Mulher e o mercado financeiro: avançando aos poucos, mas de forma constante
Publicado por: Análise BB
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Atualizado em
03/10/2024 às 15:30
Ser mulher no mercado financeiro implicou, historicamente, em superar importantes barreiras devido ao desequilíbrio existente entre a participação de homens e mulheres na força de trabalho do setor. Em diferentes áreas desse mercado, era comum observar a predominância masculina nas mais variadas situações: composição e gestão de equipes, debates estratégicos, eventos, entre tantos outros. Os momentos de protagonismo feminino consistiam em raras oportunidades. De fato, era comum a tantas profissionais financeiras e investidoras ser a única mulher presente em reuniões de grande porte.
Essa assimetria foi ocasionada por múltiplos fatores como (i) a existência de restrições no passado para a atuação da mulher “fora de casa” e, mesmo após seu acesso no mercado de trabalho, (ii) desconfianças em relação à capacidade feminina em assumir desafios e posições de liderança. A PhD. Claudia Goldin, vencedora do Prêmio Nobel de Economia de 2023, abordou com profundidade o tema por meio de diversas publicações, entre elas o livro “Understanding the Gender Gap”, chamando a atenção para desigualdades salariais associadas à maternidade, resultando em rendas menores, e a persistência dessas distorções mesmo em situações de equivalência de formação e profissão. No Brasil, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio de uma mulher foi 21% menor do que a de um homem ao fim de 2023.
Nesse contexto, inúmeros desafios ainda persistem. Contudo, mudanças estruturais têm ocorrido e é possível vislumbrarmos uma dinâmica mais aberta à diversidade de gênero, que reflete ações positivas sob várias frentes. Leis de proteção e igualdade de diretos à mulher têm sido aprovadas, visando um ambiente social mais inclusivo - a lei 14.611/2023, por exemplo, tornou obrigatória a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre homens e mulheres no exercício da mesma função. Adicionalmente, informações do Panorama Mulheres 2023 (estudo da Talenses Group com o Insper), de modo geral, evidenciam que a presença feminina em cargos de presidência apresenta crescimento contínuo no Brasil, aumentando de uma participação de 13% em 2019 para 17% em 2023, enquanto nos conselhos de administração a representatividade subiu de 16% para 21% no mesmo período.
Os números ainda são baixos, mas demonstram um considerável ganho de participação e uma tendência de fortalecimento da equidade para construção de um cenário cada vez mais equitativo nas companhias. Vale ressaltar que a diversidade de pensamento, sem sombra de dúvidas, contribui para a formação de equipes mais motivadas e de alto desempenho. No universo de banco de investimentos, nos dias de hoje, já é possível encontrarmos muitas mulheres atuando como analistas e liderando equipes, o que contribui para a evolução do mercado em um contexto de aumento de transações no mercado de capitais e maior demanda de novas oportunidades de investimento por parte, inclusive, de pessoas físicas.
Diante da desigualdade de gênero no mercado de trabalho, intuitivamente, o menor poder aquisitivo pode ter relação direta na capacidade das mulheres atuarem também como investidoras. Desse modo, da mesma forma como a representatividade das mulheres vem crescendo nas empresas, a proporção de mulheres investidoras avança ano a ano no país. De acordo com dados da 6ª edição do Raio-X do Investidor Brasileiro 2023 da Anbima, atualmente, cerca de 33% das mulheres declararam ter alguma modalidade de investimento em 2022, em comparação a 28% em relação à 2021.
¹Proporção percentual de pessoas que declararam ter algum investimento em 2022.
Base: Total da Amostra Anbima – 2022: 5.818 entrevistas / 2021: 5.878 entrevistas.
Ao analisar os números da B3 em relação a perfil de investidor, observamos uma evolução de 140 mil para mais de 1,4 milhão de mulheres investidoras nos últimos 10 anos. É preciso destacar, no entanto, a manutenção do predomínio masculino em um contexto de mercado de capitais, no qual as alternativas disponíveis para alocação em renda fixa, renda variável e instrumentos híbridos não param de crescer. No que pese o aumento em números absolutos, a dimensão de participação entre homens e mulheres manteve-se estável ao longo do tempo. Em janeiro de 2024, cerca de 25% do total de investidores com conta ativa em custódia eram mulheres – um aumento de apenas 4 pontos percentuais em relação a 2014.
Perfil de investidores B3 por gênero
Para reduzir essa disparidade, é fundamental reconhecermos que os obstáculos à igualdade no mercado financeiro ainda persistem e que, apesar das conquistas alcançadas, o caminho para a equidade requer esforços contínuos por parte de todos. O tempo revelou para a sociedade que as mulheres podem prosperar em qualquer área, mas é necessário um elevado compromisso para evolução e perenidade dos progressos em curso. Criar mecanismos que apoiem o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, evitar quaisquer preconceitos e promover ampla educação financeira, desde os princípios básicos, são passos essenciais para assegurar que as mulheres não apenas participem ativamente, mas liderem e construam o futuro do mercado financeiro.


