tipo de derivativo financeiro cujo rendimento dependerá da cotação do dólar ante o real.
O valor final da operação, isto é, se o investidor terá lucro ou prejuízo, dependerá do prazo do contrato e da variação do produto original (no caso, o dólar). Com essa operação, o investidor também pode buscar se proteger das oscilações de preço, ou fazer "hedge", no jargão em inglês. Outro propósito é de especulação, ou seja, buscar oportunidades de ganho com o sobe e desce de preços dos ativos de referência.
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