mulher negra usando computador com gráficos do mercado financeiro

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B3 deve deixar de ser a única Bolsa de valores no Brasil; vem aí a Bolsa do Rio

Hoje, a B3 opera sozinha como bolsa de valores, mas a ATG tenta entrar no mercado brasileiro e a A5X planeja bolsa de derivativos

Publicado por: Broadcast Exclusivo

conteúdo de tipo Leitura5 minutos

Atualizado em

04/07/2024 às 11:44

Por Adriana Chiarini, Cynthia Decloedt, Denise Luna e Mateus Piovesana, do Broadcast

Rio de Janeiro, 04/07/2024 - A B3 pode deixar de ser a única bolsa brasileira em breve. "Deem as boas-vindas à Bolsa do Rio de Janeiro", anunciou o prefeito da cidade, Eduardo Paes, em vídeo no seu perfil do Instagram na quarta-feira, 03. No mesmo dia, Paes sancionou a lei municipal que reduziu impostos para a instalação da nova bolsa. Há pelo menos 3 grupos interessados em concorrer com a única bolsa atual, a B3, e mais um projeto alternativo de bolsa baseado em blockchain.

O Americas Trading Group (ATG), que pertence à gestora de recursos Mubadala Capital, de Abu Dhabi, está com seu pedido em aprovação pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para abrir uma bolsa de valores mobiliários e planeja o início dos trabalhos para o segundo semestre de 2025, após um período de 6 meses de testes. A Central de Serviços de Registro e Depósito aos Mercados Financeiro e de Capitais (CSD BR) está investindo R$ 200 milhões na sua plataforma e quer realizar serviços de câmara de compensação, também chamada de clearing, e central depositária. A CSD BR tem Santander, BTG Pactual e a bolsa de Chicago (CBOE) como investidores.

Já a A5X, recém-criada por ex-sócios da XP e por Nilson Monteiro, presidente da corretora Ideal, levantou R$ 200 milhões para abrir uma bolsa focada em derivativos e futuros a partir de 2026. Além desses três grupos, a Núclea (antiga Câmara Interbancária de Pagamentos - CIP), registradora que tem 48 bancos como sócios, contratou a fintech Parfin em 2023 para construir uma infraestrutura própria na rede blockchain, que é base dos criptoativos. A registradora também é sócia do grupo Solum na Bee4, uma bolsa de ações tokenizadas de empresas pequenas e médias, que opera no ambiente experimental da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

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A bolsa da ATG vai trabalhar em um primeiro momento com transações no mercado à vista de ações, aluguel de ações, venda e negociações de cotas de fundos e, em uma segunda fase, vai para o mercado futuro de opções e derivativos. "Nós vamos ter toda a cesta de produtos que a B3 também possui. E é importante dizer, trabalhando junto com a B3", afirmou o presidente da ATG, Claudio Pracownik, na cerimônia de sanção da lei carioca.

Como a B3 virou a única bolsa de valores no Brasil?

Há países e cidades com mais de uma bolsa. Os Estados Unidos, por exemplo, têm mais de dez e a cidade de Nova York é sede tanto da New York Stock Exchange (NYSE) quanto da Nasdaq, as duas mais importantes bolsas da maior economia do mundo.

O Rio de Janeiro já teve uma Bolsa de Valores, fundada em 1851 por Dom Pedro II, que teve seu auge nos anos 1950 e 1960. Nela foram feitas as privatizações emblemáticas dos anos 90 e da primeira década dos anos 2000, como a da Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale.

Mesmo no Estado de São Paulo, havia outras bolsas, com a de Santos, além da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), origem da B3.

Depois de 1989, quando a Bolsa do Rio quebrou após apostas agressivas do investidor Naji Nahas, que acabou não conseguindo bancá-las, a Bovespa era a líder nesse mercado e foi concentrando a liquidez. Primeiro, a Bovespa formou a BM&FBovespa ao se juntar com a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), em 2008. Depois, em 2017, foi a vez da Central de Custódia e de Liquidação Financeira de Títulos Privados (Cetip), entrar no negócio. O terceiro B da B3 é uma referência à Cetip como mercado de balcão, em que os negócios de compra e venda de títulos como debêntures são realizados entre compradores e vendedores.

A expressão "mercado de balcão" vem dos tempos em que se negociava a compra e venda de títulos privados em balcões nas corretoras.

Além disso, as empresas brasileiras podem optar por abrir capital em outras bolsas no exterior. Nos últimos anos, pelo menos 18 companhias brasileiras optaram por fazer IPO em Nova York, entre elas Nubank, XP, Stone e PagSeguro.

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Qual é a importância da liquidez para uma bolsa de valores?

A liquidez é chave para o sucesso do negócio. Ela é depende da quantidade de investidores, interesse e poder de compra deles para adquirir as ações que estão sendo vendidas. Para vender, é preciso que haja comprador. Para comprar, é necessário também que haja bons ativos, ou seja, depende também do interesse das companhias em listar suas ações na nova bolsa.

Para o CEO da CSD, Edivar Queiroz, a própria concorrência tende a ampliar o mercado brasileiro, a liquidez total nele, e beneficiar assim a própria B3, ao permitir a chamada arbitragem de preço - negociação em que o investidor tenta ganhar dinheiro ao arbitrar os preços de um mesmo ativo em duas bolsas diferentes, o que já acontece com ações listadas no Brasil e que em Nova York.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o executivo da ATG compartilham da visão de Queiroz de que a concorrência pode criar liquidez. "Ter duas bolsas de valores é bom para o País e, ouso dizer, é bom para a B3, porque amplia o mercado para todos. Você está falando, por exemplo, de poder comprar ações da Petrobras na B3 e vender na bolsa do Rio, se essa for a melhor cotação para o investidor", disse Pracownik. "Nós estamos falando de dupla negociação dos mesmos papéis, dar maior liquidez", afirmou.

Segundo Pracowni, a B3 concordou em ser depositária das ações negociadas pela ATG, após uma arbitragem determinada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), mas a ATG deixou de lado o plano de usar a câmara de compensação da B3 e terá uma própria, aberta a todos.

Em relatório sobre os concorrentes futuros da B3, o Goldman Sachs observou que "uma nova bolsa teria que criar seus próprios contratos de derivativos listados e não simplesmente replicar os contratos da B3, o que também deve limitar o impacto potencial na B3".

O presidente da B3, Gilson Finkelsztain, havia comentado em entrevista ao Broadcast em junho sobre a dificuldade de aumentar a liquidez. "Ouço de participantes do mercado que o limite à liquidez é o Risco Brasil", afirmou, referindo-se ao grau de risco soberano. Há grandes investidores institucionais, como fundos de pensão, cujas regras só permitem investir em países que tenham grau de investimento pelas agências de rating - classificação de risco que o Brasil já teve no passado.

De acordo com o CEO da B3, "o maior custo para o investidor, não é a tarifa, o emolumento, é a liquidez. Liquidez é a maior beleza da bolsa e isso é resultado de um ecossistema bem povoado por diversas classes de investidores".

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