China passa de compradora a vendedora de títulos do Tesouro americano
Publicado por: Broadcast Exclusivo
3 minutos

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Publicado em
29/08/2023 às 19:50
Atualizado em
29/08/2023 às 19:56
Por Marcio Rodrigues e Altamiro Silva Junior, do Broadcast
São Paulo, 29/08/2023 - A disparada recente dos retornos (yields, no termo em inglês) dos títulos do Tesouro americano de longo prazo, que atingiram os maiores valores em mais de uma década, está ligada a incertezas globais sobre os rumos da atividade econômica, da inflação e, por consequência, dos juros dos países desenvolvidos. Mas há um componente estrutural importante: a China deixou de ser uma compradora de papéis dos Estados Unidos para se transformar em uma vendedora.
Os chineses, que já foram os maiores detentores globais de Treasuries, vêm reduzindo sua exposição a esses papéis desde 2018, quando o ex-presidente americano Donald Trump iniciou uma espécie de guerra comercial contra Pequim. Atualmente, a China é o segundo maior cliente da dívida dos Estados Unidos, atrás do Japão, com um estoque de US$ 835,4 bilhões até junho, último dado disponível.
Apesar de relevante, o número é cerca de US$ 100 bilhões menor do que o verificado um ano antes, quando estava em US$ 938,8 bilhões, de acordo com dados do Departamento do Tesouro dos EUA. É também o menor nível em 14 anos.
Em outras palavras, a China está se desfazendo de parte dos títulos que detém do Tesouro americano, vendendo Treasuries no mercado. Além disso, o Japão, no mesmo período, também seguiu o mesmo rumo e reduziu seu estoque de Treasuries, de quase US$ 1,233 trilhão para US$ 1,106 trilhão.
Ou seja, os dois maiores compradores de papéis de dívida americanos foram, nos últimos 12 meses, vendedores líquidos e concorreram com o Fed para elevar o volume de títulos em circulação no mercado. Isso porque o Federal Reserve precisava reduzir seu balanço - vender títulos - para melhorar a potência da sua política monetária. Com isso, o objetivo é retirar liquidez dos mercados e refrear o ritmo da atividade econômica.
Aqui entra a velha lei da oferta e da procura. Se há aumento de Treasuries disponíveis por parte do Fed e dois grandes clientes passam a ser vendedores, o preço de face dos papéis diminui e os yields sobem. Mas se isso acontece em um momento de incertezas como o atual, com inflação resiliente, possibilidade de mais juros e de recessão, o resultado é o verificado nos últimos dias: retornos dos T-notes de 10 e 30 anos nos maiores níveis desde 2007 e 2011, respectivamente, em cerca de 4,36% e 4,47%.
Até porque, mesmo considerando que outros países aumentaram seus estoques de Treasuries, o saldo líquido ainda é amplamente negativo. Em 12 meses até junho, o total da dívida americana em posse de outros países era de US$ 7,581 trilhões, pouco acima de igual mês de 2022, quando este estoque era de US$ 7,443 trilhões. O problema é que, nesse período, o Fed eliminou mais de US$ 600 bilhões em T-notes de seu balanço. Em 12 meses até agosto, último número disponível, quase US$ 700 bilhões em Treasuries foram vendidos pelo Fed, segundo o balanço do banco central dos EUA.
Assim, em termos relativos, a participação dos estrangeiros na dívida dos EUA está diminuindo, enquanto o governo americano não para de elevar sua dívida. O Tesouro, inclusive, tem ampliado o volume de emissões, justamente para atender ao aumento do teto da dívida dos EUA aprovado pelo Congresso em junho. Hoje, a dívida americana como porcentual do PIB já está perto de 130%, nível que o presidente do Fed, Jerome Powell, já classificou como "insustentável". É tal cenário que pode resultar em uma mudança estrutural nos juros dos EUA.
"A subida tão forte nas últimas duas semanas dos Treasuries de 10 e 30 anos assustou, não era esperada", disse o ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida, atualmente economista-chefe do BTG. Foram mais de 70 pontos-base de elevação. Na China, o principal objetivo nos últimos 40 anos foi o crescimento econômico. "Não é mais. O objetivo número 1 hoje é a segurança nacional", disse Mansueto. Nesse ambiente, a tensão com Washington se exacerbou nos últimos anos. O reflexo foi a redução em 11% do total de títulos que possui desde o ano passado. Junho foi o terceiro mês seguido de desova de papéis pelos chineses.
Para Mansueto, ainda é preciso esperar mais algum tempo para ver se as taxas dos Treasuries nos níveis elevados como os atuais serão o "novo normal". De qualquer modo, a subida tem afetado os mercados mundiais, sobretudo o dólar, que tem se fortalecido por causa dos fluxos internacionais de capital migrarem para os EUA, atrás justamente dos juros mais elevados.
No Brasil, um dos impactos imediatos é no aumento do custo de captação para as empresas que quiserem lançar títulos de dívida no exterior (bonds). Por isso, a alta das taxas dos Treasuries é "terrível", nas palavras do gestor da RPS Capital, Paolo di Sora. "Estamos falando do juro que desconta os ativos de risco do mundo inteiro e subiu 70 pontos-base em um mês."
E este ambiente de juros mais altos na maior economia do mundo deve persistir, avalia a economista-chefe para Brasil do banco americano JPMorgan, Cassiana Fernandez. Assim, no mercado, investidores já se antecipam a essa tendência e a embutem nas taxas dos Treasuries. A taxa dos títulos de 5 anos, que superou 4% este mês, estava em 3,3% em abril e abaixo dos 2% no começo de 2022. Para o JPMorgan, as taxas podem ter atingindo seu pico, mas movimentos como a venda de títulos pelo Fed diminuem espaço para a redução mais pronunciada.
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