Raízen 1T27*: Distribuição de combustíveis sustenta os resultados, mas desalavancagem segue como principal desafio
Especialista Daniel Cobucci, do BB Investimentos, analisa os resultados 1T27 da Raízen (RAIZ4).
Publicado por: Análise BB
8 minutos
Atualizado em
14/08/2026 às 14:28
A Raízen reportou números fortes no 1T27 (ano safra), sustentados pela atuação em distribuição de combustíveis, compensando parte dos desafios no segmento de EAB (Etanol, Açúcar e Bioenergia), o que resultou em uma geração de caixa positiva no trimestre. Apesar da evolução operacional, a estrutura de capital segue desbalanceada, com endividamento elevado e custo financeiro pesando excessivamente sobre os resultados. A alavancagem fechou em 4,8x dívida líquida/EBITDA, com a companhia buscando uma redução no volume de investimentos e execução do plano de reestruturação, visando adequar seu portfólio e implementar as medidas propostas na recuperação extrajudicial. Em suma, um bom resultado do trimestre, puxado pelas fortes margens em distribuição de combustíveis, mas mantendo o elevado grau de incerteza em relação aos próximos passos.
Desempenho financeiro.
A receita líquida cresceu 4,0% a/a, para R$ 51,5 bilhões, impulsionada pela elevação nos volumes e margens do segmento de distribuição Brasil. O lucro bruto atingiu R$ 3,7 bilhões, +77% a/a, enquanto o EBITDA ajustado avançou para R$ 3,8 bilhões, mais do que o dobro do 1T26, em função dos bons resultados em distribuição e melhoria no capital de giro, além de ajustes positivos por conta do encerramento das operações na Argentina. Ainda assim, o prejuízo líquido permaneceu elevado em R$ 1,6 bilhão, 11% maior a/a, com o resultado financeiro líquido 42,4% superior a/a, em R$ -3,0 bilhões, dado o maior saldo médio da dívida e aumento do custo financeiro. A boa notícia ficou por conta da geração operacional de caixa, positiva em R$ 3,6 bilhões, contra consumo de R$ 10,9 bilhões no 1T26, principalmente devido à melhora na gestão do capital de giro.
Operacional por segmento.
Em EAB, o cenário permaneceu desafiador, com recuo de 2% a/a na moagem e redução tanto no ATR (-2,9%), quanto na produtividade agrícola (-3,2%). A produção de açúcar foi 14% menor a/a, enquanto a de etanol cresceu 9,4% a/a, com mix mais favorável ao biocombustível. Os menores preços de açúcar e a redução dos volumes comercializados trouxeram um recuo de 63% a/a no EBITDA ajustado, que ficou em R$ 301 milhões. Entre as poucas boas notícias do segmento, destacamos a maior eficiência operacional, vista por meio da redução de 18,4% a/a do CPV caixa por tonelada de açúcar equivalente. Como mencionamos, o segmento distribuição Brasil foi novamente o motor do resultado, com volumes crescendo expressivos 6,6% a/a, resultando em um avanço de 16% na receita líquida e um EBITDA ajustado de R$ 3,5 bilhões, mais de três vezes o resultado do 1T26, com destaque para a margem EBITDA de R$ 493/m³, acima dos R$ 449/m³ reportados pela Ultrapar nesta semana, e quase 3,5x acima dos R$ 142/m³ do 2T25, refletindo o melhor ambiente competitivo (ações contra o crime organizado no setor, vide o recente cancelamento da autorização de funcionamento da Refit pela ANP), bem como ganhos de rentabilidade (captura de margens com maior volatilidade internacional em derivados, o que favorece a atuação de empresas mais estruturadas).

No campo estratégico, a Raízen segue executando medidas para preservação de liquidez e desalavancagem, com redução de 33% a/a nos investimentos, foco em manutenção dos ativos e conclusão dos projetos prioritários de E2G. Não obstante, a dívida líquida avançou 15,5% a/a, para R$ 56,9 bilhões. O volume de hedge para a safra de açúcar 2026/27 está em 80%, o que deve mitigar parte da volatilidade nos preços do adoçante. A recuperação do fluxo de caixa operacional e a virada para uma geração de fluxo de caixa livre foram sinais importantes desse aprimoramento financeiro, mas ainda distante de eliminar as preocupações relacionadas ao elevado endividamento.
Em suma, o 1T27 mostrou uma Raízen operacionalmente mais forte, especialmente em distribuição Brasil, com melhora expressiva da rentabilidade e recuperação da geração de caixa. O segmento EAB segue com dificuldades em relação à produtividade, além de volumes e preços do açúcar, o que limitou a contribuição do segmento. Vemos de forma positiva os esforços direcionados para redução de custos, disciplina de CAPEX e gestão de capital de giro, que já trouxeram avanços, mas ainda uma tese de investimento vinculada ao sucesso da reestruturação financeira, permeada de incertezas relacionadas à estrutura de capital resultante da recuperação extrajudicial.
Desempenho da ação.
O papel RAIZ4 cai 79% nos últimos doze meses, na contramão da alta observada em Vibra (+80%) e Ultrapar (+101%) no período, enquanto pares sucro também caem, mas em menor intensidade: Jalles (-34%) e São Martinho (-10%), com investidores precificando cenários bastante negativos diante do processo de recuperação extrajudicial.
*Refere-se ao primeiro trimestre do ano-safra de 2026/27, que se iniciou em abril/2027 e terminará em março/2027.

RAIZ4 x Ibovespa

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