Xô, greenwashing: CVM aposta em transparência e fiscalização para apoiar finanças sustentáveis
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
09/10/2025 às 14:47
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
São Paulo, 08/10/2025 - A resolução 193 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que estabelece diversas regras para as finanças sustentáveis no Brasil, representará um marco importante para institucionalizar esse tipo de investimento no País.
Além disso, dará suporte para que as pessoas preocupadas com questões ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG, na sigla em inglês) tenham mais assertividade na hora de tomar suas decisões. É o que espera a superintendente de orientação aos investidores e finanças sustentáveis (SOI) da CVM, Nathalie Vidual.
"Uma das formas de proteger os investidores é assegurando o acesso à informação adequada. A Resolução CVM 193 promoverá maior transparência, confiabilidade, consistência e comparabilidade das informações", afirmou a executiva.
A CVM 193 prevê a obrigatoriedade da divulgação de relatórios anuais de sustentabilidade para todas as empresas de capital aberto no Brasil para os exercícios iniciados em 1º de janeiro de 2026. Há previsão de adoção voluntária a partir de 2025, que deve ser declarada por meio de comunicado ao mercado até 31 de dezembro de 2025.
Em conversa exclusiva com a Broadcast , Nathalie Vidual também abordou o estágio atual das empresas brasileiras em relação à agenda ESG, o perigo do greenwashing no mundo dos investimentos sustentáveis e como a resolução CVM 193 promete revolucionar a forma com que finanças e agenda ESG se relacionam no País.
Confira os destaques a seguir:
- Broadcast: Como o investidor pessoa física preocupado com questões de sustentabilidade e ESG consegue identificar ativos que realmente promovam boas práticas nesse sentido?
Nathalie Vidual: Ele pode iniciar sua análise verificando se as empresas e fundos divulgam relatórios de sustentabilidade consistentes, preferencialmente alinhados aos padrões reconhecidos internacionalmente. Esses relatórios devem apresentar indicadores claros, metas mensuráveis e informações sobre riscos ESG relevantes. A existência de asseguração independente aumenta a credibilidade desses documentos. No caso das companhias abertas, é possível identificar também riscos e outros fatores ambientais, sociais e climáticos divulgados por meio do Formulário de Referência.
- Broadcast: Existe algum tipo de sinal que ajude a identificar empresas que realmente estão promovendo a agenda ESG?
Nathalie Vidual: Um ponto importante é observar se a agenda ESG está incorporada à estratégia e à governança corporativa da companhia, e não apenas tratada como um elemento de comunicação. O seu histórico diante de questões ambientais, sociais ou de governança também é um sinal relevante, assim como a diversidade no conselho de administração, a presença de políticas de integridade e de mecanismos de prestação de contas.
- Broadcast: Como o investidor pode fugir do greenwashing?
Nathalie Vidual: É importante que desconfiem de promessas mais genéricas e de difícil verificação, que não estejam acompanhadas de dados objetivos e auditáveis. Informações consistentes costumam ser apresentadas em relatórios padronizados, com indicadores, metas e explicações detalhadas sobre a metodologia utilizada. Adicionalmente, é imprescindível verificar se o emissor do produto está devidamente registrado na CVM e se os documentos da oferta contemplam informações mínimas sobre aspectos ESG, no caso dos produtos rotulados como fundos.
- Broadcast: Um estudo recente da KPMG aponta que 76% das empresas ainda permanecem em estágios iniciais ou intermediários na implementação de práticas ESG. Hoje, na sua opinião, quais fatores as impedem de avançar nas práticas ESG?
Nathalie Vidual: O desenvolvimento da agenda ESG nas companhias brasileiras tem se fortalecido de forma gradual e consistente. Esse movimento envolve a incorporação de novos processos internos, o fortalecimento da governança e a adoção de métricas e indicadores que permitem maior transparência ao mercado. A consolidação de padrões internacionais, como os do ISSB, representa um marco importante, pois oferece às empresas referências claras para organizar e divulgar suas informações. Esse alinhamento cria condições para que práticas ESG sejam cada vez mais integradas à estratégia corporativa e à gestão de riscos.
- Broadcast: Na sua avaliação, como a Resolução CVM 193, ao entrar em vigor, vai impactar na forma como as empresas brasileiras lidam com a agenda ESG?
Nathalie Vidual: Ela marca um passo importante na institucionalização das finanças sustentáveis no mercado de capitais brasileiro. A norma tornou o Brasil o primeiro país no mundo a adotar relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade emitidas pelo ISSB. Ao alinhar os relatórios das companhias aos padrões internacionais do ISSB, a norma fortalece a transparência e a comparabilidade das informações divulgadas ao mercado.
- Broadcast: De forma prática, como vai funcionar a Resolução 193?
Nathalie Vidual: Ela estabelece que os relatórios de sustentabilidade deverão ser preparados anualmente, em linha com os exercícios sociais das companhias abertas, e divulgados em meio eletrônico, juntamente com outras informações periódicas da companhia. O conteúdo seguirá os requisitos definidos nos padrões IFRS S1 e S2, abordando temas como governança, estratégia, gestão de riscos, métricas e metas relacionadas à sustentabilidade. No caso do IFRS S2, por exemplo, o foco é a divulgação de riscos e oportunidades relacionados ao clima, incluindo emissões de gases de efeito estufa, planos de transição e impactos financeiros associados.
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