Análise Setorial | Petróleo e Distribuição de combustíveis | Julho 2026
Daniel Cobucci, especialista do BB Investimentos, apresenta dados setoriais de petróleo e distribuição de combustíveis.
Publicado por: Análise BB
6 minutos
Publicado em
07/07/2026 às 15:31
Atualizado em
07/07/2026 às 15:34
A edição deste mês traz comentários sobre avanços na agenda regulatória do setor de distribuição de combustíveis. Também comentamos um estudo do Ineep sobre comportamento dos preços de combustíveis no país durante o conflito geopolítico.
Também falamos sobre como algumas categorias de investimentos na transição energética têm se intensificado. Por fim, falamos sobre a recusa, pelos credores da Braskem, de sua proposta de reestruturação.
Na seção de análise gráfica e contexto setorial, o ativo selecionado foi a Petrobras.
Por fim, discutimos também os dados de volumes e participação de mercado em distribuição de combustíveis, comparando a atuação de Ipiranga, Raízen e Vibra. Boa leitura!
Petróleo em foco
O mercado de petróleo iniciou julho sob viés mais baixista, com a reabertura do Estreito de Ormuz e a normalização gradual do fluxo de petroleiros, que levaram o Brent de volta aos níveis pré-conflito. Além disso, a Opep+ anunciou o quarto aumento consecutivo das cotas de produção, adicionando mais 188 mil barris/dia a partir de agosto. No entanto, a oferta de derivados fica mais volátil e pode afetar as dinâmicas do Brasil, com o maior exportador de diesel para o país, a Rússia, passando a importar gasolina para compensar a escassez doméstica provocada pelos ataques ucranianos às suas refinarias, enquanto a Índia amplia sua relevância como centro global de refino ao processar volumes recordes de petróleo russo. Em conjunto, esses movimentos reforçam a percepção de excesso de oferta no curto prazo e ajudam a explicar a pressão recente sobre os preços do petróleo, ainda que riscos geopolíticos e a necessidade de recomposição de estoques ainda possam sustentar alguma volatilidade ao longo do segundo semestre.
Mudanças no mercado de gás natural
A Petrobras aprovou um novo mecanismo de preços para o gás natural, baseado em pisos e tetos atrelados ao Brent, com o objetivo de reduzir a volatilidade e suavizar repasses ao mercado, especialmente em momentos de choque internacional; com a medida, o reajuste previsto para agosto cairia de cerca de 22% para 6%. A iniciativa, negociada com distribuidoras desde maio, funciona como uma proteção temporária que traz maior previsibilidade para clientes industriais e concessionárias, ao mesmo tempo em que preserva a competitividade da estatal no mercado de gás. Apesar disso, o impacto final ao consumidor ainda depende de fatores como contratos, tributos e margens regionais, indicando que, embora relevante, a medida é mais um amortecedor conjuntural diante da volatilidade global do que uma solução estrutural para o setor. A recente revisão da metodologia de reajustes pela ANP foi outro elemento importante neste contexto de buscar aumentar a competitividade do gás natural.

Notícias e dados do setor
A ANP aprovou novas regras para identificar aumentos abusivos de preços de combustíveis, estabelecendo critérios objetivos baseados na variação da margem bruta dos próprios agentes, com um gatilho mais elevado (70%) e maior prazo para justificativas, reforçando a fiscalização sem interferir diretamente no regime de preços livres. Para as distribuidoras listadas (Vibra, Ultrapar e Raízen), a medida tende a aumentar o escrutínio regulatório em momentos de choque de preços, como crises geopolíticas, o que deve exigir maior rigor na gestão de margens e redução da flexibilidade na captura de margens no curto prazo. Por um lado, isso pode pressionar a rentabilidade em cenários voláteis e exigir reforço de compliance e transparência, mas favorecer players com maior governança, ao mesmo tempo em que limita comportamentos oportunistas na cadeia.
Ainda nesse sentido, a agência anunciou um novo aplicativo, “ANP com VC – Postos”, que permitirá aos consumidores consultar informações geolocalizadas sobre postos de combustíveis, incluindo dados cadastrais, origem dos combustíveis, histórico de autuações e eventuais interdições, ampliando a transparência. A iniciativa faz parte de uma agenda mais ampla de fiscalização do setor, que inclui o combate a preços abusivos e uma nova ofensiva regulatória prevista para julho a setembro, com cerca de 3 mil ações de fiscalização.
