Desdolarização: o que é isso e por que importa para seus investimentos?
Publicado por: Broadcast Exclusivo
6 minutos
Atualizado em
23/09/2025 às 16:24
Por Gustavo Boldrini e André Marinho, da Broadcast
"Desdolarização" é uma daquelas palavras que nunca estiveram no nosso vocabulário, e que, de repente, começam a se multiplicar nos jornais, na mídia e nas discussões políticas e econômicas.
Considerado o "rei absoluto" da economia global desde o fim da Segunda Guerra Mundial e o colapso do Império Britânico, o dólar e seu papel de referência econômica vivem seu momento de maior incerteza, diante de fatores geopolíticos e das transformações econômicas que estão ocorrendo no mundo.
A desdolarização é mais do que uma simples discussão geopolítica: trata-se de um processo que pode mexer com a forma como a economia global funciona, consequentemente, trazendo desdobramentos para o dia a dia das pessoas e para os investimentos.
A seguir, entenda mais sobre o tema:
O que é desdolarização?
Desdolarização é um processo pelo qual países, blocos econômicos e empresas buscam reduzir a dependência do dólar americano nas suas transações internacionais e na formação de reservas financeiras.
Na prática, usa-se moedas alternativas ou até mesmo criptoativos com o intuito de reduzir a exposição à moeda.
Exemplos de desdolarização
Os Brics, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e outros países em desenvolvimento, têm sido apontados como os líderes globais nas discussões em torno da desdolarização. Alguns países do bloco já negociam entre si sem uso do dólar, e há o projeto de criação de uma moeda comum para transações comerciais entre eles.
No âmbito dos investimentos e formação de reservas, os Bancos Centrais de países como Índia, China, Turquia e Polônia aceleraram suas compras de ouro no ano passado, segundo o Conselho Mundial do Ouro. O metal precioso é uma alternativa ao dólar na estratégia de reservas desses países.
Outras nações como El Salvador e Butão possuem o Bitcoin como parte de suas reservas estratégicas, o que também pode ser um exemplo de desdolarização.
Por que se fala tanto em desdolarização?
O debate sobre desdolarização tem crescido nos últimos anos, e analistas consultados pela Broadcast apontam que escolhas políticas dos últimos governos americanos têm ajudado a acelerar o processo.
No governo do ex-presidente Joe Biden, os EUA utilizaram o dólar como um instrumento para punição de transgressões na área geopolítica, com sanções à Rússia e à China. O movimento encoraja certos atores a tentarem contornar a divisa americana para sair do radar do governo norte-americano, explica o estrategista-chefe de câmbio do Société Générale, Kit Juckes.
"E assim há uma importância crescente para o comércio de transações cambiais que não envolvem o dólar", ressalta.
Sob o governo Donald Trump, houve uma aceleração mais intensa das conversas sobre desdolarização. Isso porque a ofensiva tarifária da administração republicana ameaça o futuro da globalização, que teve o dólar como protagonista absoluto, conforme alerta o estrategista global de câmbio e juros do australiano Macquarie Group, Thierry Wizman.
"À medida que os EUA se afastam deste sistema e não são mais os bastiões da globalização, isso deve levar a uma diminuição no uso do dólar em geral", destaca.
Como a desdolarização mexe com os investimentos?
As incertezas econômicas e geopolíticas globais com as tarifas do governo Trump e a falta de resolução para conflitos como os da Faixa de Gaza e da Ucrânia têm impulsionado ativos que são uma alternativa ao dólar no papel de reserva de valor. Em especial o ouro e o Bitcoin, chamado até mesmo de "ouro digital" por entusiastas do mercado cripto.
O ano tem sido de recordes nas cotações desses dois ativos. No caso do ouro, o último deles foi atingido hoje. O futuro do metal precioso negociado em Nova York com vencimento em dezembro deste ano atingiu a marca inédita de US$ 3.715,20.
O Bitcoin, por sua vez, chegou a tocar a marca inédita dos US$ 124 mil em 13 de agosto, impulsionado pela perspectiva de cortes de juros nos EUA e por medidas regulatórias favoráveis aos ativos digitais na maior economia do mundo.
Como os brasileiros enxergam o tema?
Segundo pesquisa recente realizada pela Nexus, 48% dos entrevistados se mostraram favoráveis ao estreitamento da relação do Brasil com os Brics, enquanto apenas 33% defenderam um afastamento do bloco econômico.
Em relação à desdolarização, ocorreu uma maior divisão: 44% dos entrevistados se declararam favoráveis a procurar alternativas para substituir o dólar no comércio internacional, enquanto 43% disseram preferir a manutenção da moeda, por ser a mais utilizada no mundo, trazendo segurança e estabilidade às negociações. Outros 12% não souberam responder ao tema.
A Nexus entrevistou 2.005 cidadãos com idade a partir de 16 anos, nas 27 unidades da federação, entre os dias 15 e 19 de agosto.
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