Análise Setorial | Petróleo e Distribuição de combustíveis | Julho 2025
Daniel Cobucci, especialista do BB Investimentos, apresenta dados setoriais de petróleo e distribuição de combustíveis.
Publicado por: Análise BB

Daniel Cobucci, especialista do BB Investimentos, apresenta dados setoriais de petróleo e distribuição de combustíveis.
Publicado por: Análise BB
Publicado em
07/07/2025 às 10:34
Atualizado em
19/08/2025 às 10:59
Você irá ler na edição deste mês sobre as mudanças regulatórias e impactos da lacuna de fiscalização no setor de distribuição de combustíveis. O assunto envolve o recente aumento dos mandatos em etanol na gasolina e do biodiesel no diesel, bem como os impactos da redução de orçamento na atuação da ANP no setor. Também falamos sobre os acontecimentos mais recentes no mercado de petróleo, bem como os avanços no projeto Raia, que deve ser um dos grandes responsáveis pelo incremento na oferta de gás natural, a partir de 2028, além de investimentos em infraestrutura pela Ultracargo, braço logístico do grupo Ultrapar. Discutimos os dados de participação de mercado em distribuição de combustíveis, com destaque para a atuação da Vibra nos últimos meses. Boa leitura!
A AGU solicitou ao CADE e polícia federal o início de investigação sobre o não repasse de reduções de preços ao consumidor final, ao identificar assimetrias entre movimentos de alta ou de baixa nos preços após reajustes feitos pelas refinarias. Nessa edição, iremos comentar sobre o contexto do setor, incluindo a recente aprovação pelo CNPE do aumento das misturas obrigatórias de etanol na gasolina (E30) e de biodiesel no diesel (B15), que, embora positivas do ponto de vista ambiental e estratégico, ocorrem em um momento delicado para a fiscalização do setor de combustíveis. Isso porque a ANP suspendeu o PMQC (Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis), devido a um corte orçamentário, comprometendo a verificação de cumprimento dos novos percentuais. Essa combinação de mudanças regulatórias e menor fiscalização amplia o risco de fraudes, pois abre brecha para ganhos financeiros ilícitos e prejudica os consumidores e as empresas que atuam de forma regular.
Em junho, ocorreu o 5º Ciclo de Oferta Permanente de Concessões da ANP, que resultou na negociação de 34 blocos exploratórios, e uma arrecadação de R$ 989 milhões, recorde para esse modelo de leilão, com ágio médio de 534%. O destaque foi a retomada do interesse na Bacia da Foz do Amazonas, onde os consórcios Chevron/CNPC e Petrobras/ExxonMobil arremataram 19 blocos. A Petrobras se destacou como a empresa com maior número de blocos adquiridos, incluindo áreas na Bacia de Pelotas em parceria com a Petrogal. A Shell, Equinor e Karoon garantiram áreas na Bacia de Santos, enquanto a Bacia Potiguar não recebeu ofertas. A Bacia dos Parecis voltou ao mapa da exploração com a estreia da Dillianz Petróleo & Gás, ligada ao agronegócio. O leilão foi marcado por protestos de ambientalistas e lideranças indígenas, especialmente contra a exploração em áreas sensíveis como a Foz do Amazonas e o entorno de Fernando de Noronha, expondo a divergência entre a necessidade de expansão energética e preocupações socioambientais.

O petróleo tipo Brent enfrentou forte volatilidade no mês de junho, inicialmente reagindo com forte alta após os ataques de Israel ao Irã, mas com forte baixa na sequência, após ficar mais claro que o cenário mais extremo, de bloqueio de fluxo de navios no estreito de Ormuz, não ocorreria. A Opep anunciou que elevará sua produção em 548 mil barris por dia em agosto, em busca de maior participação de mercado. A commodity segue com prêmio de risco, após fechar junho com alta de 4,9%, ignorando um cenário bastante adverso previsto para o segundo semestre, com previsão de alta na oferta e menor demanda, descompasso que tende a se ajustar nos próximos meses.
No final de junho, houve dois importantes avanços para o projeto Raia, localizado no bloco BM-C-33, operado pela Equinor (35%) em parceria com Repsol Sinopec (35%) e Petrobras (30%). O projeto é previsto para 2028, com expectativa de exportar 16 milhões de m³/dia de gás, cerca de 15% da demanda nacional: (i) a ANP aprovou a unificação dos campos de Raia Manta e Raia Pintada, formando um único campo chamado Raia Manta, e a decisão também inclui a autorização para construção de um gasoduto de 200 km que ligará o FPSO à unidade de Cabiúnas, em Macaé (RJ), para escoamento do gás natural; (ii) o Ibama emitiu a licença prévia para a atividade de produção de óleo e gás, restando agora a conclusão do relatório da Avaliação Pré-Operacional (APO), requisito técnico para demonstrar a efetividade das ações de resposta a incidentes ambientais.
A Ultracargo concluiu a construção de um desvio ferroviário que conecta seu terminal de etanol em Paulínia (SP) ao terminal em Rondonópolis (MT), com o objetivo de facilitar o transporte de etanol de milho e derivados de petróleo do Centro-Oeste para o Sudeste. A nova rota teve um investimento de cerca de R$ 200 milhões, com a infraestrutura integrada à malha da Rumo, que recentemente ampliou sua capacidade até o porto de Santos.
O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 27% para 30% (E30) e de biodiesel no diesel de 14% para 15% (B15), com vigência a partir de 1º de agosto de 2025. A medida, parte da lei Combustível do Futuro, visa reduzir a dependência de gasolina importada e tem uma estimativa de queda de até R$ 0,11 por litro no preço da gasolina, além de preparar o mercado para futuras ampliações, com a legislação permitindo até 35% de etanol na gasolina e 25% de biodiesel no diesel. As medidas são positivas, na medida em que trazem redução da pegada de carbono e menor dependência de combustíveis importados. No entanto, o aumento dos mandatos sem mecanismos de ampla fiscalização tem favorecido o aumento das fraudes no setor, dadas as dificuldades de monitoramento e vantagens financeiras expressivas, especialmente no caso da adição de biodiesel em percentual inferior ao mínimo, já que há poucos equipamentos de aferição em tempo real.
Nesse sentido, gerou fortes reações no setor o anúncio, pela ANP, de suspensão do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC) durante o mês de julho de 2025, após o contingenciamento de 25% de seu orçamento discricionário. A medida compromete uma das principais ferramentas de fiscalização da qualidade de gasolina, diesel e etanol no país, que já havia sido suspensa por dois meses em 2024. As entidades do setor divulgaram um manifesto, onde apontam: “Uma ANP enfraquecida fica limitada em ações essenciais, o que o histórico já mostrou, abre espaço para o aumento de riscos à segurança veicular, à integridade dos motores e à saúde pública, além de favorecer concorrência desleal e prejuízos à arrecadação tributária, sendo um atrativo para criminosos no setor de combustíveis.” Como temos apontado em relatórios anteriores, as companhias listadas vem perdendo participação de mercado, e o quadro atual de menor fiscalização sugere que essa situação deve se manter nos próximos meses.
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