Pix e agro na mira: o que está em jogo nas audiências do USTR sobre tarifaço ao Brasil
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
07/07/2026 às 14:53
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
São Paulo, 07/07/2026 - O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) está realizando nesta terça-feira o segundo dia de audiência pública para tratar do tarifaço de 25% aplicado contra produtos brasileiros, em meio às investigações sobre supostas práticas comerciais prejudiciais aos americanos.
Representantes de diversos setores da economia brasileira estão participando das discussões, que iniciaram ontem e abordaram temas como o Pix e o agronegócio. A seguir, confira o que a reportagem da Broadcast apurou sobre a audiência e quais são as possíveis consequências para a relação comercial entre Brasil e EUA:
O que foi discutido na audiência?
Fontes consultadas pela Broadcast que estiveram presentes na audiência avaliam que o debate entre os representantes americanos e brasileiros foi mais "equilibrado" quando comparado com a primeira audiência, realizada em 3 de setembro do ano passado.
Um dos destaques das discussões foram questionamentos a respeito do Pix. Em um dos sete painéis, o Departamento do Tesouro americano perguntou a participantes brasileiros sobre como os EUA poderiam se beneficiar do sistema de pagamento.
"Como é uma pergunta um pouco genérica e um pouco capciosa, eu tentei também responder de uma forma um pouco mais abrangente, falando que o Pix não é o maior sistema de pagamentos mundial", disse o professor de economia e finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), Gustavo Pessoa, que participou da audiência como independente, sem representar nenhuma organização.
O professor brasileiro argumentou que a grande diferença do Pix é o seu sucesso com a população e com as empresas, que absorveram o sistema muito rapidamente.
"E os Estados Unidos, como o maior centro financeiro do Ocidente, tinha que estar atento a esses meios de pagamento e absorver esse tipo de tecnologia e acompanhar, porque é algo que não dá para você segurar ou voltar atrás", prosseguiu ele.
O executivo de pagamentos Vinicius Nunes Pinto, que também participou da audiência como colaborador, destacou em sua fala que o Pix é uma infraestrutura de pagamento e pode beneficiar empresas americanas de setores como streaming, transporte e e-commerce. "Com o Pix elas recebem instantaneamente, a uma fração do que os cartões custavam a elas", argumentou.
Pinto propôs que haja diálogo e cooperação entre Brasil e EUA, Federal Reserve (Fed), Banco Central e setor privado, visando uma integração dos sistemas benéfica para ambos os mercados.
Também houve questionamentos dos departamentos de Agricultura, Tesouro, Trabalho, Saúde e Bem-Estar, de caráter mais técnico e voltados aos aspectos de competitividade, da agregação de valor para a indústria dos Estados Unidos e dos impactos das exportações brasileiras aos preços ao consumidor americano, segundo fontes.
Como estão as discussões do segundo dia?
Neste segundo dia de audiências, participam representantes de entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados).
- No caso desta última, a linha da argumentação focará, sobretudo, no impacto inflacionário do tarifaço para o consumidor americano, já que lá não existe produção de calçados, e no possível favorecimento dos calçadistas asiáticos, que já dominam esse mercado.
O governo brasileiro encaminhou na última quarta-feira um documento com considerações oficiais sobre a investigação ao USTR. No entanto, não houve sustentação oral de representantes do governo federal na audiência. A participação brasileira ficou restrita aos representantes da Embaixada brasileira nos EUA, na condição de ouvintes.
Relembre as acusações dos EUA
Os EUA acusam o Brasil de adotar práticas ilegais em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico - como o Pix -, tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal.
-Em relatório preliminar divulgado em 1º de junho, o USTR sugeriu a aplicação de sobretaxa de 25% sobre os produtos importados brasileiros, com exceção de grande parte dos produtos agropecuários.
A audiência integra as etapas finais da investigação feita pelo governo americano. A decisão sobre a eventual implementação das medidas está prevista para o próximo dia 15 de julho.
(Colaboraram Isadora Duarte, Flávia Said e Leandro Silveira)