O Ineep divulgou estudo apontando que, apesar do choque internacional causado pela guerra no Oriente Médio, os reajustes de combustíveis no Brasil foram menores que a média global devido à combinação de subsídios e política de preços da Petrobras, com altas inferiores às observadas em países como EUA e Argentina, além de quedas recentes em gasolina, diesel e etanol após o recuo do petróleo seguido do acordo envolvendo Irã e EUA. O Ineep destaca, porém, que esse amortecimento é conjuntural e não resolve a vulnerabilidade estrutural do país à volatilidade externa, defendendo maior capacidade de refino e menor dependência de importações. Nesse sentido, a discussão se conecta com o papel dos biocombustíveis e da transição energética: embora o Brasil tenha vantagem em etanol e biodiesel, a estratégia mais eficiente no longo prazo passa por reduzir a dependência de combustíveis fósseis, seja ampliando o uso de biocombustíveis em aplicações mais estratégicas ou avançando na eletrificação, como forma de mitigar justamente essa exposição a choques externos evidenciada no cenário atual.
Ao longo do mês de junho, vimos avanços na agenda de transição energética, com movimentos da Petrobras e players privados, como: a aprovação pela Petrobras de investimento de cerca de US$ 1,2 bilhão em uma nova planta de bioQAV e diesel renovável na RPBC, reforçando a entrada em combustíveis de baixo carbono e com foco em aviação; além disso, a companhia anunciou a comercialização do primeiro lote de SAF coprocessado com óleo de soja certificado. Além disso, vimos Acelen e a Trafigura firmarem acordos de fornecimento de matéria-prima e comercialização para a futura biorrefinaria de SAF e diesel renovável na Bahia, reforçando a viabilidade de um projeto com capacidade potencial de até 1 bilhão de litros anuais. Já a Bioenergética Aroeira anunciou investimento de R$ 750 milhões em uma nova planta de etanol de cereais em Minas Gerais, ampliando a diversificação da produção de etanol e a integração com cadeias de proteína animal e biometano. Complementando esse movimento, o etanol teve avanços no seu uso como combustível marítimo, com testes bem-sucedidos por armadores globais e embarcações já sendo projetadas para operar com etanol, metanol ou combustíveis convencionais, criando uma potencial nova frente de demanda para a produção brasileira.
A Braskem teve uma proposta de reestruturação rejeitada pelos credores o que levou a companhia a adotar medidas mais formais, como o pedido de mediação junto à Câmara Wind e a obtenção de proteção judicial (tutela cautelar) para se resguardar de cobranças e evitar ações individuais enquanto negocia. Na prática, isso funciona como um “standstill” temporário. Clique aqui para conferir o relatório do BB-BI sobre o assunto.
Tais eventos recentes mostram um duplo movimento no setor petroquímico: de um lado, o choque logístico causado pelo conflito no Oriente Médio, que expôs a forte dependência asiática de nafta e levou países como Japão e Coreia do Sul a reduzir produção e até paralisar plantas; de outro, a China conseguiu atravessar a crise com menor impacto ao contar com uma base mais diversificada de matérias-primas (estoques de petróleo, além de etano e carvão), reforçando sua competitividade global, com a forte oferta de petroquímicos asiáticos pressionando margens ao redor do globo, ao passo em que a demanda tem sido limitada.
Análise técnica: gráfico e contexto
Nesta seção, realizamos, a cada mês, uma análise técnica de ativos selecionados, de indicadores relevantes para o setor ou de papéis cobertos pelo BB-BI. Neste mês, analisamos o comportamento da Petrobras (PETR4).
O papel segue em uma forte tendência primária de alta, iniciada em abril/2020. Essa tendência primária de alta, no gráfico mensal, tem como principal suporte a região dos R$ 31,40, que coincide com retração Fibonacci de 61,2%, ou seja, acima deste patamar, vemos continuidade do movimento altista. Em uma análise de médio prazo, trazemos aqui um gráfico semanal, no qual o papel perdeu dois dos primeiros suportes (nos R$ 41,50 e R$ 39,40), restando a faixa dos R$ 36,70 como divisor de curto prazo para sustentar a força altista, com suportes seguintes em R$ 35,50, R$ 33,00 e R$ 30,20. Para cima, resistência nos antigos suportes mencionados. Em resumo, o papel perdeu um pouco do ímpeto altista, mas segue dentro de forte tendência de alta enquanto se mantiver acima dos suportes acima, com os R$ 37,20 como ponto de atenção para novas quedas e superação dos R$ 39,40 para retomar a tendência secundária de alta e buscar novas máximas.



