Apostar em bets para pagar dívidas? Veja por que essa conta não fecha
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
22/05/2026 às 15:25
Por Patrícia Queiroz, da Broadcast
São Paulo, 20/05/2026 - Cerca de 25 milhões de brasileiros - ou um em cada seis adultos no País - realizaram apostas por meio das bets no ano passado, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). E esse mercado, aponta levantamento da Tendências Consultoria e da Peers Consulting, pode faturar algo perto dos R$ 40 bilhões neste ano.
São números que impressionam, especialmente quando cruzados com os que apontam o alto volume das dívidas dos brasileiros. Também de acordo com a CNC, a proporção do endividamento das famílias vem batendo recordes recorrentes, alcançando a marca dos 80,9% em abril, e, ao que tudo indica, o abuso do "entretenimento" com as bets pode ser um dos motivos.
Segundo a Confederação, de janeiro de 2023 a março de 2026, a inadimplência das famílias causada pelas apostas online retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista. Para se ter uma ideia do que isso representa, basta saber que esse mesmo montante equivaleu ao volume de vendas nos períodos de Natal de 2024 e 2025.
Mas o que leva as pessoas a passarem do joguinho inocente para um vício que compromete a renda? E mais, a acreditarem que aquele passatempo funciona como um tipo de investimento que, quem sabe, ajudará a pagar as dívidas?
Para Lai Santiago, planejadora financeira, a resposta é simples: muita gente enxerga as bets como investimento porque elas foram posicionadas culturalmente dessa forma.
"Existe uma mistura cada vez maior entre aposta, trading, day trade, cassino e promessa de renda extra. Tudo começa a ser vendido como se fosse uma forma inteligente, moderna e acessível de ganhar dinheiro rápido", explica.
Segundo ela, isso acontece em um contexto social muito específico, no qual os imóveis estão mais caros, o custo de vida elevado, os salários com menor poder de compra e uma sensação generalizada de que enriquecer pela via tradicional ficou distante demais para boa parte da população, especialmente para os jovens.
"A promessa de ganho rápido ganha uma força emocional enorme. As plataformas entendem isso perfeitamente e constroem uma comunicação baseada em autonomia, emoção, conquista e mudança de vida. As pessoas não enxergam apenas uma aposta, mas sim a possibilidade de finalmente sair do aperto", avalia.
Quando a diversão vira vício
Marcus Novais, sócio-fundador da Private Investimentos, explica que há uma linha tênue entre diversão e vício, que fica mais nítida quando se observa o impacto sobre o orçamento.
"Entretenimento financeiro saudável tem três marcas, que é valor predefinido dentro do orçamento de lazer, a ausência de tentativa de recuperar eventuais perdas e zero impacto sobre reserva de emergência. Quando qualquer um deles é violado e a pessoa aumenta a aposta para recuperar dinheiro ou ainda usa cartão de crédito ou crédito rotativo para apostar e esconde o gasto da família esse entretenimento virou um problema", explica.
Lai Santiago conta que há ainda a questão do viés cognitivo do presente, que faz o cérebro valorizar recompensas imediatas e subestimar consequências futuras.
"Existe o excesso de confiança, alimentado pela sensação de que com estratégia, conhecimento ou intuição seria possível vencer um sistema estruturalmente desenhado para que a casa ganhe no longo prazo. Bets são empresas. Empresas sobrevivem apenas se tiverem lucro. E o lucro bilionário das bets vem do imenso prejuízo dos apostadores", ressalta a planejadora financeira.
Bets não são investimentos
Mas se a perda é quase certa, por que tantas pessoas enxergam as apostas online como alternativa de renda ou investimento?
Novais, da Private Investimentos, diz que três forças explicam essa percepção distorcida. A primeira é o marketing extraordinariamente agressivo do setor, que durante anos confundiu deliberadamente apostas com "investimento" ou "renda extra", amplificado por influenciadores e atletas.
A segunda é o baixo nível de letramento financeiro da população, que mistura conceitos estruturalmente distintos.
"Investir é alocar capital em ativos produtivos com expectativa positiva de retorno, especular é assumir risco de preço com expectativa positiva, mas alta variância, e apostar é pagar por entretenimento com valor esperado negativo", reforça, lembrando o terceiro fator, mais profundo, que é o socioeconômico.
"Para muita gente pressionada por inflação, juros do cartão e renda estagnada, a aposta funciona como fantasia de mobilidade social rápida que o trabalho e o investimento tradicional, no curto prazo, não oferecem", explica.
Lai Santiago acredita ainda que muita gente não está buscando apenas lucro. "Está buscando alívio, controle sobre a própria vida e a sensação de que ainda existe alguma chance de mudar de realidade rapidamente. E é justamente isso que torna esse mercado tão sedutor e tão perigoso ao mesmo tempo", completa.


