Newcastle: crise zoossanitária pode afetar os seus investimentos? Entenda
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
21/10/2026 às 11:42
Por Gabriela Pessanha, da Broadcast
São Paulo, 21/10/2026 - Uma doença identificada em uma granja de perus de Santa Catarina pode ter consequências que vão além do agronegócio. Com restrições às exportações brasileiras de produtos avícolas, parte da produção que seria enviada ao exterior pode acabar no mercado interno, aumentando a oferta e talvez pressionando os preços.
Mas, o que parece ser uma notícia que vai impactar o consumidor local pode representar um desafio para os frigoríficos e seus investidores? Afinal, quem ganha e quem perde com a crise sanitária? Veja mais a seguir:
O que aconteceu?
O Ministério da Agricultura confirmou nesta segunda-feira (19) um foco da Doença de Newcastle (DNC) em uma granja de perus em Nova Itaberaba, na região oeste de Santa Catarina. O local abriga cerca de seis mil aves, que devem ser eliminadas.
Além da cidade, o governo federal declarou emergência zoossanitária de 60 dias em outros três municípios do estado, que também estão sob restrições sanitárias: Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim.
A Newcastle é uma doença altamente contagiosa e que afeta apenas aves. Com a declaração de emergência é possível obter mais agilidade no enfrentamento da contaminação.
A resposta do mercado internacional não demorou para chegar. O México e a China, grandes parceiros comerciais do Brasil no setor de produtos avícolas, anunciaram embargos às importações locais.
No caso do México, foi anunciada a suspensão total de produtos avícolas produzidos em todo território nacional, enquanto a China restringiu a medida às compras de Santa Catarina.
Vale ressaltar que, em 2025, esses mercados foram responsáveis por quase US$ 707 milhões em exportações brasileiras de carne de frango. De acordo com o Agrostat - sistema de estatísticas de comércio exterior do Ministério da Agricultura - o volume correspondeu a 7,40% da receita obtida pelo País com os embarques externos do produto no ano passado.
Isoladamente, as negociações com o México representaram US$ 592,1 milhões em receita e 242,8 mil toneladas em embarques brasileiros de carne de frango no ano passado. Isso representa, respectivamente, 6,2% da receita e 4,7% do volume exportado pelo Brasil.
As vendas de carne de frango de Santa Catarina para o mercado chinês totalizaram US$ 114,7 milhões e 53,7 mil toneladas em 2025, equivalentes a 1,0% do volume total exportado.
Qual impacto nas principais empresas do setor?
Apesar de alarmante e imprevisível, a crise não necessariamente representa um grande temor para as empresas exportadoras desses insumos. O diretor de gestão da Soho Capital, Hugo Queiroz, defende que a situação é "aparentemente passageira" e com foco apenas em um estado.
Entre as principais empresas afetadas, ele menciona a MBRF (MBRF3) e a JBS (JBSS3), grandes exportadoras no segmento.
"A gente deve ver uma queda no volume e, consequentemente, no preço, o que afeta a cadeia como um todo", explica o especialista.
No entanto, apesar da queda nas exportações de carne e frango, as empresas podem obter vantagens financeiras em outros produtos do portfólio, como os processados.
Ele comenta que essa variação nas fontes de lucro influenciou para que os papéis não sofressem grandes perdas na última semana. Em outubro até aqui, os da MBRF (MBRF3) marcam alta de 10,37% e os JBS (JBSS3) valorização de 12,40%.
Outros grandes nomes do setor que não estão ligados à exportação não devem sentir os impactos da suspensão, como é o caso da Minerva (BBEF3), segundo Queiroz. Mesmo sem perspectivas de perdas, ele alerta que eventuais contaminações para além do foco em Santa Catarina podem mudar o cenário.
Já o analista Luca Vello, da Genial Investimentos, avalia que a suspensão das importações de produtos avícolas de Santa Catarina pela China pode reduzir em cerca de R$ 420 milhões o resultado da MBRF, caso a restrição se estenda por seis meses.
"Quando fazemos a conta, entretanto, vemos que o impacto, na verdade, não é tão relevante quanto parece", afirmou.
É hora de mexer nos investimentos?
Justamente pelo caráter passageiro e sem previsão de impactos duradouros, ainda não há indicação do analista para realocação dos investidores do setor em outros ativos.
"É algo pontual, específico e fácil de controlar, por isso não vejo sentido de o investidor se preocupar com mudanças de posição", comenta. "Quem quer exposição a margens mais altas em carne in natura, fica em bovinas, no caso Minerva", diz Queiroz, da Soho Capital.
Algo muda para o cenário doméstico?
Ao tratar do efeito sobre a oferta doméstica, o Citi ressaltou em relatório que o impacto deve ser moderado, ponderando que a pressão sobre preços dependerá da velocidade com que os volumes serão redirecionados e absorvidos por aqui.
O banco diz que ainda é cedo para avaliar a reação de preços no episódio atual, mas lembra que, em 2024, em episódio semelhante, os valores domésticos de aves recuaram cerca de 0,7o%.
Na visão do Citi, uma suspensão curta pode ter efeito administrável, enquanto embargos prolongados elevam o risco de que exportações deslocadas sejam direcionadas ao mercado interno, com impacto sobre os preços efetivamente realizados.
(Colaborou Leandro Silveira)
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