Canetas emagrecedoras mexem na balança do varejo: quem ganha e quem perde?
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
23/10/2026 às 13:44
Por Gabriela Pessanha, da Broadcast
São Paulo, 23/10/2026 - Os medicamentos da categoria GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, movimentaram R$ 8,5 bilhões no mercado farmacêutico brasileiro no primeiro semestre de 2026, praticamente o dobro dos R$ 4,3 bilhões registrados no mesmo período do ano passado, segundo levantamento da IQVIA, multinacional que fornece dados, análises e serviços de pesquisa clínica para o setor de saúde e ciências biológicas.
Os dados da entidade também apontam para o apetite por outros produtos das prateleiras das farmácias, e isso pode estar associado, mais uma vez, ao uso das canetinhas. Entre eles, os alimentos esportivos e as vitaminas se destacam, com crescimento de 20% e 9% no período, respectivamente.
Se de um lado há quem comemore a perda de peso e os ganhos de receita, do outro, as medicações que caíram no gosto da população podem não ser tão vantajosas para outros segmentos, como o de alimentos e vestuário, e podem estar contribuindo para o encolhimento desses faturamentos. Confira mais abaixo.
Mudanças no happy hour: sai a sobremesa, entram os drinks sem álcool
O tratamento com o GLP-1 fez com que 61% dos empresários do segmento indicassem mudanças no comportamento dos clientes associadas ao uso de medicamentos da categoria. É isso que mostra a pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).
"O movimento começou a ser percebido de forma pontual em 2024 e ganhou força em 2025, inicialmente concentrado em estabelecimentos frequentados por consumidores de maior renda. A tendência é que avance à medida que os medicamentos se tornem mais acessíveis", explica o líder de conteúdo da entidade, José Eduardo Camargo.
A pesquisa da Abrasel mostra ainda outras tendências que os empresários do setor observaram entre os clientes:
Troca dos pratos principais pelas miniporções: 56% dos entrevistados notaram quedas moderadas nos pedidos de pratos maiores e 64% observaram que as porções menores ganharam espaço nas demandas;
Um prato, duas colheres: a divisão dos pedidos entre os clientes avançou segundo 64% dos donos de bares e restaurantes;
Mocktails avançam: os drinks sem álcool também ganharam espaço com a nova dieta e, para 53% das fontes do levantamento, o consumo desse tipo de bebida aumentou.
Mesmo com a expectativa de consolidar o crescimento de 9% do faturamento dos bares e restaurantes em 2026, Camargo comenta que as mudanças devem ganhar mais espaço com a democratização do uso de medicamentos derivados do GLP-1.
"A principal oportunidade para o setor será adaptar a oferta a diferentes perfis e necessidades de consumo. O desafio será fazer isso sem comprometer as margens, em um cenário no qual o aumento do movimento nem sempre se traduz em maior rentabilidade", detalha o executivo da Abrasel.
Carrinhos ficam mais leves nos supermercados
Apesar do destaque das canetinhas no Brasil, a tendência também pode ser observada no mercado externo. De acordo com o Boston Consulting Group, os pacientes que usam essa medicação pretendem gastar 14% menos com balas e doces e cerca de 10% menos com chocolates.
Estudo da NielsenIQ Brasil, que atua em inteligência do consumidor e pesquisa de mercado, mostra o mesmo padrão no cenário nacional. Após o início do tratamento, 76,9% dos entrevistados afirmam ter reduzido ou zerado o consumo de chocolates e doces.
Por outro lado, alimentos associados a uma vida saudável ganharam espaço no cardápio dos brasileiros: 84,4% deram mais espaço para a proteína animal na dieta e 67,6% passaram a comprar mais verduras e legumes.
Para o vice-presidente institucional da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), Marcio Milan, ainda é cedo para quantificar o impacto das canetinhas no varejo supermercadista e a longevidade desse movimento nas compras do setor.
"A perspectiva, portanto, não é necessariamente de redução do consumo total, mas de mudanças na composição da cesta de abastecimento dos lares. O desafio do setor será acompanhar essa evolução e ajustar o sortimento às diferentes necessidades e preferências dos consumidores", detalha.
Do XG ao PP, segmento têxtil vê as mudanças como oportunidade
A mudança na rotina alimentar e o tratamento médico resultam principalmente na alteração física dos pacientes que utilizam os derivados do GLP-1. O novo estilo de vida se reflete em novas escolhas para o guarda-roupa e que já estão no radar do setor têxtil.
"Para o segmento, esse movimento representa uma oportunidade de compreender melhor as novas demandas e ajustar a oferta, com a reorganização de produtos e a gestão de estoques. No entanto, ainda é cedo para classificar o impacto como predominantemente positivo ou negativo para todo o mercado, já que os efeitos podem variar entre marcas, categorias e públicos", explica o presidente da Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX), Edmundo Lima.
Ele também acredita que é prematuro definir essas mudanças como permanentes, mas que é preciso observar os dados de consumo para orientar as decisões do varejo.
A empresa Inteligência de Mercado (IEMI), que realiza pesquisas relacionadas a diversos setores - entre eles, têxteis e confeccionistas - detalha que, ao longo de 2027, o principal ponto de atenção será acompanhar se a disseminação das canetas emagrecedoras causará mudanças mais consistentes no comportamento de compra e na demanda por tamanhos de vestuário.
"Esse movimento também pode estimular o consumo, uma vez que as pessoas precisam substituir peças que deixaram de servir. Como as vendas de vestuário estão fracas, o efeito das canetas emagrecedoras é percebido, até o momento, mais como um estímulo adicional às compras do que como um fator capaz de alterar o desempenho geral do mercado", explica o diretor e consultor do IEMI, Marcelo Prado.
Segundo Prado, o IEMI já identifica, a partir de relatos de lojistas e empresas, uma procura um pouco maior por peças com tamanhos menores e uma redução relativa na demanda por tamanhos maiores, especialmente entre consumidores que passaram por uma perda rápida de peso.

