A paz volta a reinar? Como ficam os mercados após a assinatura do acordo EUA-Irã
Publicado por: Broadcast Exclusivo
5 minutos
Atualizado em
18/06/2026 às 13:29
Por Gustavo Boldrini, da Broadcast
Enfim saiu o acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, tão esperado pelos mercados desde o início do conflito entre os países, que também envolve Israel, em 28 de fevereiro deste ano. Ontem, líderes de ambas as potências assinaram de forma digital o documento, que traz 14 pontos e tem duração de 60 dias, prorrogáveis por mais tempo.
Ele prevê o fim das hostilidades no Oriente Médio, incluindo os ataques de Israel ao Líbano, e uma reabertura segura da navegação no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do transporte global de petróleo. Além disso, o Irã volta a se comprometer a não desenvolver armas nucleares.
Também há a previsão de que os EUA e aliados promovam um plano de US$ 300 bilhões de dólares para ajudar na reconstrução do país persa após o conflito. As sanções econômicas impostas aos iranianos, incluindo ao petróleo, também serão retiradas, afirma o documento.
- Segundo líderes de Paquistão e Catar, mediadores do processo, deve ocorrer nesta sexta-feira uma cerimônia para a assinatura simbólica do acordo na Suíça.
Diante de tantas informações, como devem ficar os mercados após a assinatura do acordo entre EUA e Irã?
O petróleo voltará aos preços normais?
A normalização dos preços do petróleo é uma questão observada com muita atenção pelos mercados globais, já que a disparada da commodity a partir da eclosão do conflito trouxe grande volatilidade para os ativos globais e mexeu até mesmo na postura de bancos centrais pelo mundo.
Isso porque o petróleo acima dos US$ 110, como ocorreu durante o conflito, tende a trazer efeitos inflacionários para o mundo todo.
Desde a notícia de que o acordo de paz seria assinado, no fim de semana, a cotação da commodity tem buscado uma normalização, voltando a níveis vistos antes do conflito, abaixo de US$ 80 no caso do Brent, referência internacional e para as petroleiras brasileiras, como Petrobras (PETR4/PETR3), Brava Energia (BRAV3), PRIO (PRIO3) e PetroRecôncavo (RECV3).
O banco americano Goldman Sachs prevê que as exportações de petróleo do Golfo Pérsico retornarão aos níveis pré-conflito até o fim de julho, mas alertam para riscos.
Em nota obtida pela Dow Jones Newswires , a analista Yulia Zhestkova Grigsby prevê que muitas embarcações petroleiras ainda devem ter cautela para atravessar o Estreito de Ormuz, diante da falta "de diretrizes claras para a navegação".
De fato, ainda há dúvidas sobre como será o regime de navegação na passagem. Mais cedo, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, afirmou que chegou a um acordo com o Omã, país que está do outro lado do Estreito de Ormuz, com mecanismos para fazer a gestão da passagem. A cobrança de um pedágio para a navegação no local ainda permanece no radar - outro fator que pode mexer com os preços do óleo.
Alinhadas à queda de mais de 3% do petróleo Brent hoje, as ações da Petrobras (PETR4 e PETR3) caíam em torno de 1,5% perto das 11h45 (de Brasília) nesta quinta-feira, impedindo que o Ibovespa tenha uma alta mais acentuada em dia de apetite renovado a risco nos mercados - o índice subia apenas 0,35% no horário.
Juros em foco
Outra questão importante é a da trajetória dos juros, em especial nos Estados Unidos. Em um primeiro momento, os rendimentos dos Treasuries mais longos, ou seja, que embutem mais o prêmio de risco geopolítico, têm caído nos EUA - é o caso dos títulos de 10 e 30 anos. Após subir mais cedo, repercutindo a decisão de ontem do Federal Reserve (Fed), o título de 2 anos também passou a cair nesta manhã.
No entanto, a pressão inflacionária segue preocupando o Fed, conforme fala de ontem do novo presidente do órgão, Kevin Warsh.
- Na avaliação da Capital Economics, as projeções do Fed em sua decisão divulgada ontem apontam para um risco "claro" de aumento das taxas de juros ainda neste ano.
Há pouco, a ferramenta de monitoramento do CME Group indicava chance de 30% de uma alta de 0,25 ponto porcentual nos Fed Funds já na próxima reunião, em 29 de julho. Para setembro, a chance de aumento de juros é agora majoritária, acima dos 67%.
Ou seja, apesar do otimismo com o acordo de paz, ainda há cautela no ar, tanto pela parte da inflação quanto pelo lado do próprio avanço das tratativas entre EUA e Irã. E isso pode afetar também o apetite por ativos de risco pelo mundo ao longo dos próximos dias.
"Embora o acordo seja uma notícia muito boa para os mercados, parece que conversas difíceis terão de ocorrer na janela de 60 dias para garantir que a paz seja sustentável", escreveu o estrategista global do Deutsche Bank, Jim Reid.
Ele observou ainda que seria necessária a aprovação do Senado dos EUA para o alívio das sanções ao Irã, o que pode ser um desafio.

