globo mapa mundi sob plataforma de madeira

Economia

Calamidade climática e o crescimento econômico

Como as enchentes no RS podem afetar o crescimento das demais regiões brasileiras

Publicado por: Análise BB

conteúdo de tipo Leitura11 minutos

Atualizado em

21/06/2024 às 16:50

No mês de maio, o Brasil assistiu com consternação aos danos humanos e econômicos causados pelas cheias no Rio Grande do Sul, que devem reverberar na economia brasileira sob vários aspectos. De uma forma geral, as enchentes representam um sério problema ambiental e social, levando a diversos impactos em todas as esferas da sociedade. No Rio Grande do Sul, levaram boa parte do estado à uma situação crítica e colocaram a maior parte dos municípios do estado em situação de calamidade ou emergência. Diante disso, a mensuração dos impactos econômicos é crucial para guiar políticas públicas que visem amenizar os problemas decorrentes de eventos dessa natureza.

Conforme divulgado na edição de maio da Resenha Regional, revisamos o cenário de crescimento do PIB do RS de 4,0% para 0,6%, com impacto potencial direto sobre a economia brasileira na ordem de -0,2 pontos percentuais no crescimento do PIB deste ano. Neste trabalho, avançamos na avaliação e investigamos as relações comerciais que os agentes do estado possuem com os agentes de outras unidades da federação para calcular o transbordamento econômico da calamidade do estado no crescimento do PIB das demais localidades em 2024 por meio de técnicas de econometria espacial.

Os resultados indicam que Santa Catarina deverá sentir o maior transbordamento espacial em comparação com os outros entes da federação. Além disso, calculamos que os trasbordamentos espaciais devem somar -0,1 ponto percentual, o que gera um potencial impacto total de -0,3 pontos percentuais no crescimento do PIB brasileiro em 2024.

A calamidade climática no Rio Grande do Sul

Com participação de 6,5% do PIB nacional, o Rio Grande do Sul possui uma população de 11,5 milhões de habitantes distribuídos em 497 municípios. As recentes chuvas, em nível historicamente elevado, levaram boa parte do estado à situação crítica. De acordo com a Portaria 1.802 de 31 de maio de 2024, 95 municípios estão em situação de calamidade e 323 municípios encontram-se em situação de emergência. A Figura 1 apresenta a distribuição espacial dessas localidades.

Da população total do estado, 51,7% situa-se em municípios em calamidade e 40% em localidades em emergência, totalizando 91,7% da população do estado afetada pelas chuvas. Em termos de relevância no PIB, os municípios em calamidade respondem por 53,8% do PIB do estado, enquanto o total de municípios em calamidade ou emergência somam juntos 92,2% da economia gaúcha.

Qual a relação das outras unidades da federação com o Rio Grande do Sul?

Do ponto de vista comercial, a relação entre duas regiões pode se dar, entre outras possibilidades, via troca de bens, serviços e recursos. Mas como um estado influencia o outro? Considere que uma empresa do Rio Grande do Sul produza arroz, mas precisa se conectar com uma cadeia subjacente, como indústria e serviços logísticos, para que o produto chegue à mesa das famílias brasileiras. Para que isso ocorra, é natural se esperar que essa empresa dependa de vários outros insumos (que ela não produz) para concluir todo o processo produtivo, tais como: maquinário, embalagens, fertilizantes, pesticidas, etc.

Portanto, as empresas que produzem os outros insumos ligados à cadeia do arroz podem ser impactadas em caso de choque negativo na produção do grão. Tais empresas podem estar localizadas dentro do próprio Rio Grande do Sul, assim como podem também estar localizadas nas demais UFs do país. Nesse sentido, pode-se considerar que o choque econômico no RS possui dois efeitos sobre o PIB nacional: a) o efeito direto, no qual se considera a sua participação no PIB do país; e b) o efeito indireto, no qual se leva em consideração os transbordamentos (spillovers) da calamidade do RS sobre os demais estados. Portanto, o impacto sobre o PIB Nacional seria a soma desses efeitos diretos e indiretos.

Para identificar esses efeitos indiretos, lançamos mão de técnicas de Econometria Espacial. Para isso, estimamos um modelo de crescimento do PIB estadual que é explicado pelo percentual de trabalhadores com ensino superior (proxy para capital humano) e a quantidade de veículos automotores (proxy para capital físico), além de controlarmos por outras variáveis que dizem respeito aos ciclos econômicos, como taxa de câmbio, Selic e crescimento mundial, considerando dados observados entre 2004 e 2021.

Para identificar a dependência entre as localidades, a abordagem tradicional em econometria espacial utiliza-se de dados relativos à proximidade geográfica, que representa em parte a realidade da atividade comercial, tendo em vista que as rodovias ainda são os principais meios para o transporte de cargas. Porém, existem outros meios de se identificar essas relações. Neste estudo, tomamos como parâmetros os fluxos comerciais e os fluxos de pagamentos entre pessoas jurídicas entre os entes federativos.

Essas informações são agregadas por UFs e representam a realidade da atividade comercial de forma mais fidedigna em comparação à proximidade geográfica (a exemplo de São Paulo, que influencia majoritariamente todos os entes federativos, mas não é o vizinho mais próximo de todos). Na Figura 2, apresentamos a dependência das UFs em relação ao Rio Grande do Sul. Note que Santa Catarina e Paraná (vizinhos mais próximos) são os estados mais dependentes ao se utilizar esse conjunto de informações. Em linhas gerais, os dados mostram que 17,1% dos fluxos comerciais de Santa Catarina são realizados com o Rio Grande do Sul. Por outro lado, do total de pagamentos originários de outros estados, Rio Grande do Sul é responsável por 12,6% recebidos por Santa Catarina.

