Pix e ansiedade: como saber esperar em um mundo de recompensas instantâneas
Publicado por: Broadcast Exclusivo
7 minutos
Atualizado em
14/05/2025 às 10:43
Por Gustavo Boldrini, do Broadcast
São Paulo, 14/05/2025 - Quase cinco anos após seu lançamento, em novembro de 2020, o Pix gerou uma verdadeira revolução na forma como nós brasileiros lidamos com o dinheiro, de forma que é até difícil se lembrar como era a vida antes dele.
Pagar por alguma compra de bem ou serviço e fazer ou receber transferência para amigos ou fornecedores, que até pouco tempo atrás envolvia siglas como TED e DOC, talões de cheque e os famosos boletos, tornou-se algo instantâneo. Como num passe de mágica, em segundos, o dinheiro cai na conta.
Mas, como nem tudo são flores, alguns especialistas têm apontado para possíveis problemas que essa instantaneidade pode gerar na forma como as pessoas lidam com as finanças pessoais e os seus investimentos. Aqui, entra aquela busca por ganhos rápidos e "mágicos", tão frequente nas discussões sobre educação financeira nos dias de hoje.
A era da instantaneidade
"Vivemos na era do 'agora', com likes, stories, jogos e apostas, tudo isso sendo desenhado para nos dar microdoses de recompensa instantânea. O cérebro, principalmente dos mais jovens, ainda em desenvolvimento, responde com ainda mais intensidade a esses estímulos", avalia a educadora financeira Ana Paula Hornos, mestre em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora geral da plataforma Multi Valore Educação.
Para Hornos, o Pix pode se encaixar nessa "onda" de busca por recompensa instantânea, já que "o dinheiro entra e sai com a mesma velocidade com que um vídeo viraliza", o que pode levar muitas pessoas a associarem o dinheiro à sensação de prazer rápido e acabar tendo, nessa recompensa, uma armadilha.
Quando falamos de investimento, isso pode afetar a forma como se lida com a construção de patrimônio. "Essa busca por prazer rápido alimenta a ansiedade por conquistas imediatas, e uma certa frustração crônica quando os resultados não acompanham o ritmo da expectativa", aponta a especialista.
Brasil: um país de ansiosos
A sociedade atual é marcada pelo aumento dos diagnósticos de ansiedade e outros distúrbios relacionados à saúde mental, e o Brasil se destaca nessa difícil realidade. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o País liderou o ranking de casos de ansiedade em 2024, com mais de 18 milhões transtornos diagnosticados, representando cerca de 9,3% da população.
Esse cenário, como é de se esperar, tem relação e impactos consideráveis também sobre as finanças pessoais, segundo aponta Vera Rita, especialista em psicologia econômica e professora na plataforma Vértice Psi.
"Vivemos um momento difícil, com guerras e ameaças bem reais de mudanças climáticas irreversíveis. Com isso, não espanta que principalmente os mais jovens estejam sofrendo com a ansiedade, depressão e outros diagnósticos", comenta a psicóloga, acrescentando que esse quadro geral pode desembocar no consumo desenfreado, onde o Pix pode ser, sem dúvida, uma ferramenta de troca.
"O Pix não é a causa de nenhum problema, é apenas o veículo que facilita a expressão de todo esse desconforto interno, esse mal-estar que vem predominando e que pode levar aquela pessoa a buscar recompensas imediatas em consumo", afirma.
Como lidar com a ansiedade por recompensas?
Lidar com a ansiedade por recompensas imediatas, principalmente quando falamos de consumo e investimentos, não é nada fácil. Para quem convive com uma pessoa nessa situação, em especial um jovem, a palavra de ordem é empatia.
"O primeiro passo é reconhecer que estamos falando de uma geração que precisa ser acolhida, não julgada. O mundo mudou rápido demais. Para ajudar é preciso educar com empatia, trazendo clareza sobre o ciclo do dinheiro, estimulando o autoconhecimento financeiro e, acima de tudo, trabalhando neles o valor do tempo e do esforço", aponta Ana Paula Hornos.

