Tarifaço dos EUA contra o Brasil: entenda os possíveis impactos e quais os setores mais atingidos
Publicado por: Broadcast Exclusivo
6 minutos

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Atualizado em
10/07/2025 às 10:40
Por Gustavo Boldrini e Equipe Broadcast
São Paulo, 10/07/2025 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu o Brasil ontem ao enviar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciando uma tarifa de 50% a produtos brasileiros exportados aos americanos a partir de 1º de agosto.
O governo brasileiro reagiu, com Lula informando que a resposta virá por meio da Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso neste ano. Essa legislação autoriza o País a retaliar e suspender acordos comerciais em resposta a medidas unilaterais adotadas por país ou bloco econômico que impactem negativamente a competitividade internacional brasileira.
A escalada da guerra tarifária dos EUA contra o Brasil pode trazer diversos impactos sobre o País. Não só na Bolsa e no dólar, mas também no sentido macroeconômico e nas perspectivas para os diversos setores da economia local que possuem parte das suas receitas advindas da venda de produtos aos EUA.
A seguir, entenda quais podem ser esses impactos:
No mercado financeiro, a medida tende a elevar a aversão a risco nos ativos brasileiros e pressionar o Ibovespa, ao menos no curto prazo, enquanto investidores digerem os desdobramentos da medida.
Nesta quinta-feira, perto das 8h (de Brasília), o EWZ, fundo de índice (ETF) que replica ações brasileiras, caía em torno de 2% no pré-mercado em Nova York. No mesmo horário, o American Depositary Receipt (ADR) da Embraer cedia 4,08%, e o da Petrobras recuava 1,24%.
A sobretaxação a produtos brasileiros também pode enfraquecer o real, à medida que a perspectiva de redução do comércio entre EUA e Brasil tende a reduzir a entrada de dólares na economia brasileira. Com menos dólares no mercado, e se a demanda pela moeda continuar a mesma ou aumentar, o valor dela em relação ao real tende a subir, elevando a taxa de câmbio.
Ontem, após Trump falar que anunciaria tarifas contra o Brasil - ainda sem especificá-las -, o dólar à vista encerrou a sessão em alta de 1,04%, a R$ 5,5024 - acima do nível de R$ 5,50 pela primeira vez desde 25 de junho.
A tarifa de 50%, ao reduzir o ritmo de exportações do Brasil aos EUA, pode impactar a balança comercial brasileira de forma negativa. Mas os efeitos podem ser limitados na avaliação de analistas do UBS, uma vez que apenas 12% das exportações brasileiras hoje são destinadas aos EUA - em 2000, esse nível era de 24%.
A grande questão é a inflação. A Broadcast apurou que membros da área econômica do governo brasileiro avaliam o tarifaço como um "balde de água fria" no processo de desaceleração da inflação.
Para o economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel, o impacto majoritário da tarifa de 50% será em torno do câmbio e do prêmio de risco. Em efeito cascata, as expectativas de inflação devem ficar um pouco mais pressionadas.
"Na medida em que o câmbio desvaloriza, acaba puxando também uma reversão parcial da desinflação que era esperada em torno dos itens associados ao dólar", comentou.
As exportadoras brasileiras são as principais atingidas pelo tarifaço, em especial dos setores de aço, alumínio, aviação, calçados, carnes, máquinas, celulose e químicos, com provável quedas de vendas e peso negativo no Produto Interno Bruto (PIB).
Dentre os setores mais afetados pelas tarifas está o de aço, ou siderúrgico. Segundo Robson Gonçalves, economista e professor dos MBAs da Fundação Getulio Vargas, o aço brasileiro "já vinha perdendo competitividade", o que aumenta a preocupação de empresários do setor.
Por outro lado, economistas do Citi avaliam impacto pouco expressivo sobre as siderúrgicas que o banco acompanha, uma vez que a maioria delas exporta um pequeno volume do total de suas vendas para os EUA (ou mesmo não exporta).
A principal exposição, segundo o Citi, é da Suzano (SUZB3), de papel e celulose, que tem 15% de suas vendas direcionadas ao país, mas isso não deve representar um impacto relevante no médio a longo prazo, apesar do potencial atrito de curto prazo.
As tarifas podem atingir a Embraer (EMBR3), cujas ações sobem mais de 36% no ano e têm se destacado no Ibovespa. O UBS BB estima que a companhia pode ter um aumento de custos de US$ 70 milhões e redução de até 13% no lucro a cada 10 pontos porcentuais de alta tarifária.
Em nota, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Haroldo Ferreira, classificou a medida como "um grande balde de água fria para o setor calçadista brasileiro". O Citi projetou em relatório queda de 7% no lucro da Azzas (AZZA3) e 4% no da Alpargatas (ALPA4) em 2026, caso as tarifas sejam mantidas.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirmou ontem que a tarifa representa um "entrave ao comércio internacional" e ameaça a segurança alimentar global. Com isso, é possível que haja impactos em exportadoras como Marfrig (MRFG3) e Minerva (BEEF3).
Para a economista-chefe da Lifetime Investimentos, Marcela Kawauti, não é muito fácil substituir a compra de soja brasileira, por exemplo, pela compra de soja de outro país porque o agronegócio tem questões específicas, como solo e clima. "Esse efeito no agro pode ser limitado pela falta de substituição possível a alguns dos nossos produtos", diz.
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