Parâmetros de dependencia espacial

A partir das relações identificadas na modelagem econométrica, identificamos que a redução de 3,4 pontos percentuais no crescimento estimado para PIB do Rio Grande do Sul neste ano (de 4% no cenário anterior para 0,6% no cenário atual) deve levar a um impacto potencial maior em Santa Catarina em ambos os parâmetros de dependência espacial utilizados.

Potenciais impactos regionais no crescimento do PIB Estadual segundo critérios de dependência espacial

Do ponto de vista agregado, transbordamento espacial indica um potencial efeito indireto de -0,1 pp adicional sobre o crescimento do PIB do Brasil ao considerar tanto os fluxos comerciais quanto os fluxos de pagamentos. Tendo em vista que o efeito direto foi estimado em torno de -0,2 pp, estimamos que o potencial efeito total sobre crescimento da economia brasileira neste ano seja de -0,3 pp. Conforme apresentado na Tabela 1, os efeitos regionais têm magnitude limitada nas projeções do PIB dos estados, sendo Santa Catarina o que teria uma maior limitação do crescimento estimado para este ano (2,5% ante a 2,7%, conforme projetado no nosso cenário base).

Considerações finais

À medida que as águas abaixam no Rio Grande do Sul, os impactos das enchentes ficam mais visíveis, mas os dados oficiais disponíveis ainda são escassos para estimativas mais contundentes. A nossa estimativa preliminar indica que a economia do Rio Grande do Sul deve fechar o ano de 2024 com crescimento próximo à estabilidade (0,6%), com queda mais acentuada no setor industrial. Em termos de potencial impacto no PIB nacional, estimamos que seja próximo a -0,3 pontos percentuais.

A econometria espacial nos permite estimar a propagação do choque em uma localidade sobre o território a partir de parâmetros de dependência espacial. Entretanto, a técnica não leva em consideração possíveis compensações positivas por parte de outras empresas. Uma vez que a atividade produtiva do Rio Grande do Sul, especialmente a fabril, deve ficar comprometida nos próximos meses até que as plantas sejam reestabelecidas, é natural supor que fábricas de outros estados aumentem sua produção para atender a demanda, o que reduziria o efeito negativo do transbordamento espacial calculado neste trabalho, efeito não capturado pela técnica aplicada. Por último, é importante destacar que as simulações apresentadas neste estudo sugerem possíveis desvios no nosso cenário base, tanto nacional como regional. Entretanto, em função da ausência de dados oficiais nos indicadores de atividade, que limita a realização de projeções mais robustas, aliado ao mercado de trabalho ainda forte e a expectativas favoráveis para o crédito ao longo do segundo semestre, mantemos, por ora, a estimativa de crescimento de 2,2% no PIB brasileiro neste ano.

Projeções BB
Disclaimer

Esta publicação contém análises/avaliações que refletem as visões de profissionais da área de Assessoramento Econômico do Banco do Brasil S. A. (“BB”).  As análises/avaliações aqui publicadas: eventualmente, podem não expressar o posicionamento do Conglomerado BB sobre os temas aqui tratados; é possível que divirjam substancialmente das visões de outras áreas correlatas do BB, mesmo que faça referências a recomendações publicadas por essas respectivas Áreas; podem ou não ser seguidas pela gestão da Carteira Proprietária do BB. As informações, opiniões, análises e avaliações contidas nesta publicação: contém dados e projeções informativos que são dependentes das hipóteses adotadas. Nessa medida, não devem ser tomados como base, balizamento, guia ou norma para quaisquer documentos, avaliações, julgamentos ou tomadas de decisões, sejam de natureza formal ou informal; foram fornecidas apenas como comentários gerais de mercado e não constituem quaisquer formas de aconselhamento pessoal, jurídico, tributário ou outro serviço financeiro regulamentado; não contém toda a informação desejável, ou seja, fornecem apenas uma visão limitada de classes de ativos no mercado, como Juros, Câmbio e Índice de Bolsas, de forma geral “Macro”, não avaliando valores mobiliários específicos e emissores determinados; não são uma pesquisa ou recomendação de investimento para fins regulatórios e não constitui uma análise substantiva; não são uma recomendação personalizada ou uma consultoria de investimento.  Desse modo, todas as consequências ou responsabilidades pelo uso de quaisquer dados ou análises são assumidas exclusivamente por quem as utiliza, eximindo o BB de todas as ações decorrentes do uso deste material. Ressalte-se que o BB não se responsabiliza por atualizar qualquer estimativa contida nesta publicação. O BB recomenda aos leitores da publicação que: antes de entrar em qualquer transação, certifiquem-se de que entende os potenciais riscos e retornos e verifique a compatibilidade com seus objetivos e experiência, recursos operacionais e financeiros e outras circunstâncias relevantes; procurem consultores para verificar limitações tributárias, legais e contábeis, sempre que necessário. Por fim, o BB esclarece que o acesso a esta publicação implica na total aceitação deste termo de responsabilidade e uso, não sendo permitido a reprodução, retransmissão e distribuição do todo ou de qualquer parte deste material sem a sua prévia e expressa autorização. Consultas, sugestões, reclamações, críticas, elogios e denúncias: SAC 0800 729 0722 Atendimento a Deficientes Auditivos ou de Fala 0800 729 0088 Ouvidoria 0800 729 5678

Quer dar uma nota para este conteúdo?

Utilizamos cookies para oferecer uma melhor experiência e personalizar os conteúdos de acordo com a nossa

Política de Privacidade.