Jornada menor, salário igual: como o fim da escala 6x1 pode movimentar a economia?
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
15/10/2026 às 10:45
Por Patrícia Queiroz, da Broadcast
São Paulo, 15/10/2026 - Mais tempo livre, sem redução no salário. O fim da escala 6x1, aprovado pelo Senado na noite desta quarta-feira (14), promete mudar não apenas a rotina dos trabalhadores brasileiros, mas também a dinâmica da economia.
Com a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas e a garantia de dois dias de descanso remunerado, setores como turismo, lazer, entretenimento e serviços poderão experimentar mudanças nos hábitos de consumo da população.
A nova regra, que terá um período de transição de 14 meses após a promulgação, também exigirá adaptações das empresas, especialmente daquelas que dependem de mão de obra intensiva. Enquanto a redução da jornada pode abrir novas oportunidades de consumo, entidades industriais alertam para o aumento dos custos de produção.
Mas, afinal, o que está abarcado no fim da escala 6x1 e quais os possíveis efeitos da mudança? Veja os detalhes a seguir:
Fim da escala 6x1
O Senado aprovou ontem a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6x1. O texto - que passou pelos senadores sem alterações em relação ao que foi aprovado pela Câmara dos Deputados em maio - estabelece carga semanal máxima de 40 horas, em uma transição que durará 14 meses, sem implicar na redução salarial. Agora, seguirá para promulgação, em data ainda a ser definida.
Setores industriais com mão de obra intensiva estimam aumento de custos, dada a necessidade de contratação de mais trabalhadores e, consequentemente, impacto sobre os resultados financeiros. Entidades do empresariado afirmam ainda que a tramitação foi "apressada" e sem tempo hábil para mensuração dos impactos, a fim de não afetar a produção.
O governo não estuda compensação aos empresários, conforme reforçou ontem o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães. "Não tem compensação. A compensação é dar constitucionalização à PEC", afirmou.
O que muda na prática?
A PEC estabelece um limite de 8 horas diárias e uma carga horária semanal máxima de 40 horas ante as atuais 44 horas. Vale lembrar que as categorias que já contam com menos de 40 horas semanais não terão redução proporcional na carga horária de trabalho.
O texto prevê também dois dias de folga remunerada por semana para os trabalhadores, não necessariamente em dias consecutivos, sem que isso implique em "qualquer redução salarial, seja nominal, proporcional ou de qualquer outra espécie".
Ficou estabelecido ainda um período de transição de 14 meses para que a mudança entre plenamente em vigor no País.
No caso dos microempreendedores individuais (MEIs), um artigo da PEC afirma que uma lei complementar "poderá estabelecer medidas transitórias, condicionadas à manutenção de níveis de emprego e de mitigação dos impactos" para esse segmento.
Adaptação dos setores
Para especialistas da FIA Business School, a mudança na jornada de trabalho não terá o mesmo efeito em todas as atividades. Comércio, serviços, alimentação e operações que funcionam continuamente estão entre os segmentos que precisarão avaliar como cobrir os períodos de descanso sem interromper o atendimento.
"A adaptação pode envolver novas contratações, mudanças nos horários de funcionamento, redistribuição de tarefas e revisão dos modelos de gestão. O desafio é conciliar a redução da jornada com a continuidade das operações e a sustentabilidade financeira de cada negócio", avaliam em nota.
Já entidades da indústria lamentaram a aprovação da PEC. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) disse que a 'conta' da mudança poderá ser paga por toda a sociedade, enquanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apontou para o possível aumento nos custos de produção e impacto na inflação.
Segundo o presidente da CNI, Ricardo Alban, a redução da jornada para 40 horas semanais, com manutenção dos salários, poderá elevar os custos de produção em até R$ 267,2 bilhões.
Modernização do varejo
Para Letícia Moschioni, sócia da Finscale, o fim da escala 6x1 pode acelerar a modernização do varejo brasileiro.
"Com vendas praticamente estáveis em agosto, aumentar preços não será suficiente para compensar os novos custos. Estimo que apenas 20% a 30% do custo adicional efetivo seja repassado aos consumidores em 2027, enquanto o restante deverá ser compensado por ganhos de produtividade ou absorvido pelas margens", avalia.
Ela ressalta ainda que, nas empresas listadas na B3, como Magazine Luiza (MGLU3) e Lojas Renner (LREN3), por exemplo, a mudança tende a ampliar a atenção dos investidores à eficiência operacional e à capacidade de preservar margens.
Um estudo da XP estima, em um cenário sem repasse de custos por conta das mudanças, um impacto médio de 8% sobre o Ebitda e de 18% sobre o lucro líquido das varejistas locais.
"Isso pode acelerar investimentos em automação, gestão de equipes, pagamentos digitais e serviços financeiros integrados. As companhias que conseguirem aumentar a receita por hora trabalhada poderão transformar a reorganização da jornada em uma vantagem competitiva", avalia a executiva.
Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest, acredita que, para o comércio, o desafio será deixar de depender exclusivamente de descontos para atrair clientes.
"Será necessário melhorar a experiência de compra, oferecer condições de pagamento compatíveis com a renda e utilizar dados para compreender o comportamento do consumidor para avançar nas margens", avalia.
(Colaboraram Eduardo Laguna, Gabriel Máximo e Naomi Matsui)

