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Para ler a ata do Copom: entenda o que é hiato do produto e ancoragem de expectativas

Um breve resumo para entender os termos econômicos mais frequentes nas atas do Comitê de Política Monetária do Banco Central

Publicado por: Broadcast Exclusivo

conteúdo de tipo Leitura6 minutos

Atualizado em

26/03/2024 às 16:26

Por Luana Pavani, do Broadcast

Economistas falam palavras difíceis, às vezes. Surge uma avalanche de termos em economês no mercado financeiro e no noticiário sempre que o Banco Central divulga a ata do Comitê de Política Monetária com suas considerações sobre a economia brasileira. Essa reunião ocorre oito vezes ao ano e na semana seguinte a autoridade monetária torna público o documento com o embasamento da decisão sobre a taxa de juros básica da economia, a taxa Selic, e o que foi debatido pelos diretores que participam do comitê.

O texto é muito aguardado pelos economistas e analistas de investimentos, no intuito de compreender melhor o cenário de curto, médio e longo prazos, e assim poder traçar suas projeções macroeconômicas. Após a leitura da ata do Copom, os gestores financeiros calibram seus cálculos para juros, inflação, câmbio e Produto Interno Bruto (PIB), oferecendo melhores alternativas de investimento para seus clientes.

Para conseguir entender minimamente o teor dessas análises, confira um resumo dos termos econômicos mais frequentes nas atas do Copom:

Convergência para a meta de inflação

O Brasil adota o regime de metas de inflação. Esse sistema, implantado em 1999, foi definido como o parâmetro de referência para as expectativas de preços em substituição ao regime de bandas cambiais, abandonado após a maxidesvalorização da moeda no início daquele ano. O indicador oficial de inflação no Brasil é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A meta para a inflação é definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), composto pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e Orçamento, além do presidente do Banco Central. Por sua vez, o BC adota as medidas necessárias para alcançar a meta ou, em outras palavras, definir uma taxa Selic para a convergência da inflação à meta.

O valor da meta de inflação é definido como centro, podendo variar numa faixa entre o piso e o teto.

Quando a taxa de juros elevada gera o efeito esperado de conter os preços da economia, por meio do enfraquecimento da atividade, e a inflação vai diminuindo ao longo do tempo, pode-se encontrar na ata também o termo desinflação.

Veja também: O que tem a ver inflação com taxa de juros?

Ancoragem de expectativas

Em seu objetivo de trazer a inflação para a meta, o Banco Central acompanha as expectativas dos agentes do mercado, que são os bancos e corretoras do Sistema Financeiro Nacional. Tais expectativas são coletadas semanalmente no relatório Boletim Focus. A mediana das projeções para o IPCA e outros indicadores macroeconômicos - como câmbio, Selic e PIB - são divulgadas toda segunda-feira, por volta de 8h30.

Expectativas ancoradas significam sua manutenção em torno da meta. Como explica o Banco Central, para a ancoragem das expectativas é fundamental que a política monetária tenha credibilidade, de modo que os agentes acreditem que o Banco Central fará o que for necessário para atingir o objetivo. Mas choques podem ocorrer e afastar a inflação da meta, e o BC deve ser capaz de adequar a política monetária rapidamente.

As expectativas são colocadas em horizontes de tempo, mais curto, para o ano presente ou mais distantes, até 25 meses à frente. Nas atas, é comum ver a expressão "horizonte relevante", que geralmente se refere a até dois anos.

Mas se as pessoas e as empresas esperam uma dinâmica diferente de preços no futuro, fora da meta, as projeções ficam mais longe da convergência. Então, diz-se que as expectativas estão desancoradas da meta.

Pra entender a taxa básica: O que é a Taxa Selic e como ela afeta a sua vida e seus investimentos

Aperto monetário ou afrouxamento

Há outros meios pelos quais os governos podem induzir a atividade econômica, como benefícios e subsídios, mas a política monetária no sistema de regime de meta de inflação utiliza principalmente a taxa de juros.

Pelas lei da oferta e da procura, a inflação acelera quando há menor oferta e/ou muita procura, causando um desvio da meta definida pelo governo. Então, ocorre o que se chama de aperto monetário, que em outras palavras significa elevar os juros na tentativa de conter a inflação. O caminho inverso é o afrouxamento monetário, quando o Banco Central decide baixar os juros para aquecer a atividade econômica.

Vale lembrar que o efeito da taxa Selic sobre a inflação leva em média de 6 a 9 meses, pois ocorre de forma indireta. Isso porque, o juro maior tende a reduzir a oferta de crédito, o que significa menos investimentos por parte das empresas e menor consumo pela população em geral. Ou seja, o juro mais alto ajuda a reduzir a demanda e, portanto, os preços. Assim, uma alteração da taxa básica hoje só vai ter efeito sobre os preços de produtos e serviços a partir do semestre seguinte, pelo menos.

Hiato do produto

O hiato do produto é um indicador que mensura as oscilações cíclicas da economia. Primeiro, é preciso decompor o Produto Interno Bruto (PIB) em dois componentes: a tendência de médio ou longo prazo, também chamada de produto potencial; e o ciclo de curto prazo. O cálculo do hiato do produto é a diferença entre o produto observado e o produto potencial. Se positivo, significa que a economia opera acima de sua tendência (ou potencial), ou seja, está aquecida e sujeita a pressões inflacionárias. Mas se o hiato do produto é negativo, corresponde ao inverso, uma economia mais fraca, com ociosidade dos fatores de produção.

Por isso, esse indicador é muito usado por economistas para análises conjunturais e também por bancos centrais para responder com a taxa de juros necessária aos efeitos dos ciclos econômicos.

E aí pode aparecer, eventualmente, menção na ata a efeitos cíclicos ou anticíclicos. Em termos acadêmicos, há uma escola de pensamento econômico, a teoria keynesiana (do autor britânico John Maynard Keynes), que fala sobre a atuação do Estado na dinâmica dos ciclos econômicos. Em resumo e na teoria, quando o país vive um ciclo descendente, de desaceleração econômica, o Estado pode reduzir a taxa de juros para que pessoas e empresas tenham condições de continuar consumindo, com a inflação mais baixa, e que encontrem custo de crédito menor, no intuito de retomar o crescimento da atividade - em última análise, do PIB.

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