Tarciana Medeiros: "Teria pelo menos 10 mulheres para indicar como CEO do banco"
Publicado por: Broadcast Exclusivo
6 minutos
Atualizado em
18/03/2024 às 10:39
Por Aline Bronzati, do Broadcast
Nova York - Mesmo antes de assumir o cargo, a presidente do Banco do Brasil, Tarciana Medeiros, tinha por costume levar mulheres em reuniões ainda que essas profissionais não tivessem relação alguma com o tema em discussão. O motivo? Dividir o espaço, dominado por homens.
Agora, na posição de CEO, ela quer "povoar" ainda mais o ambiente, enraizando no banco as questões de equidade e inclusão, temas tão caros para qualquer instituição, nas palavras dela. Quando um homem e uma mulher, com as mesmas capacidades, estiverem disputando a mesma vaga, a mulher será promovida, avisa. Isso é necessário, diz, até que não seja mais necessário falar de equidade, porque será ser normal nos corredores da instituição.
E não é somente para as vagas ao seu redor. "Se eu fosse sair hoje do banco, teria pelo menos umas 10 mulheres que eu tenho em mente para indicar para o cargo de CEO do banco", diz a presidente do BB, em entrevista exclusiva ao Broadcast , durante passagem por Nova York. "Pode parecer clichê, mas exemplo arrasta", emenda a banqueira pública.
A executiva esteve em Nova York para participar de eventos no âmbito da 68ª Comissão Sobre a Situação da Mulher (CSW68). Criada em 1946, é a principal instância da Organização das Nações Unidas (ONU) voltada a promover a igualdade de gênero e o desenvolvimento econômico das mulheres no mundo. Medeiros foi, inclusive, reconhecida por uma premiação do Pacto Global da ONU - Rede Brasil na categoria CEO.
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Ela diz que desde que subiu ao posto máximo no BB, aumentou a participação de mulheres nas concorrências internas do banco. Profissionais que, muitas vezes a questionavam porque ela se candidatava às vagas, ainda que não passassem em algumas, despertaram para a visão de que é possível.
Primeira mulher negra a assumir a presidência do BB em 215 anos, ela tem feito uma verdadeira reviravolta em termos de diversidade na instituição. Um dos aprendizados que teve até aqui foi de que essa mudança não poderia ser de baixo para cima. No varejo, o banco soma cerca de 70 mil funcionários de um total de 125 mil pessoas em todo o conglomerado.
"Se a gente fizesse primeiro o movimento na base, ia demorar muito para conseguirmos atingir os objetivos", explica a presidente do BB. Foi, então, que ela decidiu partir, primeiro do conselho diretor do banco. Até o momento, das 11 vagas de diretores abertas em sua gestão, seis passaram a ser ocupadas por mulheres, que também ganharam mais espaço nas vice-presidências e no Conselho de Administração.
Nesse sentido, o BB incluiu, no início de março, critérios de diversidade na política que orienta as indicações para a diretoria executiva. Agora, as nomeações de ao menos metade dos executivos têm de preencher o critério mínimo de 30% de mulheres, e de 20% de pessoas com deficiência, autodeclaradas negras ou indígenas e LGBTQIAPN+. O objetivo do banco público é alcançar tais metas até 31 de dezembro de 2027.
Antes, já sob a gestão de Medeiros, o BB mexeu em um tema que é bem relevante para os seus funcionários: certificação do programa de executivos, que serve de ponte para os bancários avançarem novas casas do conglomerado. A mudança foi no sentido de criar proporcionalidade em todas as etapas, fazendo com que mais mulheres se candidatem aos processos de concorrência.
- E já tem tido resultados. De mil inscritos, 230 eram mulheres, ou 23% do total. Na segunda etapa, essa proporção foi mantida. No fim, dos 67 aprovados, 34 são mulheres. Para aqueles que ainda batem na tecla da capacidade feminina, a presidente do BB tem a resposta: "Proporcionalmente, as mulheres tiveram melhor desempenho que os homens".
Dentre as recentes nomeações, Medeiros cita duas novas executivas que reforçaram o escritório do banco em Nova York, Fernanda dos Santos, gerente adjunta, e Carolina Beghelli, da área gestão de riscos. Uma permissão para que cônjuges de expatriados pudessem trabalhar de maneira retoma também vai ao encontro das ações de equidade. Antes, isso não era possível.
"Se alguém chegar depois e quiser mudar, vai ter que aprovar no mais alto nível de governança do banco. E aí o movimento de exemplos, como o da Fernanda, como o da Carol, já foram criados. Os funcionários não vão deixar que isso aconteça", explica a banqueira.
O objetivo dessas ações é fazer disso uma "onda", diz Medeiros. Para 2024, o foco do BB é descer com as questões de equidade para os demais níveis hierárquicos, avançando para gerentes de soluções e os superintendentes estaduais. De 28 no Brasil, somente três eram mulheres. Com Medeiros na presidência, esse número avançou para sete.
A presidente do BB diz que a mesma meta de equidade de gênero também foi adotada para lideranças negras. Em outubro do ano passado, o banco lançou um programa de aceleração desses profissionais, com apoio de consultorias externas e seguindo os demais processos internos. Na primeira etapa, participam 150 funcionários.
De acordo com Medeiros, a ação foi necessária para garantir maior presença de lideranças negras com as certificações exigidas para darem passos à frente em suas respectivas carreiras. O abismo é "tão grande" que, sem uma iniciativa dessa, o banco não teria nem a "proporcionalidade mínima", na sua visão.
Enquanto as ações de diversidade no universo corporativo são ameaçadas de efeito de "backlask", ou seja, de retrocesso, Medeiros, com 24 anos de casa, dá o caminho das pedras: as iniciativas têm de ser institucionalizadas e inseridas na estratégia da organização.
"Tudo o que é formal na governança do banco, que é aprovado em todas as instâncias, fica sedimentado. A gente não tem condição de retroceder, porque para retroceder é tão difícil que isso vai fazer com que a condição criada seja mantida", conclui a banqueira.

