Análise Setorial | Petróleo e Distribuição de combustíveis | Edição especial impactos conflito Oriente Médio
Daniel Cobucci, especialista do BB Investimentos, apresenta dados setoriais de petróleo e distribuição de combustíveis.
Publicado por: Análise BB
6 minutos
Publicado em
18/03/2026 às 11:35
Atualizado em
18/03/2026 às 11:35
A edição deste mês é um mergulho para compreender o que ocorre no mercado de petróleo, discutindo os principais eventos relacionado ao mais recente conflito geopolítico, entre EUA, Israel e Irã, que trouxe uma disrupção de fluxos e de oferta da e derivados com o fechamento do Estreito de Ormuz, bem como as ações adotadas pelo Brasil e pela Petrobras até o momento.
Na seção de análise gráfica e contexto setorial, o selecionado foi o Petróleo, em um gráfico mensal discutindo os rumos recentes do papel.
Por fim, discutimos também os dados de volumes e participação de mercado em distribuição de combustíveis, comparando a atuação de Ipiranga, Raízen e Vibra. Boa leitura!
Petróleo em foco
O prolongamento do conflito no Oriente Médio e a manutenção do bloqueio do Estreito de Ormuz fizeram o petróleo ter a maior variação da história, chegando a US$ 120/barril, praticamente dobrando de preço em relação ao início do ano, e acumulando +40% somente neste mês. Mesmo após o anúncio de liberação de estoques pelo G7 e de declarações de possível fim da guerra, a commodity segue acima dos US$ 100. A oferta segue pressionada pela interrupção do fluxo de navios na região, além de ataques à infraestrutura em países do golfo e redução da produção em países como UAE, Kwait e Catar. Diante de tal contexto, casas especializadas na análise de commodities já tem elevado suas previsões de preço de petróleo.
No Brasil, o cenário aumentou a defasagem entre os preços da Petrobras e os internacionais, em especial para o diesel, seguindo a política de preços da empresa de não repasse da externa, com a realização de leilões de oferta suplementar em regiões com déficit de derivados.
Impactos econômicos
As rotas alternativas e uso de estoques aliviam temporariamente o choque, mas a permanência da disrupção da produção e fluxos podem ter consequências severas para as economias globais.
Simulações da Oxford Economics indicam que, se o Brent permanecer em torno de US$ 140/barril por dois meses, o choque energético, somado ao aperto financeiro e novas interrupções logísticas, seria suficiente para levar a Zona do Euro, o Reino Unido e o Japão a recessões leves, enquanto os EUA chegariam próximo a uma estagnação, com desemprego em alta e forte impacto na inflação global.
Já um cenário mais moderado, com US$ 100/barril por dois meses, elevaria a inflação e reduziria marginalmente o crescimento global, mas evitaria recessões. Tal dinâmica sugere que o risco está na persistência do conflito, e não apenas no nível pontual dos preços elevados do petróleo.

Notícias e dados do setor
O Governo Federal anunciou um pacote emergencial de R$ 30 bilhões para conter a alta do diesel, combinando isenção de PIS/Cofins e subvenção direta ao combustível, financiado por um novo imposto sobre exportações de petróleo e derivados. As medidas criaram condições para que a Petrobras atualizasse seus preços, resultando em um reajuste de 11,6% no diesel (para R$ 3,65/litro) com a estatal aderindo ao programa de subvenção para reduzir o impacto ao consumidor. Para a Petrobras, a medida colaborou para atenuar a elevada diferença em relação à paridade internacional, ainda que tenha impacto adverso nas exportações devido ao novo tributo.
Para as petroleiras independentes, o tributo sobre exportação deve reduzir parte dos ganhos extraordinários com a alta da , com discussões sobre judicialização. Já para as refinarias privadas, há claros benefícios, já que o imposto sobre exportações incentiva o maior uso do petróleo produzido no país para processamento interno, corrigindo distorções tributárias que historicamente tornavam mais vantajoso exportar óleo bruto.
