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Economia

Palavra do Economista | Mercado de crédito deverá contribuir com impulso adicional sobre o PIB neste ano​

Publicado por: Análise BB

conteúdo de tipo Leitura6 minutos

07/03/2024 às 09:36

Atualizado em

10/05/2024 às 15:37


O IBGE revelou na semana passada que a economia brasileira cresceu 2,9% em 2023, com estabilidade no último trimestre ante o imediatamente anterior. O Banco do Brasil projetava um crescimento de 0,4% para os últimos três meses do ano passado e 3,1% para a economia no ano, mas nossa projeção foi surpreendida por dois elementos: primeiro, uma nova revisão da série histórica (algo que tem ocorrido de forma recorrente), que rebaixou o nível do PIB observado; e segundo, uma queda mais acentuada que o projetado do PIB da Agricultura no 4º trimestre (-5,3%), de longe o componente da oferta de mais difícil estimação.

Por outro lado, os demais setores da economia (indústria e serviços) se comportaram exatamente como imaginávamos, avançando 0,4% na margem. Assim, além da força mostrada em setores importantes da economia em 2023, em especial o Agronegócio, o resultado do PIB do ano passado deixa uma pequena herança estatística de +0,2% para a atividade econômica de 2024, o que os economistas costumam chamar de efeito carregamento. De forma objetiva, é como dizer que mesmo que a dinâmica econômica não apresente evolução ao longo de 2024, o PIB já possui essa pequena variação positiva. Esta atualização do conjunto informacional a partir da divulgação do PIB na última sexta-feira reforçou nosso cenário de crescimento para o ano de 2024, em que nossa projeção central aponta para uma variação do PIB equivalente a 1,8% no ano corrente. Apesar desse número representar uma desaceleração frente a 2023, avaliamos tratar-se de uma dinâmica mais balanceada, regional e setorialmente.

Apesar do diagnóstico detalhado do desempenho da atividade de 2023 ser um importante fator para mapear o desempenho futuro, entendo que mais importante é olhar para frente e buscar entender quais os drivers determinantes que deverão conduzir a economia neste ano. Neste caso, considero como um dos principais pilares para a atividade em 2024 a retomada do mercado de crédito no âmbito do Sistema Financeiro Nacional (SFN).

Projeções

Em minha avaliação, o crescimento mais pujante deste mercado deverá ser sustentado por importantes vetores, tais como a queda da taxa básica de juros, o aumento real do salário-mínimo, a continuidade da força do mercado de trabalho e o próprio crescimento da atividade econômica. Este último vetor, fazendo uma analogia com a biologia, possui uma relação simbiótica com o mercado de crédito, ou seja, designa-se uma relação funcional associativa e harmônica entre o crédito e a atividade econômica no longo prazo, em que um acaba por beneficiar o desenvolvimento do outro.

Uma forma de tentar mensurar essa complexa relação é identificar a conexão entre as dinâmicas de crescimento do fluxo financeiro de crédito e da atividade econômica, o que é chamado de impulso do crédito na economia. Para esse cálculo, pode ser utilizado como proxy a variação do saldo da carteira de crédito (representando as concessões líquidas de crédito) e o PIB (indicador da atividade). De forma simplificada, pode-se dizer que quando o impulso do crédito na economia é positivo, o fluxo financeiro das novas concessões está crescendo em um ritmo mais forte que a atividade, significando que o crédito contribui de forma positiva para o crescimento do PIB.

Avaliando a última década, o impulso do crédito no Brasil foi negativo em 2014, ou seja, adentrou o campo contracionista, condizente com o arrefecimento da economia no ano e permanecendo assim até 2016, no encerramento do ciclo recessivo. A partir de 2017, o impulso passou ao campo positivo, com a evolução do crédito favorecendo a atividade econômica, que atingiu seu maior patamar histórico no ano de 2020 com as políticas anticíclicas durante a pandemia, fato que permitiu dar liquidez às empresas e ao sistema financeiro à época.

Embora a atividade econômica tenha contraído em 2020, o mercado de crédito absorveu parte dessa queda do PIB. Todavia, nos últimos dois anos, o impulso do crédito voltou ao patamar negativo. A elevação dos juros, o elevado comprometimento e endividamento das famílias e a maior percepção de riscos levaram ao aumento do custo do crédito no período recente, acabando por inibir uma contribuição positiva deste mercado para a atividade econômica.

Para 2024, estimo que o crédito voltará a contribuir positivamente com o crescimento do PIB, o que em parte sustenta meu otimismo com o cenário doméstico. Considerando que uma das principais variáveis nos modelos de projeção de crédito é a taxa Selic, com o atual balanço de riscos e a expectativa de continuidade do processo de desinflação, entendo que o Banco Central deverá levar a taxa de juros para pelo menos 9,25% ao final de 2024, fato que deverá beneficiar a evolução deste mercado.

De forma detalhada, em relação à pessoa física, os segmentos que apresentam maior sensibilidade à taxa de juros deverão liderar o crescimento da carteira com recursos livres, como é o caso do crédito para veículos, crédito pessoal e cartão de crédito. Por sua vez, a continuidade da queda da inadimplência (com destaque para as renegociações realizadas pelo Desenrola) deverá contribuir com a redução da alavancagem das famílias (medida pelo endividamento e comprometimento de renda no SFN), a qual, apesar de se encontrar em patamar historicamente alto, vem mostrando trajetória de arrefecimento. Adicionalmente, o aumento real do salário-mínimo, a força do mercado de trabalho (estimamos taxa média de desemprego em 8,3% no fim de 2024, índice historicamente baixo), a recuperação do poder de compra das famílias a partir do recuo da inflação e a manutenção da tendência de queda dos juros devem sustentar uma maior recuperação do comércio e dos segmentos mais sensíveis à renda e ao crédito.

Esses pontos se refletem na visão mais construtiva das nossas projeções de massa real de salários (+4,0%) e volume total de crédito no SFN, para o qual estimamos alta de 9,4% em 2024, com destaque para a aceleração do crédito livre à pessoa física (+10,2%, contra um crescimento de 7,9% no ano passado). Além disso, devido ao crescimento da carteira agro e imobiliária, esperamos avanço de 10% na carteira com recursos direcionados, que são aqueles que possuem taxas administradas ou subsidiadas.

No âmbito das empresas, avalio que o crédito PJ deverá se recuperar, influenciado pela melhora nas condições do crédito e na expectativa favorável para a retomada do investimento dos setores produtivos, fazendo com que a carteira de crédito livre PJ cresça 8,6%. Em relação à carteira com recursos direcionados, a retomada do protagonismo do BNDES e o incentivo de programas ligados ao investimento privado deve fazer com que essa carteira cresça 8,0% em 2024.

Esses pontos endossam a visão de que a flexibilização das condições financeiras e o crescimento do mercado de crédito, assim como a sustentação do forte resultado do setor externo brasileiro, deverão ser importantes drivers para o desempenho de setores chaves da economia, como construção civil e indústria, em particular a extrativa. Dessa forma, se no ano passado o agronegócio revelou-se protagonista, em 2024 nosso olhar se volta para os setores mais sensíveis à dinâmica do crédito.

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