Tesouro IPCA+ é a bola da vez, mas volatilidade pode assustar: entenda
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
26/08/2026 às 19:20
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
São Paulo, 26/08/2026 - Agosto tem sido o mês da NTN-B, título público conhecido como Tesouro IPCA+. Segundo dados do Trademate, sistema de negociação eletrônica de renda fixa no mercado secundário da B3, os negócios com títulos públicos federais bateram dois recordes de quantidade de negociações consecutivos nos dias 14 e 17 deste mês, e a NTN-B respondeu pela imensa maioria desse recorde.
No último dia 17, a Trademate registrou 1.431 operações de NTN-B no mercado secundário, com volume financeiro de R$ 16,57 bilhões. O dado superou o recorde de 1.179 negócios alcançado em 14 de agosto, apenas um dia útil antes. Até então, o recorde era de 1.178 operações, apurado em 15 de maio de 2025.
Especialistas alertam que, ainda que a renda fixa seja conhecida por sua previsibilidade de ganhos, existe um conceito muito importante chamado de marcação a mercado, que pode levar títulos como o Tesouro IPCA+ a registrarem volatilidade ao longo do tempo - o que não ameaça a rentabilidade prometida pelo título no momento em que o investidor o comprou, mas pode trazer algum tipo de ansiedade.
A seguir, entenda o que explica esse alto volume de negociações de NTN-B em agosto e como isso afeta os investidores que possuem Tesouro IPCA+ na carteira por meio da marcação a mercado:
Por que o Tesouro IPCA+ está em alta?
A primeira explicação para o movimento de maior busca pelo Tesouro IPCA+ é técnica. No último dia 15, houve o vencimento de NTN-Bs de 2026. Como a data caiu num sábado, o pagamento dos títulos caiu na conta dos investidores na segunda-feira, dia 17, o que significou quase R$ 290 bilhões de volta ao mercado, como explica Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.
"Esse retorno de capital gerou um processo natural de recomposição de portfólios, especialmente para investidores institucionais, como bancos e fundos de pensão. A pressão compradora resultante desse movimento elevou o preço unitário dos papéis remanescentes, o que, por sua vez, reduziu as taxas de juros", acrescenta Almeida.
Esse fenômeno, de acordo com o especialista, gerou uma marcação a mercado positiva para aqueles que já possuíam esses títulos em seus portfólios. Ou seja, o preço de face dos títulos de Tesouro IPCA+ na carteira dos investidores aumentou devido ao efeito da oferta e demanda dos títulos no mercado secundário.
"O recorde de negociação, por si só, não faz o preço subir ou cair. A marcação a mercado depende principalmente da movimentação das taxas de juros reais. O volume elevado aumenta a liquidez e acelera o ajuste dos preços, mas o efeito final depende de onde está a demanda e de como a curva de juros está se movimentando", explica Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
Ou seja: além do volume de oferta pelos títulos públicos, um fator que influencia bastante a marcação a mercado desses investimentos é a curva dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI), popularmente conhecida como curva de juros, que basicamente representa o quanto o mercado está exigindo de juros para comprar determinados títulos da dívida pública.
Qual é o papel do Tesouro IPCA+ na carteira?
Muitos investidores podem se perguntar qual é o intuito de ter um título como o Tesouro IPCA+ na carteira, e quais vantagens ele apresenta em relação a opções mais conservadoras, como o Tesouro Selic. Mas, antes de tudo, é importante entender que cada título de renda fixa possui um objetivo diferente dentro de um portfólio.
"Na carteira de investimentos, a NTN-B tem a função de proteger contra a inflação, mas apresenta riscos no curto prazo. Se as taxas de mercado aumentarem, a rentabilidade pode ser menor do que o esperado ou até negativa, dependendo do prazo do título e da variação das taxas", esclarece Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos.
Cuidado com a volatilidade
Enquanto o Tesouro Selic é um pós-fixado, ou seja, tem sua rentabilidade ajustada conforme o Banco Central sobe ou desce a taxa básica de juros, ele se torna uma opção muito utilizada para reserva de emergência e com alta liquidez, tendo menos volatilidade.
Já o Tesouro IPCA+ traz uma proposta mais voltada para o longo prazo, uma vez que levar o título até o vencimento garante ganhos reais acima da inflação. Nesse caminho até o vencimento, porém, pode haver volatilidade, o que exige maturidade do investidor.
"O grande desafio para os investidores de longo prazo é o comportamento, ou seja, a psicologia do investidor. Muito desse comportamento é consequência do nível de conhecimento que ele tem sobre os produtos que compõem seu portfólio. Quando conversamos com investidores de longo prazo que estudam bem suas alocações, percebemos que eles lidam melhor com a volatilidade", pondera Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research.

