A Raízen apresentou, mais uma vez, números negativos em seu resultado trimestral. No 3T25, a receita líquida da companhia atingiu R$ 66,9 bilhões, +14,3% a/a, ao passo em que o custo dos produtos vendidos (CPV) cresceu 18,5% e as despesas financeiras aumentaram 58%, levando o resultado líquido do trimestre a um prejuízo de R$ 2,6 bilhões. A dívida líquida da companhia subiu 22,5%, alcançando R$ 38,6 bilhões, o que, em conjunto com o menor EBITDA (-21% a/a), levou a relação dívida líquida/EBITDA dos 1,9x no 3T24 para 3,0x, o que deve manter a geração de caixa prejudicada, bem como deixar bastante limitado o espaço para remuneração ao acionista no curto prazo.
Em resumo, trata-se de uma combinação de fatores negativos, passando pelas queimadas na última safra, mas tendo como pano de fundo o aumento dos investimentos em E2G, que se iniciaram quando havia a perspectivas de juros menores, ao passo em que o negócio de mobilidade no Brasil vem enfrentando um ambiente mais competitivo e margens pressionadas.
Mudanças de rota.
A Raízen informou na última sexta feira (14) que Geovane Dilkin Consul assumirá a vice-presidência de etanol, açúcar e bioenergia. O executivo já foi CEO da BP Bunge Bioenergia e possui vasta experiência no setor. Em conferência, os executivos da companhia apontaram o foco em simplificar a estrutura, processos internos e, principalmente, o portfólio. A fase de expansão da Raízen promoveu a entrada em diversos negócios que tinham menor sinergia com as duas principais linhas de negócio atuais. A empresa prevê um menor desembolso de capex e deixar de lado novos projetos de crescimento, além de contar com a venda de ativos como usinas e outros ligados a cana. Em nosso entendimento, não ficou suficientemente claro como esse processo de desalavancagem deve ocorrer, dado que o montante de endividamento requer uma mudança mais estrutural na composição do capital da companhia.
Mobilidade.
O volume de vendas mostrou um declínio de 4,4% a/a, com destaque negativo para as vendas de diesel (-7,1%), devido ao contexto de sobreoferta do produto e menor demanda no segmento B2B, de acordo com a companhia. A Raízen usa o conceito de EBITDA normalizado para melhor comparar seus números com as demais companhias (ajustando as operações de convênios que transitam pela margem operacional e impactos de inventário): o indicador apresentou uma redução de 35% a/a (-15% no acumulado dos 9M25). A margem EBITDA acumulada nos 9M25 ficou em R$ 148/m3, redução de 41% a/a, dada a forte base do ano anterior, mas também trazendo impacto da elevação nas despesas administrativas em +16% a/a e de vendas em +8% a/a.
Açúcar e renováveis.
No 3T25, a Raízen teve sua moagem de cana-de-açúcar prejudicada pelo clima seco e pelas queimadas na região Centro-Sul a partir de agosto/24, afetando mais de 6 milhões de toneladas de cana. A qualidade inferior da cana dificultou a produção de açúcar, parcialmente compensada pelo aumento na produção de etanol. A eficiência industrial caiu, resultando em menor ritmo de moagem e produção, com menos produto disponível para venda. Assim, apesar de um aumento na receita líquida do segmento (+35% a/a), a elevação de custos (+50% a/a) fez com que o lucro bruto declinasse 70% a/a. Entre os motivos, destacamos: (i) menor contribuição de trading de açúcar e etanol; (ii) menor diluição dos custos fixos, combinando menor moagem e custos mais altos de insumos agrícolas (diesel, mão de obra e serviços); e (iii) efeitos não-recorrentes, sem efeito caixa, na ordem de R$ 618 milhões, referente à reversão de ganhos com instrumentos financeiros vinculados a contratos futuros de açúcar e etanol, e pela desmobilização de operações de trading. Houve uma bem vinda redução nas despesas administrativas (-14% a/a), o que, em conjunto com maiores vendas de etanol e açúcar próprios, colaborou para um aumento de 7,2% a/a no EBITDA ajustado do trimestre e de 6,6% a/a no acumulado dos 9M25.
Desempenho da Ação.
A Raízen recua 54% nos últimos 12 meses, mais do que seus pares sucroenergéticos (Jalles cai -37%, São Martinho -7,6%), em nossa opinião, respondendo à alavancagem das companhias e ao contexto do setor de maior necessidade de investimento, tanto em renovação do canavial para compensar desafios climáticos, como nos respectivos projetos de expansão. Já na comparação com os pares de distribuição de combustíveis, vemos Ultrapar caindo 40% em 12 meses, enquanto Vibra cai 20%, refletindo o ambiente mais competitivo, com margens pressionadas e maior necessidade de capital de giro em um momento de elevado custo de captação. Em nossa opinião, a maior alavancagem da Raízen e a incerteza em relação aos retornos com E2G responde por tal desempenho em bolsa.