O que são mercados emergentes e como eles atraem investimentos
Países emergentes são responsáveis por metade do PIB global e suas bolsas de valores têm relação com commodities
Publicado por: Broadcast Exclusivo
8 minutos
Atualizado em
30/09/2024 às 15:48
Por Gustavo Boldrini, do Broadcast
Os países emergentes possuem um grande peso dentro da economia mundial. Segundo levantamento da organização de estatísticas World Economics, as 24 economias consideradas emergentes corresponderam a 50% do Produto Interno Bruto (PIB) global em 2022, e representaram 66% do crescimento do PIB de todo o mundo entre 2012 e 2022.
Quando se fala em países emergentes, portanto, fala-se em economias com alto potencial de crescimento econômico, seja pelo aumento populacional, seja pelo próprio desenvolvimento de suas economias.
Esses países possuem duas características essenciais: o fato de terem grande parte das suas economias dependentes da produção e exportação de commodities, e o chamado diferencial de juros em relação a países desenvolvidos, pois os emergentes costumam ter taxas básicas mais altas que nos países ricos, o que acaba atraindo capital estrangeiro para seus títulos de dívida.
Bolsas de países emergentes e commodities
A maior parte dos países emergentes, por serem locais ricos em recursos naturais, têm suas economias baseadas na produção de commodities, como grãos, minerais, celulose e petróleo. Alguns deles, como China e Índia, possuem níveis de industrialização mais avançados, mas ainda assim são grandes produtoras de commodities.
Pode-se concluir, portanto, que as Bolsas de Valores desses países são altamente influenciadas pela cotação das commodities. No caso do Brasil, as ações de Vale e Petrobras como as mais relevantes dentro do Ibovespa, índice de referência da nossa Bolsa. Portanto, o comportamento das cotações do minério de ferro e do petróleo têm grande relevância para entender o comportamento do mercado local.
Os preços das commodities também impactam bastante a cotação das moedas de países emergentes em relação ao dólar, já que suas moedas são altamente dependentes da negociação desses materiais no comércio internacional, que é baseado na moeda americana. Assim, quando sobe o preço dos grãos, por exemplo, a tendência é que o real se valorize em relação ao dólar, já que mais dólares serão necessários para comprar a soja ou o milho brasileiro, e o aumento da entrada da moeda americana no Brasil tende a reduzir o seu valor intrínseco.
Outras moedas de países emergentes e exportadores de commodities que o investidor pode ficar de olho no dia a dia são o peso mexicano, o rublo russo, a lira turca, o peso chileno, a rúpia indiana e a rúpia indonésia.
Além de commodities, investidores de todo o mundo podem aplicar recursos em países emergentes por meio de fundos focados em investir nestes mercados, como o ETF (fundo de índice) iShares Emerging Markets, gerido pela BlackRock, que possui mais de US$ 24 bilhões investidos. Esse ETF tem como base (ou benchmark) o índice de países emergentes da MSCI. Segundo a empresa, mais de US$ 1,3 trilhão em ativos estão atrelados ao seu índice, que considera 24 os países emergentes do mundo.
O que é diferencial de juros?
O conceito de juros está intimamente ligado ao conceito de risco. Lembremos que quando uma pessoa física faz um empréstimo, por exemplo, a taxa de juros será cobrada de acordo com o risco de inadimplência que ela apresenta à instituição. Maior risco demanda maiores taxas, e e vice-versa.
Por serem países de economias ainda em crescimento e que muitas vezes têm um cenário fiscal e político instável, os emergentes tendem a ter taxas de juros maiores do que países desenvolvidos. Esse diferencial de juros acaba atraindo capital estrangeiro por meio do chamado carry trade , que é uma operação na qual investidores no mercado de câmbio "trocam" o dinheiro tomado por empréstimo em um país de juros baixos e investe em títulos públicos de países com juros mais altos.
Isso ajuda a explicar, dentre vários outros fatores, o motivo pelo qual uma alta na taxa básica de juros, por exemplo, pode derrubar o valor do dólar ante o real, ao passo que quedas de juros tendem a valorizar a moeda americana.
Novos BRICS?
O grupo de países emergentes de maior relevância é chamado BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. No início eram apenas os quatro primeiros, conforme acrônimo criado pelo ex-economista-chefe do banco Goldman Sachs, Jim O'Neill. Em 2011 o grupo recebeu o país sul-africano. Depois, em 2014, os BRICS fundaram o New Development Bank (NDB), também conhecido como Banco dos BRICS. O banco, sediado em Xangai, iniciou com um aporte de US$ 10 bilhões de cada membro do BRICS, totalizando US$ 50 bilhões em ativos na sua fundação. O NDB tem como objetivo viabilizar investimentos estratégicos nos países-membros e em outras nações em desenvolvimento.
A chefe do banco dos BRICS é a ex-presidente Dilma Rousseff. Dilma defende abertamente a ampliação da atuação do banco e a utilização de moedas locais no comércio dos países-membros, com o objetivo de frear a supremacia do dólar.
Nos últimos meses, vêm surgindo mais interessados no grupo dos BRICS. Países como Argentina, Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Bahrein, Egito, Indonésia e Venezuela estão entre os que demonstraram interesse ou fizeram um pedido formal para ingressar no agrupamento.
Além do BRICS, O'Neill recentemente criou a sigla MINT para identificar os principais países emergentes fora do bloco: México, Indonésia, Nigéria e Turquia. O banco HSBC também criou o acrônimo CIVETS, que busca identificar mercados emergentes de grande potencial de crescimento: Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Turquia e África do Sul.
A definição de país emergente remonta à época da Guerra Fria, na segunda metade do século XX. Naquela época, era usual definir os países do mundo em três partes: Primeiro Mundo (EUA e países desenvolvidos do bloco capitalista); Segundo Mundo (União Soviética e demais países do bloco socialista); e Terceiro Mundo (países pobres ou em desenvolvimento, especialmente da América Latina, África e Ásia).
Nos anos 1980, especialistas passaram a se debruçar sobre as economias do Terceiro Mundo e perceber que algumas tinham potencial de, um dia, se tornarem desenvolvidas. Alguns dos motivos para isso eram as extensas populações desses países, que criavam condições de um amplo mercado consumidor interno, e a riqueza em recursos naturais.

