Bets na Copa do Mundo: veja por que a propaganda aumenta o impulso para apostar
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
26/06/2026 às 12:10
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
A Copa do Mundo de 2026, como esperado, está movimentando as atenções da grande maioria dos brasileiros. Mas, além da despedida de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo ou dos gols decisivos de Vinícius Junior para a nossa Seleção, um assunto em especial tem tomado as discussões: a publicidade das casas de apostas onlines, as bets, durante as transmissões dos jogos.
Dona dos direitos de transmissão de todas as partidas do Mundial, a Cazé TV tem sido alvo de críticas devido ao número excessivo de propagandas de bets no meio dos jogos. Não só pela publicidade em si, mas pelo papel ativo de narradores e comentaristas na divulgação de apostas.
O caso tomou grandes proporções e chegou a Brasília. O Ministério da Justiça abriu na quarta-feira, 24, uma investigação para apurar eventuais propagandas abusivas por parte da Cazé TV. No mesmo sentido, lideranças do Partido dos Trabalhadores (PT) acionaram a Justiça Federal do Distrito Federal com pedido de liminar para vedar a publicidade de bets em transmissões ao vivo de eventos esportivos, conforme apurou o Broadcast Político .
Como a publicidade induz as pessoas a apostarem?
Em um país no qual oito em cada dez famílias estão endividadas, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o papel negativo exercido pelas bets nesse cenário tem se tornado cada vez mais destacado por entidades e analistas. E a publicidade excessiva sobre apostas é apontada como um motor para isso.
"O comportamento não nasce apenas da vontade individual. Ele é resultado da interação entre emoção, contexto, incentivos e repetição. Quando desenhamos ambientes que estimulam impulsividade, não podemos tratar as consequências como se fossem apenas responsabilidade do indivíduo", avalia Ana Paula Hornos, mestre em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e educadora financeira.
Ela acrescenta que a Copa do Mundo, por ser um ambiente de intensa ativação emocional, acaba contribuindo com o incentivo para que os espectadores tomem decisões por impulso.
"A aposta passa a ser apresentada não como um desperdício, um gasto, um caminho para o vício e para o endividamento, mas como uma extensão natural da experiência de torcer e acompanhar os jogos", afirma.
De acordo com Hornos, adolescentes e jovens adultos são os grupos mais vulneráveis às apostas, mas pessoas que estão endividadas e sob estresse financeiro também merecem atenção, uma vez que "podem enxergar na aposta uma esperança de resolver dificuldades rapidamente".
Cazé TV muda formato de publicidade
Em nota enviada ontem ao Estadão , após as críticas e a investigação aberta pelo Ministério da Justiça, a Cazé TV informou que decidiu abordar um "padrão mais específico e conservador para ativações de marcas de apostas" nas suas transmissões.
"Na prática, as ativações desse segmento passarão a seguir um formato mais tradicional de publicidade, preservando a espontaneidade que marca o canal em todos os demais segmentos", afirmou o canal, que é controlado pelo grupo de mídia Livemode.
Será que as mudanças serão suficientes para reduzir possíveis danos? Para Ana Paula Hornos, é necessário apertar a regulação sobre as publicidades de bets, incluindo medidas como limitar a exposição de propagandas, especialmente em horários e eventos com grande audiência jovem, impedir mensagens que associem aposta a sucesso financeiro e tornar os riscos de apostar mais visíveis.
"É preciso transmitir a mensagem de que apostas são um entretenimento de risco, assim como foi feito com cigarros, que fazem mal à saúde mental e ao bolso. As apostas levam ao vício, ao endividamento e alguns casos até a risco de vida", comenta a psicóloga.

