Palavra do Economista | Os primeiros dias do governo Trump
Publicado por: Análise BB
6 minutos
Atualizado em
12/02/2025 às 10:14
Como já destaco há algum tempo, a vitória de Donald Trump com maioria republicana no Congresso dos EUA foi, sem dúvida, o evento político e econômico de 2024, cujas repercussões se estenderão pelos próximos anos. A forte reprecificação dos ativos ao fim daquele ano já revelou sinais de uma nova era para as moedas emergentes, incluindo o real, diante da expectativa de um ambiente menos favorável para o comércio global e maior aversão ao risco.
No entanto, no início deste ano, parte dessas preocupações arrefeceu, causando uma acomodação do dólar. Esse movimento me remete ao que ocorreu na primeira eleição de Trump, entre 2016 e 2017, quando, após um ajuste inicial de expectativas, o mercado se acomodou.
A dinâmica atual reflete o fato de que os primeiros dias deste segundo mandato foram marcados por ordens executivas de grande impacto político e midiático, mas cujo foco esteve mais voltado para desregulamentações, cortes de impostos e políticas migratórias do que para medidas econômicas estruturais. Ainda assim, entendo que essa calmaria será temporária. Um sinal claro disso foi a decisão de Trump, já na segunda semana de governo, de impor tarifas comerciais sobre produtos do México, Canadá e China.
Dessa vez, evidenciando uma postura agressiva, as medidas foram adotadas de forma mais rápida, diferente do primeiro mandato, quando as tarifas começaram a ser implementadas no segundo ano de governo. Além disso, o fato de até mesmo parceiros estratégicos e tradicionais (como os vizinhos dos EUA) estarem na mira reforça que o comércio global seguirá como um grande fator de incerteza.
Ainda que a nova administração tenha temporariamente adiado algumas dessas tarifas após negociações, a ameaça permanece latente.
No caso da China, o cenário se desenha ainda mais complexo do que com Canadá e México. Enquanto esses dois últimos possuem menos margem para manobra, dada a sua elevada dependência do mercado norte-americano, Pequim dispõe de maior poder de barganha e já reagiu à ofensiva de Washington. Nesse sentido, a China anunciou novas tarifas sobre bens importados dos EUA e se prepara para acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC). A União Europeia, outro parceiro comercial de peso, também já sinalizou que responderá “de maneira decisiva” caso seja alvo. Ante esse quadro, importante ter no radar a possibilidade de uma escalada da guerra comercial nas próximas semanas ou meses, o que deve seguir influenciando o mercado cambial e ampliando a demanda por dólares.
Mesmo que acordos sejam firmados no futuro, os impactos dessas tarifas sobre a confiança e os fluxos de capitais já começam a aparecer nos dados e tendem a reforçar um ambiente de maior volatilidade e incerteza ao longo do ano, mantendo a visão de dólar fortalecido no mercado global.
Internamente, além da ameaça do Brasil se tornar um dos próximos alvos das políticas tarifárias de Trump - fato que eleva a percepção de risco e tende a penalizar nossa moeda - os desafios internos persistem, sobretudo aqueles relacionados à sustentabilidade fiscal. Nesse sentido, em que pese esse começo de ano com importante apreciação do real e de outras moedas emergentes, permaneço cético à visão de que a taxa de câmbio deverá se sustentar distante dos R$/US$ 6,00 por período prolongado.


