Chinesa DeepSeek abala setor de tecnologia nos EUA e reacende debate sobre bolha de IA
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
27/01/2025 às 15:55
Por Gustavo Boldrini e André Marinho, do Broadcast
São Paulo, 27/01/2025 - O lançamento de uma plataforma de inteligência artificial (IA) pela startup chinesa DeepSeek gerou nesta segunda-feira uma onda de baixa nas ações de gigantes de tecnologia nas bolsas de Nova York, em especial aquelas que estão expostas ao mercado de IA.
Ações como Nvidia e Broadcom, que produzem chips e semicondutores, derretem mais de 12% perto das 14h (de Brasília) desta segunda-feira, enquanto a Micron cai 11%, AMD recua 6% e Microsoft perde mais de 3%. Como resultado, o índice Nasdaq, bolsa que reúne as maiores empresas de tecnologia do mundo, recua em torno dos 3%.
Ao longo dos últimos anos, a forte valorização de ações ligadas a chips e semicondutores tem gerado um debate entre analistas, se o movimento configura uma bolha - isto é, um processo de valorização artificial de determinados papéis que em algum momento vai "estourar". Será que o advento da DeepSeek é a "agulha" que faltava?
Por que a DeepSeek tem causado tanto alvoroço?
A startup chinesa DeepSeek lançou seu chatbot de IA generativa na semana passada. O modelo é parecido com o já conhecido ChatGPT, da OpenAI, mas a diferença - gritante - está no menor uso de recursos.
A companhia DeepSeek precisou de menos de US$ 6 milhões para treinar o modelo R1, mais simples, que ajudou a DeepSeek a alcançar o topo dos aplicativos mais baixados na Apple Store dos EUA. Para efeito de comparação, a Meta avisou, na semana passada, que investirá mais de US$ 65 bilhões para avançar com IA este ano.
O avanço da empresa chinesa é um "dos mais incríveis e impressionantes" já vistos no segmento, nas palavras do megainvestidor de techs Marc Andreessen.
A DeepSeek também disse em um relatório técnico que usou um cluster de mais de 2 mil chips Nvidia para treinar seu modelo V3, em comparação com dezenas de milhares de chips que normalmente são usados para treinar modelos de tamanho semelhante. Os chips também são menos avançados do que os de concorrentes, frente ao aumento de sanções dos EUA sobre exportações de semicondutores para a China.
É essa rápida ascensão do novo modelo de IA chinês, com poucos recursos e alta performance, que tem assustado o setor de tecnologia em escala global nesta segunda-feira.
O mundo da IA está "em choque", segundo o desenvolvedor de IA da Dropbox, Morgan Brown.
"OpenAI e outras gastam mais de US$ 100 milhões apenas em computação. Chega a DeepSeek e diz: 'e se fizéssemos isso por US$ 5 milhões?", escreveu, em publicação no X na qual lista uma série de inovações do novo modelo, cujo "segredo" está em seu formato "mixture of experts", ou "combinação de especialistas", também conhecido como MoE.
O que é MoE?
O MoE é uma abordagem de aprendizado de máquina (machine learning) que consiste em dividir o modelo de IA em várias redes de "especialistas", que permite um uso menor de recursos e de energia quando acionada.
Por exemplo, imagine usar a plataforma de chatbot IA para fazer uma pergunta sobre futebol. A IA baseada no conceito de combinação de especialistas vai acionar apenas as redes relacionadas ao esporte. Por outro lado, uma IA de abordagem tradicional vai ativar todos os seus especialistas simultaneamente, o que gerará um consumo maior de recursos e energia.
O debate sobre a 'bolha da IA'
Essa ascensão rápida da DeepSeek levanta questões sobre os gastos elevados de big techs americanas para financiar seus modelos de IA e coloca em xeque a valorização elevada de ações de fabricantes de chips.
Os paralelos com a bolha da internet, que causou um cataclisma no mercado acionário dos EUA no início dos anos 200, já eram citados pelos mais pessimistas em torno da IA, diante das crescentes valorizações de ações ligadas à IA. Não se sabe se o cenário atual será tão dramático quanto o do começo do século, mas analistas veem espaço para correção.
"A retração (...) também conversa com a ideia de que as valuations de ações foram esticadas e o desempenho bom do mercado de ações já deveria ter sofrido uma retração, se não uma correção total", resume o estrategista Ian Lyngen, do BMO Capital Markets.
Ele diz que monitora a disposição de investidores em aproveitar a queda das ações para conseguir barganhas para entender se, de fato, haverá a correção.
Ainda é cedo para mensurar o impacto da DeepSeek no setor de tecnologia, reconhece o estrategista-chefe para Europa do Jefferies, Mohit Kumar. Mesmo assim, o episódio preocupa ainda mais do que o noticiário sobre tarifas dos Estados Unidos, avalia Kumar.
Para o estrategista, as tarifas são uma tática de negociação do presidente americano, Donald Trump, e os efeitos econômicos não serão tão negativos quanto o temido. Por outro lado, o caso da DeepSeek gera temores de que a empresa contrarie o modelo de negócios atual da IA, baseado em computação avançada e muita energia.

