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Mercado

Bolsa de NY estuda operar 24 horas por dia, como o mundo cripto, mas liquidez é um desafio

Publicado por: Broadcast Exclusivo

conteúdo de tipo Leitura3 minutos

Atualizado em

24/05/2024 às 12:29

Por Aline Bronzati, do Broadcast

Nova York, 24/05/2024 - Uma sondagem junto a operadores do mercado revela planos da Bolsa de Nova York (Nyse) na direção de realizar um antigo desejo de Wall Street: negociar ações 24 horas por dia. Se para nomes como Nvidia, Apple ou Microsoft o pregão interminável pode ser um sonho, para ativos de menor liquidez como ações de empresas brasileiras, a exemplo de Nubank e Pagseguro, o movimento pode se transformar em um pesadelo.

O risco de baixa liquidez na madrugada é o principal empecilho para que a Bolsa de Nova York avance nessa direção, alertam especialistas ouvidos pelo Broadcast . Seus planos foram revelados pelo Financial Times. De acordo com o jornal britânico, a equipe de análise de dados da maior bolsa do mundo questionou operadores sobre diferentes pontos, se as negociações 24 horas por dia deveriam ocorrer também no fim de semana ou somente de segunda a sexta.

O pregão interminável é um desejo antigo de corretoras, seja em Wall Street ou na Faria Lima - aqui, um sonho mais distante -, mas que ganhou quórum mais recentemente, impulsionado pelo mercado de criptoativos, que opera de maneira ininterrupta, sete dias na semana. "De certa forma, o mercado cripto é para as bolsas o que as fintechs foram para os bancos, antecipando uma necessidade de mercado", diz o CEO do Mercado Bitcoin, Reinaldo Rabelo.

No mercado, a possibilidade de a Nyse passar a negociar ações 24 horas por dia causa reações diferentes. Dentre os pontos positivos, estão a própria extensão do pregão, visto como uma tendência; redução de assimetrias diante de acontecimentos de grande impacto a exemplo dos ataques do Hamas a Israel, que aconteceram em pleno sábado, ou o índice de gastos com consumo (PCE, em inglês) de fevereiro, publicado no feriado de Sexta-feira Santa; além de, claro, maiores receitas para a bolsa e corretoras.

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Já do lado negativo, a principal preocupação é a baixa liquidez no caso de ações que não são consideradas "super ativos" e os efeitos em cascata como, por exemplo, casos de manipulação. Um mercado aberto 24 horas por dia também deixará as empresas mais expostas como, por exemplo, na divulgação de resultados ou outros anúncios, e ainda exigirá maior fiscalização, regras específicas, segundo especialistas.

"É um pouco estranho. A bolsa pode funcionar 24 horas, mas os operadores vão operar no período normal. Não vai haver liquidez", diz um profissional próximo à Nyse, na condição de anonimato, reforçando o ceticismo quanto à ideia.

"O efeito negativo é pequeno frente aos benefícios. É o sonho de todo corretor e há uma pressão do mundo da negociação para que o pregão seja estendido", afirma o CEO da corretora americana Avenue, Roberto Lee. "É uma tendência que não tem como fugir".

Ainda assim, há dúvidas sobre liquidez, pontua o sócio e gestor de ações da WHG, Gustavo Campanha. "Se for uma ação muito líquida, aí tudo bem, mas, operar em um horário maluco, só serve se tiver alguma notícia, senão, o operador vai ficar sozinho, travado com uma ordem", alerta.

Bolsa 24 horas

A consulta da Nyse ocorre em meio à ameaça de uma maior concorrência. A Securities and Exchange Commission (SEC, que regula o mercado de capitais americano) examina novo pedido da startup 24 Exchange (24X), investida do bilionário americano Steve Cohen por meio do seu fundo Point72 Ventures, para lançar a primeira bolsa do mundo que vai operar 24 horas por dia. É a segunda vez que a novata tenta tal passo depois de ter recuado nessa ambição no ano passado por problemas técnicos.

Independente da posição, se a favor ou contra, especialistas atentam que o pregão em Wall Street já funciona com horário estendido. Atualmente, a Bolsa de Nova York opera das 9h30 às 16 horas (horário local). Mas as corretoras esticam o horário de negociação para os investidores em cerca de 4 horas antes da abertura e depois do fechamento, nos chamados pré-mercado e after hours.

Além disso, corretoras como Robinhood e Interactive Brokers oferecem a investidores institucionais acesso 24 horas por dia, durante a semana. E há ainda o chamado "dark pool", sistema automatizado (ATS, na sigla em inglês) como, por exemplo, a Blue Ocean, e que dá acesso a investidores de varejo, em especial, da Ásia e Europa, em fuso diferente dos EUA.

Mesmo hoje em dia, a liquidez antes da abertura e após o fechamento em Wall Street é pequena. O professor de finanças da Universidade de Georgetown, James Angel, não prevê um volume massivo. A maioria dos investidores nos EUA gosta de "dormir à noite", brinca ele. Mas atenta que o tema evoluiu no último ano e que há demanda para manter uma bolsa operando 24 horas por dia. "Não tenho ideia de quanto volume farão no meio da noite. Mas não cabe realmente à SEC decidir se é comercialmente viável ou não. Sou a favor de deixar o mercado decidir", diz o acadêmico, em carta à SEC, apoiando o plano da startup 24X.

Lee, da Avenue, menciona ainda uma demanda geracional. "A geração que aprendeu a negociar criptomoeda, 24 horas por dia, 7 dias por semana, e que liquida em um segundo, não consegue entender por que, no mercado mais desenvolvido do mundo, comprar ações da Apple demora dois dias para liquidar e tem horário de começo e fim".

Procurada, a Nyse não se manifestou sobre o assunto.

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