Debandada gringa: o que explica a fuga do investidor externo da Bolsa?
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
17/08/2026 às 12:33
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
São Paulo, 17/08/2026 - O Ibovespa acumulou a 9ª baixa diária consecutiva no pregão da última sexta-feira, chegando a uma queda de mais de 6% em agosto. O cenário conturbado levou a Bolsa brasileira aos menores níveis em ao menos três anos.
O mês tem sido marcado por uma debandada dos investidores estrangeiros. Até o último dia 13, os gringos haviam retirado mais de R$ 15 bilhões de recursos da Bolsa, de acordo com dados da B3.
A seguir, entenda o que tem causado esse "inverno" vivido pelo mercado de ações do Brasil em agosto e quais são as perspectivas para a Bolsa local:
Guerra comercial e relatório do JPMorgan
Na semana passada, operadores de mercado destacaram dois fatores que pesaram sobre o apetite a risco da Bolsa local:
Primeiro, a perspectiva de acirramento da guerra comercial entre Brasil e Estados Unidos, com o anúncio do governo brasileiro de que poderá acionar a Lei de Reciprocidade contra os americanos, após a imposição de tarifas de 25% da administração de Donald Trump contra o País.
Em segundo lugar, um relatório do JPMorgan rebaixando a recomendação para ativos brasileiros de compra para neutra trouxe ainda mais cautela para os investidores.
No estudo, o banco americano citou que o ciclo de cortes de juros no Brasil pode estar chegando ao fim, ao mesmo tempo em que o crescimento econômico vem desacelerando e o ciclo de crédito está se deteriorando - diante dos juros ainda elevados.
Inflação e juros
A leitura acima do previsto do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de julho, na semana passada, também trouxe cautela e mexeu com as perspectivas para os juros. Um novo corte da taxa Selic pelo Banco Central na reunião de setembro permanece em dúvida, o que é mais um fator de cautela para a Bolsa.
"O ponto de atenção é que a inflação de serviços não desacelerou no mesmo ritmo. A alimentação fora do domicílio acelerou de 0,15% para 0,55%, enquanto os planos de saúde refletiram os reajustes autorizados pela agência reguladora. São componentes mais persistentes e observados com atenção pelo Banco Central", comentou Gabriel Foglieni, gerente de investimentos da Eleva Invest.
Eleições no radar
Começou ontem oficialmente a campanha eleitoral no Brasil, um fator que por si só também tende a trazer volatilidade, uma vez que há incerteza sobre os rumos da política econômica do País durante os próximos anos. Se o cenário é incerto, pode-se esperar que o investidor tome menos risco.
"O movimento [de baixa do Ibovespa] reflete principalmente a combinação entre incerteza eleitoral, preocupação fiscal e deterioração da percepção sobre os ativos domésticos", avalia Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora.
Mollo cita, além do relatório do JPMorgan, uma análise do Citi que retirou o real de sua cesta de moedas para operações de carry trade , o que também pode contribuir com a aversão a risco.
Para onde vai o Ibovespa?
Para o economista Daniel Abrahão, do Grupo Fatorial, boa parte das expectativas eleitorais já vem sendo absorvida pelos preços dos ativos. Por isso, ele considera improvável uma reação mais abrupta da Bolsa daqui até outubro, quando ocorre o pleito.
"Para 2026 importa menos quem vence [as eleições presidenciais] e mais o que sinaliza sobre gestão fiscal e reforma estrutural", afirma, ressaltando que a atenção dos investidores ao longo do calendário eleitoral permanecerá concentrada na condução das contas públicas a partir do ano que vem.
Analistas do BB Investimentos mantêm "postura cautelosa" para a renda variável doméstica. Para o investidor, esse cenário deve privilegiar "a diversificação e a seletividade na escolha dos ativos", avaliam.

