O cérebro humano distingue as BETs dos cassinos online?
Publicado por: Colunistas
6 minutos
Atualizado em
03/06/2025 às 17:52
Conforme avança a discussão sobre o impacto das BETs e dos cassinos online na vida dos brasileiros, tem-se tentado estabelecer uma comparação entre o comportamento de quem aposta em BETs e de quem joga em cassinos online. Será que um é mais nocivo do que o outro?
No entendimento popular, as plataformas de BETs contrastam com os cassinos online, pois apenas intermediam apostas entre dois apostadores. Uma pessoa aposta que um time vencerá uma partida, enquanto a outra aposta que ele perderá. Nesse caso, a plataforma apenas realiza a intermediação, recebendo uma taxa pela negociação.
Já com os cassinos online, a situação seria diferente: o jogador aposta contra o cassino (computador) o que tenderia a favorecer a casa e a fazer com que, no longo prazo, o jogador esteja sempre em desvantagem. Trivial, cassinos sabem trabalhar a regra dos grandes números a seu favor! No entanto, esta é apenas uma discussão sobre o enquadramento conceitual da forma como uma aposta é realizada, e não sobre o fato de que uma aposta está sendo realizada.
De fato, as evidências neurocientíficas demonstram que o processo neural envolvido na tomada de decisão em situações que envolvem incertezas sobre os resultados, como as apostas, é diferente quando ocorre na interação com outros seres humanos. Tomar uma decisão de risco envolvendo uma pessoa próxima não é o mesmo que quando envolve pessoas desconhecidas. Da mesma forma, há uma diferença quando a escolha é realizada contra um computador.
Na nossa discussão, é seguro afirmar que o cérebro humano não percebe essas diferenças, pois quem realiza uma aposta em uma plataforma online de BETs não está interagindo com outro ser humano. Geralmente, as pessoas leigas não sabem que deveria haver outra pessoa apostando contra.
Mesmo aqueles que sabem disso dificilmente conseguem obter qualquer informação sobre quem está do outro lado. Não sabem quem é, nem possuem qualquer referência. Não é um contexto no qual o cérebro do jogador vencedor recrute funcionamentos para pensar, “poxa, será que quem perdeu está bem?”. Sinceramente, duvido muito que isso aconteça. A impessoalidade é tão comum que se torna irrelevante saber se há, de fato, alguém do outro lado da aposta.
Inclusive...
Outro ponto que tem sido levantado nessa comparação diz respeito à facilidade de acesso que leva a uma frequência elevada de apostas. O cassino online apresentaria uma frequência de exposição muito superior às BETs, pois o jogador pode continuar apostando “sem parar”, enquanto as BETs estão limitadas aos dias e horários em que os jogos acontecem.
Considero esse argumento legítimo, mas ele não leva em conta que quem aposta nas plataformas de BETs não está restrito às quartas-feiras ou aos domingos. Existe um leque internacional de jogos acontecendo constantemente. Lembre-se de que vivemos em um mundo interconectado.
Aliás, seria igualmente ingênuo pensar que alguém que aposta em uma partida de futebol não apostaria também em corridas de Fórmula 1, partidas de tênis, jogos de basquete ou até mesmo em competições de e-sports, que são muito populares entre os adolescentes.
É preciso dizer que as evidências neurocientíficas indicam que a mera frequência de exposição a escolhas arriscadas, por si só, não é um fator que leva ao vício em jogo. Isso é verdade, desde que as funções executivas, como o controle inibitório e a memória de trabalho, estejam plenamente desenvolvidas, e que o sistema nervoso funcione em condições fisiológicas ideais, sem, por exemplo, níveis elevados de hormônios do estresse.
No entanto, estamos falando de um cérebro inserido em um ótimo contexto socioeconômico, que favoreça um neurodesenvolvimento adequado. Será que isso corresponde à realidade do brasileiro médio?
No final, temos que considerar que o problema da aposta não está tanto na forma como ela ocorre, mas sim nas razões que levam as pessoas a apostarem, como as condições socioeconômicas e de neurodesenvolvimento. Parafraseando Drauzio Varella, é como se estivéssemos presos discutindo qual é o cigarro de melhor ou pior qualidade.


