Palavra do Economista
Uma desaceleração maior do que parece
Publicado por: Análise BB
6 minutos
Atualizado em
14/09/2026 às 15:43
No início de setembro, o IBGE divulgou o PIB brasileiro referente ao segundo trimestre de 2026. Na comparação com os três primeiros meses do ano, a atividade avançou 0,5%, levemente acima das expectativas de mercado, de 0,4%, após crescimento de 1,1% no primeiro trimestre. É justamente essa desaceleração que gostaria de abordar neste mês, olhando com mais atenção para a composição dos dados e para as possíveis implicações caso esse comportamento persista no terceiro trimestre.
De certa forma, a moderação não foi uma surpresa. Nosso cenário já contemplava uma perda de ritmo após um início de ano robusto, impulsionado por medidas de estímulo, com destaque para a nova faixa de isenção do Imposto de Renda, que ampliou a renda disponível das famílias.
Essas medidas tenderiam a gerar maior impulso no início do ano e, posteriormente, perder força sobre as taxas de crescimento. Nesse sentido, o resultado do segundo trimestre esteve razoavelmente alinhado ao cenário que vínhamos antecipando.
Contudo, quando abrimos os dados, a desaceleração parece mais intensa do que sugere o número agregado. Alguns sinais desse movimento já vinham aparecendo nas pesquisas mensais. Em maio, indústria, serviços e vendas no varejo registraram resultados negativos, movimento que se tornou ainda mais pronunciado em junho.
Nesse tipo de análise, considero importante separar os segmentos mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária daqueles relativamente menos dependentes dessas condições. Essa decomposição ajuda a identificar com maior clareza se a atividade está efetivamente ganhando ou perdendo força.
Entre os segmentos mais cíclicos, os sinais foram claros. Pelo lado da oferta, indústria de transformação, construção e serviços apresentaram desempenho fraco. Pela ótica da demanda, o consumo das famílias também perdeu força. Os serviços cresceram apenas 0,2%, menor resultado desde 2024, enquanto indústria de transformação, construção e consumo das famílias recuaram 0,4% no trimestre.
Por que, então, o PIB agregado não desacelerou ainda mais? A resposta está nos setores menos ligados ao ciclo doméstico. A agropecuária avançou 2,8% no trimestre, enquanto a indústria extrativa cresceu 3,4%, contribuindo de forma importante para sustentar o resultado agregado.
Ou seja, sem essa contribuição, o PIB brasileiro teria apresentado uma perda de ritmo bem mais acentuada. A composição dos dados sugere, portanto, que o arrefecimento da economia é maior do que o número cheio inicialmente indica. Além disso, a piora observada nas pesquisas mensais em junho levanta a possibilidade de um terceiro trimestre com crescimento muito baixo ou mesmo próximo de zero, a depender do comportamento dos próximos indicadores.
Essa leitura traz uma implicação importante para o Copom. Até recentemente, a discussão estava concentrada no momento da pausa do ciclo de cortes da Selic: se em 14,0% ou após um corte adicional na reunião de setembro, movimento contemplado em nosso cenário. Porém, caso a fraqueza recente da atividade se confirme ao longo do terceiro trimestre, passo a enxergar como relevante a possibilidade de o Comitê prolongar o ciclo de cortes, postergando o momento da pausa.
Naturalmente, a atividade não é o único elemento considerado pelo Banco Central. Ainda assim, uma desaceleração mais disseminada dos componentes cíclicos pode reduzir pressões à frente e ampliar o espaço para a continuidade do processo de flexibilização monetária.
Em outras palavras, a economia brasileira apresentou sinais de arrefecimento bem mais pronunciados do que o PIB agregado sugere e, aparentemente, também mais intensos do que o mercado vinha incorporando. Se esse comportamento persistir nos próximos meses, acredito que o Copom poderá encontrar maior conforto para estender o ciclo de redução dos juros além do que hoje parece amplamente precificado.


