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Economia

Palavra do economista | Que comecem as revisões do PIB​

Publicado por: Análise BB

conteúdo de tipo Leitura7 minutos

Atualizado em

04/04/2024 às 13:43


Nos últimos dois anos, nos acostumamos a ver os economistas iniciarem o ano com projeções comedidas para o crescimento do PIB brasileiro, as quais foram crescendo substancialmente ao longo dos meses até atingirem expansões próximas a 3%. Nesse sentido, apesar de já estarmos entrando no 2º trimestre de 2024, eu diria que, para as projeções anuais de PIB, é agora que o ano de fato começa. Afirmo isso pois é só em março que conhecemos o PIB do ano anterior e o resultado das primeiras pesquisas mensais de atividade, no caso, as da indústria (PIM), comércio (PMC) e serviços (PMS) de janeiro.

E adivinhem? Tal qual aconteceu nos anos anteriores, já começamos a ver mais recentemente revisões altistas para o PIB brasileiro deste ano. De fato, eu mesmo fui um dos que já se reposicionou. O Banco do Brasil iniciou o ano projetando uma expansão de 1,5% em 2024, e agora começamos a trabalhar com um avanço de 2%. Minha intenção é usar esta Carta para explicar o motivo para tal movimento e por que não me surpreenderia caso esse processo de revisões continuasse no curto prazo.

Cenários

Apesar dessa visão mais positiva para 2024, gostaria de fazer uma ponderação. Conforme revisões recentes feitas pelo IBGE e pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), espero que a produção agrícola deste ano apresente uma retração um pouco maior do que imaginávamos há alguns meses atrás (-1,7%). Apesar disso, reforço que é uma produção extremamente robusta do agronegócio em termos históricos, mas que em 2024 não contribuirá, pelo menos em termos de variação frente ao ano anterior, para o crescimento do PIB.

Dito isso, vou me concentrar nos pontos positivos. Antes de mais nada, destaco que, quando analiso o desempenho do PIB trimestral, prefiro analisá-lo sem a participação agrícola direta. Ou seja, removo da conta aquele valor da produção “dentro da porteira”. Obviamente, não o faço por achar que ele não tem importância na análise, muito longe disso! Ademais, reconheço que o agronegócio no Brasil é muito maior do que aqueles 7% de participação do PIB que o IBGE divulga oficialmente. Faço-o exclusivamente porque esse dado é complicado de prever nas passagens mensais, pois estamos falando de safras anuais.

Por conta disso, nas análises de curto prazo (como é o caso do PIB do 1º trimestre), foco nos segmentos da indústria e dos serviços, ainda que estes sejam afetados indiretamente pela produção do agronegócio. Em relação a esses setores, há algum tempo argumento que espero um PIB bastante forte nos primeiros três meses de 2024. Existem razões para isso: inicialmente – e isto foi tema da minha Carta no último mês –, temos visto importante avanço nas concessões de crédito, algo esperado devido à redução da taxa Selic e da melhora das condições financeiras; o segundo ponto a ser destacado é o reajuste real do salário mínimo no início do ano, que elevará a massa de salários e, por consequência, o consumo na economia.

Relembre: Mercado de crédito deverá contribuir com impulso adicional sobre o PIB neste ano​

O terceiro motivo, e talvez o mais relevante no curto prazo, é o pagamento extraordinário dos precatórios. No fim do ano passado, houve uma liberação de recursos correspondente a quase R$ 100 bilhões. Quem exatamente irá receber esse dinheiro e como ele será gasto, é difícil de antecipar. O que sei é que algum impulso na atividade ocorrerá, e a dúvida é o tamanho. Para tentar elucidar essa questão e os demais impulsos em curso na economia, nossa equipe possui alguns modelos que tentam, a partir de dados de alta frequência, estimar quanto foi o PIB no trimestre a ser divulgado (é o que chamamos de nowcasting). A assertividade desses modelos é bastante alta e eles nos dizem que, com quase metade dos dados divulgados para o período, o PIB do 1º trimestre de 2024, sem o componente do agro, pode ter crescido próximo a 1% frente aos últimos três meses de 2023.

Esse resultado, ainda que preliminar, indica que a hipótese inicial de uma atividade muito forte no início do ano parece estar se confirmando. Mas ainda resta uma dúvida importante na análise de curto prazo: como virá o PIB agrícola nesse período? Meu comentário anterior em relação à dificuldade de se projetar esse componente na visão trimestral não é à toa. Como exemplificação, olhando para o 1º trimestre de 2023, a divulgação inicial do IBGE contabilizava um crescimento trimestral de 21,6% no período. Nas três divulgações sucessivas, esse número foi revisado para 21%, 12,5% e 20,9%, respectivamente.

Essa volatilidade nos números revisados e na forma de divulgação do PIB agrícola me coloca grande incerteza no dado que será divulgado no início de junho (data de divulgação do PIB do 1ºtri). Pois, com a série atual do IBGE e mesmo com a projeção de queda da produção da agropecuária em relação ao mesmo período de 2023, o PIB agrícola teria um crescimento na margem (ou seja, ante o trimestre anterior) acima de dois dígitos. Na minha opinião, um avanço dessa magnitude me parece algo mais puramente estatístico do que outra coisa. Mas o fato é que essa variação, ainda que estatística, importa para minha projeção.

Projeções

Caso a projeção dos nossos modelos se confirme (expansão ao redor de 1%), essa variação de dois dígitos da agropecuária poderia fazer com que o crescimento do PIB no 1ºtri atingisse algo próximo a 2%. Por uma questão de parcimônia, tenho oficialmente projetado um número de 1,2% para o crescimento nos primeiros três meses do ano, que já é consideravelmente acima do que o mercado está enxergando hoje.

Até aqui, me concentrei muito no início do ano e pouco no restante dele. Mas o fiz por achar fundamental explicar ao leitor todas as dúvidas que possuo em relação ao que será divulgado e o quão grande o PIB do período pode ser. Além disso, muito do que acontece nos primeiros três meses pode definir os números do restante do ano. Principalmente porque os recursos injetados continuarão rodando na economia – por exemplo, há razões para imaginar que parte do impacto derivado dos precatórios pode espraiar para o 2º trimestre. Outro ponto é que o mercado de trabalho segue bastante sólido, com crescimento relevante dos salários e da massa de rendimentos.

Nesse escopo, projeto que setores mais cíclicos da economia se destacarão, como é o caso da indústria e dos serviços, assim como o consumo e o investimento. Este último, diga-se de passagem, teve números muito deprimidos nos últimos trimestres. Em relação à indústria, o destaque deve ficar com a recuperação dos segmentos mais sensíveis ao ciclo das condições financeiras, como é o caso da manufatureira e da construção civil. Além disso, a extrativa mineral deve continuar em expansão relevante.

Ou seja, teremos um ano de 2024 com aumento real de salário mínimo, ampliação da massa de salários e redução da taxa de juros, o que permite uma maior expansão do crédito e dos investimentos. Adicionalmente, os recursos extraordinários dos precatórios darão um impulso importante no curto prazo. Essa é a minha visão para o ano e os motivos que me levaram a iniciar o processo de revisão altista para a projeção de 2024. Não é possível afirmar se chegaremos ao final com uma projeção próxima a 3%, assim como ocorreu nos últimos dois anos. Independentemente disso, tenho a convicção que o que venho afirmando há algum tempo irá se concretizar: podemos ter um crescimento menor em 2024, mas com certeza será um desempenho mais saudável e balanceado do que no ano anterior.

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