Na sequência dos eventos, e em meio a relatos de falta de produtos em algumas regiões, a Petrobras promoveu leilões de diesel, com vendas adicionando prêmios de até 75% sobre o preço de tabela, especialmente no Norte e Nordeste, onde os adicionais chegaram a R$ 2,65 por litro, repassando, a uma parte do mercado, a pressão inflacionária causada pela guerra no Oriente Médio, mesmo com reajuste nas refinarias inferiores à paridade internacional. Com isso, a maior parte do volume continua sendo vendida pelos preços recém reajustados (14/mar), com a oferta complementar via leilões colaborando para que a companhia possa manter sua política de preços e, ao mesmo tempo, garantir oferta dos derivados no mercado doméstico, logrando conciliar interesses conflitantes de seu controlador: manter rentabilidade e atenuar choque inflacionário.
Esse conjunto de medidas anunciadas dialoga com respostas adotadas mundialmente em outras crises de oferta de petróleo. Países como EUA, Índia, Indonésia e Rússia já recorreram a restrições de exportação, enquanto Reino Unido, Itália e Espanha implementaram tributações extraordinárias sobre lucros do setor para reduzir o impacto doméstico. Situações de choques energéticos em mercados concentrados, de acordo com a economista alemã Isabella Weber, frequentemente tem como consequência uma inflação de oferta, ou “seller’s inflation”, quando poucos agentes conseguem repasses de preços elevados. Instrumentos como controles de exportação, tributos temporários, racionamento seletivo e liberação de reservas estratégicas atuam justamente para limitar o poder de preços dos vendedores e impedir que um choque de oferta se transforme em inflação estrutural. À luz desse contexto internacional, o pacote anunciado combina elementos clássicos de contenção de curto prazo, mas, devido à permanência da disparidade frente às cotações internacionais, e à necessidade de importação de cerca de 30% do diesel e de 10% da gasolina consumidos domesticamente, outras medidas podem ser necessárias caso o Estreito de Ormuz siga fechado, dada a falta de alternativas e redução na oferta de derivados, já com fortes impactos globais, sobretudo no sudeste asiático.
Nesse contexto, parece oportuno o atual debate sobre elevar a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para até 35% (E35), retomando uma iniciativa já prevista na Lei do Combustível do Futuro e que pode favorecer o consumo interno e a proteção contra o choque internacional do petróleo, além de reforçar a agenda de combustíveis limpos. A medida ainda depende de testes técnicos e aprovação do CNPE e, se aprovada, deve reduzir a dependência da importação de derivados, favorecer o setor sucroenergético e reforçar a segurança energética em momentos de oferta global instável.
Liberação de estoques de petróleo. Mesmo após a maior liberação já realizada pela Agência Internacional de Energia (IEA), de 400 milhões de barris, novas ofertas de estoques poderão ser adicionadas ao mercado “se necessário”. Ainda restam mais de 1,4 bilhão de barris nas reservas de emergência dos membros, mas a liberação de estoques feitas responde por algumas semanas do atual déficit, ou seja, um conflito prolongado pode trazer a commodity para novas máximas.
Análise técnica: gráfico e contexto
Nesta seção, realizamos, a cada mês, uma análise técnica de s selecionados, de indicadores relevantes para o setor ou de papéis cobertos pelo BB-BI. Neste mês, analisamos o comportamento do petróleo.
O petróleo teve um dos seus maiores períodos de da história, acumulando uma alta de 42% no mês de março, a segunda maior alta mensal da história, perdendo apenas para os 46,2% de alta no mês de setembro de 1990, pico da guerra do Golfo. Como podemos ver no gráfico, a força da alta rompeu com a forte tendência de baixa que estava vigente desde junho/2022, quando se confirmou que a guerra Rússia-Ucrânia não estaria gerando uma disrupção tão grande quanto se imaginava na oferta. Com isso, o ativo superou de uma só vez diversas resistências, incluindo a linha Fibonacci de 61,8%, deixando o caminho livre para novas altas até a máxima anterior, na casa dos US$ 120. Cabe lembrar que, em termos reais (descontada a inflação em dólares), a atingiu valores superiores a esse patamar em apenas três ocasiões: começo dos anos 1980 (após revolução iraniana), pré-crise financeira de 2008, e entre 2011 e 2014, auge da produção shale norte-americana.



